31 de janeiro de 2010

A Doutrina da Reconciliação

A Doutrina da Reconciliação

INTRODUÇÃO

A doutrina da Reconciliação é, certamente, uma das mais doces nas Escrituras. Nela encontramos a manifestação do amor de Deus em Cristo Jesus, fazendo a paz e removendo a inimizade que causava separação entre Ele e o pecador.

Neste estudo apresentaremos uma abordagem sistematizada da doutrina da reconciliação. Nosso objetivo é considerar o ensino a partir das principais referências bíblicas sobre o tema, passando pelas informações no Antigo Testamento e relacionando a doutrina com outros pontos doutrinários relevantes. Para tanto abordaremos temas como a natureza da reconciliação, o autor, o agente, os embaixadores, o ministério, o tempo, os meios, os objetos e as bênçãos da reconciliação.

Deste modo esperamos oferecer ao leitor uma abordagem prática de como Deus promoveu a nossa reconciliação em Cristo Jesus, removendo a inimizade que nos separava e nos impedia de desfrutar todas as graças decorrentes da obra expiatória de Cristo Jesus.

Crer na doutrina da reconciliação é descansar na maneira graciosa como Deus trata aqueles que foram comprados na cruz do calvário.

1 - O USO DO TERMO NO NOVO TESTAMENTO

Nas ocorrências do termo katallasso no NT encontramos o registro, nos textos pertinentes, das seguintes variações – katallaghn, katallagh e katallaghv. Segundo Berkhof os principais termos para reconciliação no Novo Testamento são “katalasso e katalage - significam ‘reconciliar’ e ‘reconciliação’. (…) O ofensor reconcilia, não a si próprio, mas a pessoa ofendida.”[1] (katallaghn, cf. ocorrência em Rm. 5.11).

O termo, no seu uso mais comum, discute a reconciliação no âmbito dos relacionamentos conjugais. E, conforme as anotações do Theological Dictionary of the New Testament a idéia no texto de 1ª Co. 7.11 não é de que necessariamente a esposa que busca a reconciliação tenha alguma culpa, mas está ativamente interessada em buscá-la.[2]

Já nas ocorrências mais específicas que norteiam a relação Deus-Homem, apenas o apóstolo Paulo faz uso do termo com as variações supracitadas. Mas a idéia não é a de que Deus é reconciliado ou reconcilia a si mesmo, mas a de que Ele próprio proporciona a reconciliação do homem consigo mesmo, bem como do mundo[3]. Para corroborar com este pensamento devemos lembrar o caráter imutável de Deus. Ele não pode sofrer qualquer tipo de mudança, por isso, o que muda é a nossa relação com ele.

2 - A IDÉIA DA RECONCILIÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

A estrutura do culto do Antigo Testamento já trazia consigo o conceito de reconciliação.

Ao falar sobre o tema Calvino diz:

Ora, visto que o uso da lei foi múltiplo, como se verá melhor no devido lugar, na verdade foi especialmente outorgada a Moisés e a todos os profetas a incumbência de ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, donde também Paulo chama Cristo o fim da lei (Rm 10.4). [4]

Todos os elementos apontavam para Cristo e para a sua obra. Mais especificamente no propiciatório já encontramos referências à idéia da doutrina bíblica da reconciliação.

Na estrutura religiosa do AT encontramos o Tabernáculo como uma espécie de morada provisória do Senhor no meio de Israel [5]. Lá, além do lugar santo encontrávamos também o Santo dos Santos, onde o sumo sacerdote entrava uma vez por ano para fazer a expiação do pecado do povo. Ali estava a Arca da aliança e sobre ela uma “tampa” chamada de “Propiciatório”[6]. Ao borrifar o sangue sobre o propiciatório a ira de Deus era aplacada e o resultado era o perdão do pecado e a restauração da comunhão do pecador à comunhão com Deus. [7] Devemos lembrar que objetivamente isto acontece na cruz, quando o Cordeiro de Deus é imolado para que fossemos reconciliados com ele. Uma obra especial e cara, como declara Baillie, que diz: “Nossa reconciliação é infinitamente cara a Ele, não no sentido de que foi difícil para ele nos perdoar, (…) É sua natureza amar e perdoar.”.[8]

Todo esse rito cerimonial do culto veterotestamentário apontava para a reconciliação que encontramos em Cristo Jesus. Quando o Messias veio ele se tornou a nossa propiciação, como se observa na declaração de Paulo: Romanos 3:25 - a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;

3 - A NATUREZA DA RECONCILIAÇÃO

Stott diz que reconciliação tem a ver com a nossa inimizade contra Deus e a nossa alienação dele. [9]

Assim, a reconciliação, propriamente dita, é a remoção desta alienação proporcionando uma relação harmoniosa e pacífica com Deus.

Esta idéia fica mais clara quando percebemos, por exemplo, a argumentação de John Murray, que expande a idéia. Ao comentar o texto de Romanos 5.11, uma das referências bíblicas centrais acerca da doutrina da reconciliação, ele afirma que na reconciliação o que se destaca não é a remoção da nossa inimizade contra Deus, pelo contrário, o verso supracitado salienta o fato de que Deus removeu de nós a alienação que havia da parte dEle para conosco.[10]

Sttot também observa que esta reconciliação, ou a remoção da base da alienação, tem a ver com a não imputação das nossas transgressões. Ele diz “De modo que em sua misericórdia Deus recusou-se a levar em conta contra nós os nossos pecados ou exigir que sofrêssemos a penalidade deles.[11]. Contudo, vale ressaltar que esses pecados foram imputados à Cristo. Portanto, cremos que somos plenamente reconciliados com Deus e aceitos por ele, porque nossos pecados foram imputados a Cristo e Sua justiça nos foi imputada.

Desse modo, podemos dizer que a Reconciliação é a obra do Pai através da qual Ele remove a alienação do pecado [12], libertando o homem de toda inimizade, por meio de Cristo. Assim, Deus remove a barreira tanto por causa da nossa rebeldia, quando por causa de sua ira. Devemos notar ainda que ao fazê-lo por meio de Cristo, Deus se revela como o verdadeiro Emanuel, ensinando-nos que toda a manifestação do seu amor pelo eleito tem seu fundamento no sacrifício de Cristo. [13]

3.1 A RECONCILIAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

Tal qual na doutrina da justificação, também podemos pensar em termos de reconciliação objetiva e reconciliação subjetiva.

RECONCILIAÇÃO OBJETIVA

Ao falar sobre a expiação objetiva, Berkhof diz:

Que dizer que a expiação influi primordialmente na pessoa por quem é feita. Se um homem age mal e presta satisfação do mal que praticou, esta satisfação visa a influir na pessoa que praticou o mal, e não na parte ofendida. No caso em foco, significa que a expiação foi destinada a propiciar a Deus e reconciliá-lo com o pecador. [14]

Certamente, quando falamos em termos de uma reconciliação objetiva devemos lembrar das palavras do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios que diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Assim, na reconciliação objetiva devemos considerar dois fatores: Primeiramente, Deus, na qualidade de ofendido é o agente que remove a base da alienação tornando-se, em Cristo, favorável ao homem. E em segundo lugar, ele faz isto na cruz, como uma obra terminada, portanto, realizada de uma vez por todas.

Esta reconciliação objetiva é a base da reconciliação subjetiva

RECONCILIAÇÃO SUBJETIVA

Já no seu aspecto subjetivo a reconciliação se relaciona com a posse e o gozo desta condição de reconciliação. Esta condição está intimamente relacionada ao ministério da reconciliação que foi confiado à Igreja. Quando anunciamos o evangelho proclamamos a mensagem da reconciliação convidando o pecador para este relacionamento com o Senhor. Stott ainda vê outros aspectos envolvidos nesta reconciliação subjetiva que ele chama de plano horizontal da reconciliação. [15] Neste plano horizontal vemos a reconciliação como um aspecto motivador da nova relação na comunidade cristã, formada por judeus e gentios, senhores e escravos e etc.

Há outros estudiosos que trabalham esse conceito de revelação objetiva e subjetiva em termos de ação e resultados.

Ivan Ross diz: “A reconciliação como ação seria a remoção da base da alienação de Deus e a reconciliação como resultado seria a relação harmoniosa e pacífica estabelecida em virtude da base da alienação de Deus para conosco ter sido removida.”[16] Uma forma diferente de trabalhar os conceitos de objetiva e subjetiva.

4 - O AUTOR DA RECONCILIAÇÃO – DEUS, O PAI

Ao discutirmos a autoria da reconciliação devemos voltar os nossos olhos especialmente para 2ª Coríntios 5.18-21. Lá, o apóstolo Paulo dá uma clara informação sobre o assunto em questão. Logo no início do verso 18 ele diz que “Tudo provém de Deus”, esta expressão, por si só, sugere que Deus é a fonte última da nova vida, o que é observado mais especificamente quando analisamos esta expressão em conexão com a mensagem do verso 17, que fala dos salvos como novas criaturas. Contudo, a identidade do Agente da reconciliação torna-se mais clara na seqüência do verso 18, onde ele diz que “Deus ... nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo”.

Ora, é clara e lógica a referência à primeira pessoa da Trindade, pois, ao destacar a Segunda Pessoa – Cristo, fica evidente que o termo Deus não poderia se referir a outro senão ao Pai.

A mesma idéia é reforçada no verso 19 quando ele diz que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Uma clara declaração da autoria da reconciliação. Ela, portanto, não é uma iniciativa do Filho, nem tampouco, do homem, mas do Pai e somente do Pai. Veja que Paulo diz que Deus é que estava reconciliando consigo o mundo.

Em todas as ocorrências do verbo reconciliar no Novo Testamento Deus é sempre o sujeito.

5 - O AGENTE DA RECONCILIAÇÃO – CRISTO

Um segundo conceito importante diz respeito ao agente da reconciliação. A Confissão de Fé de Westminster diz:

O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente à justiça do Pai. e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus.[17]

O texto da confissão deixa a sugestão de que há uma participação do Filho na obra de reconciliação. Esta participação está apresentada no texto de Paulo em 2ª Coríntios 5.18-19. Lá, Paulo diz que Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo. Isto é, pela instrumentalidade de Jesus.

Stott diz:

(...) se Deus é o autor, Cristo é o agente da reconciliação. Os versículos 18 e 19 do capítulo 5 de 2 Coríntios tornam essa verdade clara como o cristal. "Deus. . . nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo" e "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo". Ambas as afirmativas nos dizem que Deus tomou a iniciativa da reconciliação, e que ele o fez em Cristo e por meio dele. [18]

A mesma idéia é fortalecida na argumentação de Calvino, nas suas institutas quando ele diz:

Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo. [19] (grifo meu)

Deste modo, fica claro que há uma participação de Cristo no ministério da reconciliação.

6 - OS EMBAIXADORES E O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO – OS SALVOS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra (logon) da reconciliação.

As Escrituras afirmam que aos filhos de Deus foi confiado o anúncio da reconciliação. Aqui devemos lembrar que embora a obra da reconciliação tenha sido consumada na cruz é necessário que os pecadores sejam convidados ao arrependimento. [20] Neste aspecto devemos lembrar que a pregação fiel do evangelho é um convite à reconciliação do homem com Deus.

Em 2ª Co. 5.18 o apóstolo Paulo diz que recebemos o ministério da reconciliação. Aqui devemos lembrar que a palavra usada para se referir a ministério é diakonian, que pode ser traduzida como ministério, ministração ou serviço, podendo referir-se aqueles que pelo mandato de Deus proclamam e promovem a religião entre os homens [21].

Segundo Calvino, a graça da reconciliação é aplicada em nós pelo ministério do evangelho e isto, de tal modo, que podemos compartilhá-lo. [22] Mais adiante, no mesmo comentário, falando sobre o ministério da reconciliação ele escreve:

Esta é uma das descrições mais notáveis do evangelho como uma mensagem entregue através de um embaixador com o fim de reconciliar os homens com Deus. É uma dignidade singular de ministros do evangelho sermos enviados por Deus com um mandato como mensageiros e, por assim dizer, com a garantia de sua boa vontade para conosco. (…) Aos ministros é dada a autoridade para nos declararem estas boas novas e fazer aumentar nossa segurança no amor paternal de Deus para conosco. É verdade que qualquer outra pessoa pode ser-nos testemunha da graça de Deus, mas Paulo ensina que este dever é imposto especialmente aos ministros. [23]

Assim, podemos dizer que o ministério da reconciliação é a declaração, divinamente autorizada, da obra de Cristo em favor do pecador.

Quando anunciamos o evangelho anunciamos o ministério da reconciliação. E, considerando que todos os crentes são comissionados por Deus para anunciar as virtudes de Jesus, vale reiterar o fato de que todos somos ministros da reconciliação. Veja o que diz Pedro: 1 Pedro 2:9 Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;.

7 - O TEMPO DA RECONCILIAÇÃO

Para Calvino o fundamento e a causa da reconciliação é o sacrifício de Cristo.[24] Pensando a partir da obra de Cristo podemos afirmar que a reconciliação tem a ver com o efeito da obra de Cristo.

Ao falar sobre o tempo da reconciliação, Stott observa que devemos considerar o tempo verbal grego. A idéia de “reconciliou” não é a de algo que está sendo feito, mas de algo que foi feito. Para argumentar esta idéia, Stott cita Forsyth:

Deus estava em Cristo, reconciliando", na realidade, reconciliando, terminando a obra. Não foi um caso tentativo, preliminar. . . A reconciliação estava terminada na morte de Cristo. Paulo não pregava uma reconciliação gradual. Ele pregava o que os antigos teólogos costumavam chamar de obra terminada. . . Ele pregava algo feito uma vez por todas — uma reconciliação que está na base da própria composição da alma, não um convite apenas.[25]

Portanto, a obra de reconciliação foi terminada na cruz, mas é necessário que os pecadores creiam e se arrependam para que assim sejam reconciliados com Deus.

8 - OS MEIOS DA RECONCILIAÇÃO

Uma das declarações mais impressionantes do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios é quando ele diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. O que num outro capítulo deste trabalho foi observado como determinando o autor da reconciliação. Contudo, Calvino observa que mais adiante Paulo deixa claro os meios pelos quais esta reconciliação foi operada, e ao falar sobre isso ele declara:

A forma pela qual ele fez isso é em seguida adicionada, ou seja, não imputando [= computando] aos homens as suas transgressões.

E isto é igualmente explicado ao mostrar ele como Cristo fez propiciação pelos nossos pecados e adquiriu justiça para nós. [26]

Deste modo, o teólogo francês assevera que ao não imputar aos homens a transgressão dos seus pecados, Deus estava reconciliando o pecador consigo mesmo, sendo este, portanto, o meio pelo qual o pecador é reconciliado. E sobre isso ele observa:

Notemos bem como os homens se voltam para o favor divino – sendo considerados justos, recebendo a remissão dos seus pecados. Enquanto Deus computar os nossos pecados, ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão, porquanto ele não pode contemplar nem favorecer os pecadores como se fossem amigos. Porém, isto pode parecer contradição do que se diz alhures, ou seja “fomos amados por ele antes da fundação do mundo” (Ef. 1.4), e sobretudo João 3.16, onde ele diz que o amor por nós foi a razão por que ele expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo, porquanto a causa deve sempre preceder o efeito.

Minha resposta é que fomos, de fato, amados desde antes da fundação do mundo, porém não fora de Cristo. Porém concordo em que o amor divino, no tocante a Deus não se prendia a tempo nem a seqüência; porém, no tocante a nós o seu amor tem seu fundamento no sacrifício de Cristo.

Pois quando pensamos em Deus, não pelo prisma de um mediador, só podemos concebê-lo como estando irado conosco; porém, quando um mediador se interpõe entre nós e ele, descobrimos que ele é pacificado em relação a nós.

Mas já que é também necessário que saibamos que Cristo nos veio da fonte da livre misericórdia de Deus, a Escritura ensina explicitamente que a ira do Pai foi aplacada pelo sacrifício do Filho, e assim o Filho foi oferecido para a expiação dos pecados dos homens, porque Deus teve misericórdia deles, e fez deste sacrifício o penhor do recebimento deles em seu favor.

Sintetizando: onde quer que haja pecado, também estará presente a ira divina, pois Deus não nos será propício enquanto não tiver apagado nossos pecados, não mais no-los atribuindo. Uma vez que a nossa consciência não pode apropriar-se desta benção sem a intervenção do sacrifício, Paulo está correto em fazer do mesmo o fundamento e a causa da reconciliação até o ponto em que estamos envolvidos. [27]

Deste modo, como observamos na análise de Calvino, se o fato de Deus estar em Cristo, não imputando aos homens as suas transgressões, tornou-se o meio da reconciliação, mais especificamente neste ato, o fundamento e a causa repousaram no próprio sacrifício do Redentor.

Assim, estabelece-se a idéia de que o fato de não imputar aos homens as suas transgressões torna-se o meio pelo qual a reconciliação se processa.

Mais adiante, Calvino observa que, de maneira mais subjetiva, a graça da reconciliação nos é aplicada por intermédio do evangelho. [28] Esta aplicação está intimamente relacionando com o que chamamos neste trabalho de o ministério da reconciliação.

9 - OS OBJETOS DA RECONCILIAÇÃO.

DEUS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.

Ao comentar sobre este texto Calvino faz uma observação extremamente pertinente quando diz:

Alguns consideram esta expressão como significando simplesmente que “Deus estava, em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo”, porém, o significado aqui é mais amplo, mais rico do que isto, pois ele está dizendo, primeiramente que Deus estava em Cristo, para em seguida dizer que, por meio desta intervenção, ele estava reconciliando o mundo consigo mesmo. Esta referência é ao Pai (…) portanto, Paulo estava dizendo que o Pai estava no Filho ...[29]

Devemos lembrar que o pecado nos separou de Deus, agora o Pai, em Cristo, nos reconcilia consigo mesmo. Esta é uma ação da livre graça de Deus que, na obra de Cristo, remove a base da nossa alienação, tornando-se favorável ao pecador redimido. John Gill observa que esta reconciliação Deus fazia por meio de Cristo, ou seja, ele era o seu instrumento.[30]

PECADOR

2 Coríntios 5:18 Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,

Calvino lembra que fora de Cristo Deus se acha insatisfeito com todos os homens. [31] E, mas adiante no seu comentário ele observa: “Por que Deus, em Cristo, se manifestou aos homens? Para que houvesse reconciliação, a fim de que a hostilidade chegasse ao fim e nós, como estranhos que éramos, fôssemos adotados como filhos. [32]

A CRIAÇÃO

Colossenses 1:20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele,reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

O uso do termo reconciliação aqui pode ter um sentido secundário aqui. Veja o que diz Stott:

Parece mais provável, portanto, que principados e potestades foram "reconciliados" no sentido do capítulo seguinte, a saber, que foram "desarmados" por Cristo, que "publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Colossenses 2:15). Admitimos que é um uso estranho da palavra "re conciliados", mas, uma vez que Paulo também descreve essa reconciliação como "fazendo a paz" (1:20), talvez F. F. Bruce tenha razão ao dizer que o apóstolo está falando de uma "pacificação" de seres cósmicos "submetendo-se contra suas vontades a um poder que não podem resistir" [33]

Contudo, a posição de Hendriksen, nesse particular nos parece mais de acordo com o ensino geral das Escrituras. Antes de considerá-la devemos lembrar que os efeitos do pecado original se estenderam a toda a criação. Exatamente por isso encontramos nas Escrituras referências à deterioração da natureza em função do pecado, como o registro de Gênesis 3.18, que afirma que depois do pecado a terra passou a produzir cardos e abrolhos. Devemos lembrar que a salvação está mais particularmente relacionada com o mundo natural [34], sendo mais especificamente destinada aos homens

Por tudo isso, Hendriksen comenta:

O significado real de Cl. 1.20 é provavelmente o seguinte: O pecado arruinou o universo. Ele destruiu a harmonia entre as criaturas e também entre todas elas e seu Deus. No entanto, por meio do sangue da cruz (cf. Ef. 2.11-18), o pecado, em princípio, foi vencido. A demanda da lei foi cumprida, sua maldição destruída (Rm. 3.25; Gl. 3.13). Assim também a harmonia foi restaurada. A paz foi estabelecida. Por meio de Cristo e sua cruz o universo é reconduzido ou restaurado ao seu correto relacionamento com Deus no sentido de que, como justa recompensa por sua obediência, Cristo foi exaltado à destra do Pai, e, desta posição de autoridade e poder, governa todo universo para o bem da igreja e para a glória de Deus. Esta interpretação harmoniza a presente passagem com as outras a ela relacionadas, escritas durante este mesmo aprisionamento. [35]

Estas considerações nos fazem crer que a proposta de Cl. 1.20 é referi-se a efeitos no mundo natural, o que, como já dissemos, parece mais de acordo com a soteriologia e o ensino geral das Escrituras.

Certamente essa dimensão da reconciliação é mais subjetiva, pois só será contemplada, na sua plenitude, na segunda vinda de Cristo Jesus.

10 - BÊNÇÃOS DA RECONCILIAÇÃO

PAZ

O texto de Romanos 5.1, ao falar sobre o efeito da justificação, aponta para a paz com Deus. Contudo, como justificação e reconciliação são termos paralelos, podemos dizer que uma das bênçãos da reconciliação é a paz.

Calvino, comentando este texto diz: Paz, portanto, significa serenidade de consciência, a qual tem sua origem na certeza de haver Deus nos reconciliado consigo mesmo. [36] Este aspecto da paz como uma das bênçãos da reconciliação ganha ainda mais expressão quando encontramos Anders Nygren afirmando que paz é um conceito que implica relacionamento e, no caso específico trata do relacionamento entre Deus e o homem. E este relacionamento é possível porque nós fomos reconciliados com Deus através da morte do seu Filho. [37]

ACESSO AO SENHOR

Outra benção anotada por Stott é o acesso a Deus, como significando uma comunhão ativa com Deus. Para tanto, o teólogo nos remete a Ef. 2.16-18 e 3.12. Ao comentar estas passagens ele diz:

"Acesso" a Deus (prosagoge) é outra bênção da reconciliação. Parece denotar a comunhão ativa com Deus, especialmente em oração, a qual seus filhos reconciliados desfrutam. Duas vezes Paulo equipara "acesso a Deus" a "paz com Deus", a primeira vez atribuindo-os à nossa justificação em vez de à nossa reconciliação (Romanos 5:1-2), e a segunda vez explicando o "acesso" como uma experiência trinitariana, na qual temos acesso ao Pai através do Filho mediante o Espírito (Efésios 2:17-18), e "pelo qual temos ousadia e acesso com confiança" (Efésios 3:12). [38]

Assim, em virtude da reconciliação temos uma comunhão com Deus. Uma comunhão que pode ser qualificada como imperdível. Uma benção maravilhosa da graça do Senhor.

CONCLUSÃO

Deus, na sua infinita misericórdia, tem providenciado todos os meios necessários para que desfrutemos do seu amor. Ao ser Ele o reconciliador, em Cristo Jesus, somos colocados diante da sua livre e superabundante graça.

Nada é mais doce, confortador e revigorante do que saber que em Cristo Jesus toda inimizade é removida, de tal forma que somos convidados a desfrutar de todas as bênçãos decorrentes de nossa relação filial com o Pai.

O desenvolvimento desta temática trará a igreja a dimensão preciosa da obra de Cristo em nosso favor e nos direcionará na adoração e no louvor que devemos prestar ao seu santo nome.

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[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 376

[2] KITTEL, Gerhard and FRIEDRICH, Gerhard. Theological Dictionary of The New Testament – Abridged in one volume. Reprinted. Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Company, 1992, p. 40

[3] Idem, p. 41

[4] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 p. 28

[5] A Doutrina da Propiciação - http://www.ibcambui.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=198:a-doutrina-da-propicia&catid=51:estudos&Itemid=80. Acessado em 20 de setembro de 2009.

[6] Para maiores detalhes veja os textos em Ex. 25.17-22; Lv. 16.5-19. [7] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software– verbete “propiciação”.

[8] BAILLIE, D.M. God Was In Christ - An Essay on Incarnation and Atonement. New York: Charles Scribner’s Sons, 1948. p. 174, 175.

[9] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 89

[10] MURRAY, John. Comentário Bíblico Fiel - Romanos. Editora Fiel. p. 198 [11] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. p. 88

[12] Deve se notar a relação intimamente necessária entre a doutrina da expiação e da justificação com a doutrina da reconciliação. Calvino diz: “Enquanto Deus computar os nossos pecados, Ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão”, contudo, ele ainda diz “o amor por nós foi a razão por que ele (Deus-Pai), expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo.” Comentário 2ª Coríntios, p. 122.

[13] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 122

[14] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 286

[15] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85 [16] ROSS, Ivan Gilbert. Apostila de Teologia Sistemática xerografada. CPO/IBEL

[17] A Confissão de Fé de Westminster -http://www.teologia.org.br/estudos/confissao_westminster.pdf acessado em 15 de agosto de 2009

[18] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[19] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 pág. 5

[20] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 88 [21] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Strong – verbete diakonian.

[22] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[23] Idem, p.120 [24] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 222

[25] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[26] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[27] Idem, p. 122 [28] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[29] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 121

[30] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Comentário 2ª Co. 5.19, GILL, John

[31] CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 121

[32] Idem, p. 121

[33] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 86

[34] Em Romanos 8.19-21 Paula fala da expectativa da criação em ser redimida, o que nos leva a considerar a possibilidade de uma relação entre a doutrina da reconciliação e a ordem natural da criação. Observações pessoais.

[35] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Colossenses e Filemon. Tradução de Ézia Cunha de Mullins. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1993. p. 106

[36] CALVINO, João. Romanos. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Bernardo do Campo: Edições Paracletos, 1997.comentário aos Romanos, p. 176

[37] NYGREN, Anders. Commentary on Romans. Translated by Carl C. Rasmussen. 5. ed. Sweden: Muhlenberg Press, 1949. p. 192

[38] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85

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Um ministério de reconciliação (5.11—6.10)

Um ministério de reconciliação (5.11—6.10)

A terceira característica do ministério de Paulo é a da reconciliação, à medida que ele continua a reafirmar a sinceridade dos seus atos junto aos coríntios (cf. 1.12; 2.17; 4.2). A abnegação dos seus motivos está garantida igualmente pelo temor ao Senhor e pelo amor a Cristo (5.11-15). A sua perspectiva é a da reconciliação de Deus em Cristo (5. 16-21); e o seu modo de vida como apóstolo é coerente com a sua mensagem (6.1-10). Esta é a resposta que os coríntios podem dar àqueles que procuram impugnar o caráter do ministério de Paulo.

a) O temor ao Senhor e o amor de Cristo (5.11-15). Contrariamente ao que alguns coríntios parecem afirmar, Paulo não é interesseiro nos seus atos para com eles. Ele não só é responsável perante Deus pela qualidade do seu ministério, mas também a verdadeira natureza do amor de Cristo por ele exclui tais motivos. -

Paulo tem em mente o fato e o caráter do juízo (cf. 10), e desta maneira está plenamente consciente da sua impressionante responsabilidade perante Deus.

Assim que (11) ele está persuadindo os homens, quando necessário, da integridade dos seus motivos ministeriais. A sua segurança contra qualquer falsidade de sua parte, é que somos manifestos a Deus. O seu apelo é ao que Deus conhece sobre ele; ou seja, todas as coisas (cf. Hb 4.12-13). Mas isto não é tudo: espero que, na vossa consciência, sejamos também manifestos. Será que o apóstolo não foi tão transparente com eles como tinha sido com Deus (cf. 4.2)? O seu apelo é à consciência moral (1.12; 4.2; 5.11), e não à inteligência orgulhosa deles (cf. 1 Co 1.18-3 1). Paulo acredita que no íntimo eles sabem que ele estava sendo verdadeiro.

Para que os seus adversários não interpretassem esta afirmação de sinceridade como uma manifestação de orgulho arrogante (cf. 2.17; 3.1), Paulo se apressa em esclarecer. Ele não recomeça a recomendar-se outra vez a eles.” Em lugar disso, o seu objetivo é dar a eles ocasião de vos gloriardes de nós (12). Ele deseja dotá-los de motivação e de recursos para responderem adequadamente àqueles que o atacam.

Eles estão em posição de defender o apóstolo (1.14) e deveriam fazê-lo contra os que se gloriam na aparência e não no coração. Coração, como Paulo usa, descreve “todo o homem, até as suas profundezas mais interiores”. Kuemmel escreve que aqui aparência (prosopon) “indica o homem centrado em si mesmo e hardia, o homem centrado em Deus”. O orgulho dos oponentes de Paulo é somente um pretexto, projetado para impressionar os homens e obter uma vantagem material, O fato de eles não se preocuparem com as realidades do ministério fica evidente pela sua oposição a Paulo como um apóstolo sofredor. O “orgulho deles está em uma demonstração de aparência exterior, e não no valor interior” (NEB).

Os coríntios podem perfeitamente defender a sinceridade do apóstolo (13) com base no fato de que “em Paulo o interesse próprio está integralmente derrotado, pois a sua vida é governada pela regra composta por duas partes: para Deus — para você”.’54 Bruce parafraseia a reivindicação de Paulo: “Nós estamos loucos, como podem pensar alguns? Bem, glorifiquemos a Deus. Somos calmos e sensíveis? Esta é a nossa vantagem”. Paulo foi acusado de estar enlouquecido (exestemen), assim como falaram de Jesus. “Diziam: Está fora de si” (exeste, Mc 3.21). A referência é à tensão espiritual constante em que Paulo vivia e trabalhava.

O entusiasmo do apóstolo, a sua superioridade absoluta às considerações egoístas comuns.., a sua afirmação decidida das verdades que estão além do alcance do sentido, o fogo sobrenatural que queimava incessantemente no seu peito... tudo isto constituía o estado que é descrito como estar “fora de si”, um tipo de loucura sagrada.., o discípulo e o Mestre, da mesma maneira, pareciam, àqueles que não os compreendiam, estar em uma condição de espírito demasiadamente tensa; no ardor da sua devoção, eles se permitiam ser levados além dos limites naturais.”

Considere a reação impulsiva de Festo à defesa de Paulo diante de Agripa. “Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar” (At 26.24).” Quando o comportamento de Paulo é excepcional segundo os padrões humanos normais, como ele insiste, é para Deus; e quando o seu comportamento é normal, é para vós. Portanto, em contraste com os seus críticos, o seu comportamento, como um todo, está livre do interesse próprio.

O que constrange Paulo a agir assim é o amor de Cristo (14). O verbo constranger se refere à “pressão que aprisiona e restringe” (cf. Fp 1.23).” O apóstolo é controlado, limitado pelo amor de Cristo por ele, O genitivo de Cristo é exclusivamente subjetivo” (cf. Rm 8.35,39). Isto é indicado pela referência imediata à morte de Cristo: um morreu por todos. Para Paulo, a morte de Cristo é “a doação que Cristo faz de si mesmo sem limites”.

Ela manifesta genuinamente o amor de Deus: “Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O resultado prático é que “o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Este é o amor que mantém Paulo cativo, um “amor que se origina e que termina com Deus em Cristo” (cf. Rm 8.28-3O).

Paulo prossegue explicando a razão pela qual o amor de Deus em Cristo tem tal poder controlador na sua motivação de vida. Ele tinha chegado a algumas conclusões vitais —julgando nós assim” — provavelmente logo depois da sua conversão. Trata-se de algo básico o fato de que Cristo morreu por todos (cf. 15). Com base nisto, duas coisas se seguem para demonstrar por que “o amor de Cristo... nos deixa sem opções” (Bruce).

A sua primeira convicção é de que, uma vez que um morreu por todos, logo, todos morreram. Este resultado implica em dois fatos em relação ao homem:

1) Quando Cristo morreu, toda a raça humana estava envolvida; pois Ele é “o Líder da raça humana... o princípio personificado da sua existência”. Assim, nele, “somos todos considerados mortos” e temos uma necessidade plena de redenção, ou Cristo não teria precisado morrer.

2) Como está indicado pela preposição por (hyper), não somente os homens estão identificados com Cristo pelo que Ele fez por eles (isto é, morreu), mas também, naquele evento, Ele mesmo se identificou com o pecado dos homens (versículo 21; cf. 1 Pe 2.24). A idéia de substituição está envolvida. Como escreve Tasker, “a morte de Cristo foi a morte de todos, no sentido de que Ele morreu a morte que todos deveriam ter morrido”)”

Em vista da morte de Cristo, todos os homens estão mortos, com respeito a qualquer auto-suficiência espiritual. A interpretação mais simples é a de que o fato de que Cristo morreu por todos prova que todos estavam mortos. Isto nos leva à segunda convicção de Paulo, que exclui o interesse próprio da vida daquele que é “controlado pelo amor de Cristo” (Moffatt). Ele morreu por todos, para que os que vivem no mundo não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (15; cf. Rm 14.7-9; 1 Co 3.21-23; Gl 2.20).

A Ressurreição e a Crucificação estão inseparavelmente unidas pela obra expiatória de Cristo (Rm 4.25; 1 Co 15.17). A identificação, pela fé, com Cristo na sua morte, envolve a união com Ele na sua vida ressurrecta (Rm 5.10). A antiga vida pecaminosa que tinha o “eu” como o foco do interesse dá lugar a uma nova vida centrada naquele que por eles morreu e ressuscitou. Isto “quer dizer que a raiz do pecado é removida da sua vida”. Assim, a justificação se alarga para envolver a santificação. Segundo as próprias palavras de Paulo: “o nosso velho homem foi com ele crucificado... a fim de que não sirvamos mais ao pecado... Ora, sejá morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos.., quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.6-11). Para Paulo, “o viver é Cristo” (Fp 1,21). Numa vida assim, não há lugar para uma vida centrada em si mesmo (cf. Fp 2.5-18). Paulo nunca procura meramente exaltar e favorecer a si mesmo, 1) porque ele é completamente transparente diante do Deus a quem ele deve responder pela integrida- de do seu ministério, O seu verdadeiro ser

a) é sincero para com os seus convertidos, 11,

b) está em contraste com a falsidade dos seus críticos, 12. Paulo não se recomenda (2) porque ele é sustentado pelo surpreendente alcance do amor de Cristo por ele.

Esse amor, realizado na morte de Cristo no seu nome, pode controlar radicalmente os seus motivos porque

a) ele está ciente do desamparo desesperador da morte da qual ele foi libertado, 14, e porque,

b) ele é conquistado pela qualidade transcendente da vida que ele está livre para viver, 15. Paulo é contido pela sua esmagadora responsabilidade para com Deus e pela sua vida gratificante em Cristo.

b) A perspectiva da reconciliação (5.16-21). A sinceridade de Paulo é fundamentada no próprio caráter da sua mensagem. Ele proclama o ato reconciliador de Deus em Cristo, um evento que forneceu o critério final para a sua visão de si mesmo e de outros. Em uma afirmação explicativa (16), que está relacionada com o pensamento de que “todos morreram” (14), Paulo afirma a sua maneira diferente de considerar os homens. Mesmo depois da sua descoberta do significado da morte de Cristo (“daqui por diante”), ele não “conhece ninguém em termos de um relacionamento que seja puramente deste mundo” (Bruce).

Segundo a carne (cf. 1.17; 10.2; 11,18) faz referência às distinções tipicamente mundanas raça, posição social, riqueza e títulos segundo as quais os homens se consideram uns aos outros. Os valores dos críticos de Paulo eram desse tipo (12). Mas a morte de Cristo removeu a importância desses parâmetros (14), pois eles são contrários à realidade resultante do Espírito (Rm 8.5; cf. 1 Co 3.1-4).

Mesmo que Paulo tenha anteriormente visto a Cristo pelo critério carnal da sua cultura (Fp 3.4-6; cf. 01. 1.13-14), ele já não mais o faz,16’ pois isto o levou a julgar a reivindicação de Jesus da filiação messiânica como sendo uma blasfêmia, e a perseguir os seus seguidores (1 Tm 1.13). Agora, ele conhece a Cristo como Ele realmente é o Senhor ressuscitado e exaltado (Fp 2.5-11). Paulo pode ter tido contato com Jesus durante o seu ministério terreno, mas isto não é o que ele está dizendo aqui.

Como uma conseqüência direta dos versículos 14-15, vem um dos versículos mais fascinantes na epístola, com a sua “antecipação grandiosa”. Da morte veio a nova vida que alguém vive no Senhor, “uma nova vida, num novo contexto” que Paulo descreve com a sua expressão mais característica: em Cristo (17). Estar em Cristo é ser uma nova criatura (cf. 016.15; Ef 2.10; 4.24). Por meio de Cristo, uma situação completamente nova foi criada (cf. Is 43.19; Ap 21.15). Uma nova ordem das coisas nasceu, trazendo consigo um novo homem. O homem é uma nova criatura “em virtude do novo relacionamento com Deus”. Todos os relacionamentos anteriores, embora honrados pela idade, já passaram, porque “eis que tudo se fez novo”.

O apóstolo está jubiloso com a idéia. O seu ministério está baseado no fato de que “tudo está obsoleto... e perde qualquer valor diante daquela perspectiva exclusiva à qual, de agora em diante, tudo converge”.” Denney sugere que “ser guiado por distinções mundanas é conhecer somente algumas poucas pessoas, conhecê-las pelo que é superficial na sua natureza; mas ver que tais distinções morreram com a morte de Cristo, e olhar os homens em relação a Ele, que é Redentor e Senhor de tudo, é conhecer todos os nossos irmãos, e conhecê-los não superficialmente, mas profundamente”.

Significativa para o pensamento de Paulo aqui, como também para toda a sua perspectiva, é a expressão em (en) Cristo.

Com ela, ele retrata vividamente a sua convicção de que é no seu relacionamento íntimo pessoal com o Cristo ressuscitado que a salvação de Deus é continuamente percebida; em Cristo está em contraste direto com “debaixo da lei” (cf. Rm 6.14; 8.2).” Estar em Cristo significa ser levado até a esfera da completa atividade redentora de Deus (5.21; 1 Co 1.30). Isto resulta de uma identificação realista com a pessoa de Cristo, crucificado e ressuscitado, uma morte e uma ressurreição com Cristo (Rm 6.1-12; Gl 2.20).

O conceito é social,como também individual (1 Co 1.2); estar em Cristo é um compartilhar (koinonia) em Cristo (1 Co 1.9). Paulo imagina Cristo — em virtude da ressurreição como o Segundo Adão (Rm 5.12-21; 1 Co 15.45) e o Líder de uma nova humanidade da qual Ele é “as primícias” (1 Co 15.20,23), o “primogênito” (Rm 8.29; Cl 1.18) e o “espírito vivificante” (veja 1 Co 15.45).

Cristo está realística e intimamente conectado com a nova humanidade como o seu Líder representativo. Nesta expressão-chave, em Cristo, Paulo parece ter feito uso da idéia hebraica de personalidade corporativa, pela qual pode-se pensar em uma comunidade em termos do seu líder representativo.”

Esta nova situação, na qual os homens são novas criaturas em Cristo, se deve ao ato criativo de Deus (cf. 4.6; Rm 3.25; 11.36). Tudo isso provém de Deus, testemunha o após- tolo, porque Ele nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo (18-19).

A reconciliação envolve a superação da alienação pessoal (Ef 4.18) ou da hostilidade (Cl 1.21), causadas pela rebelião do homem contra o seu legítimo Soberano. O resultado é uma nova condição de paz (Rm 5.1; GI 5.22; Ef 2.12-17; Fp 4.7) e a restauração da comunhão.

E o homem que deve ser reconciliado, e não Deus, como no judaísmo, pois é Deus quem realiza a reconciliação. Certamente está envolvida a ira de Deus contra o pecado dos homens (Rm 1.18; 2.5), caso contrário os pecados que praticaram não seriam computados contra eles. Mas Deus, no seu amor sagrado, tomou a iniciativa. Na cruz de Cristo, Ele se tornou o Agressor e invadiu a vida humana extraviada com um amor cheio de perdão. “Se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho... o amor de Deus está derramado em nosso coração” (Rm 5.10, 5).

A “maior mudança possível ocorreu no homem... na sua natureza completa e na sua vida”,que estão alteradas por causa da mudança do relacionamento entre Deus e o homem. O pecado é tratado adequadamente com (21) respeito ao que ele causou ao homem (Rm 7.5-25; 8.2) e também com respeito ao que ele significa diante da santidade de Deus (Rm 3.21-26). Para Paulo e para os coríntios a reconciliação foi realizada. O caminho agora está aberto para todos, e ao apóstolo foi confiado o ministério da reconciliação. Este é o clímax da passagem e a razão final pela qual ele não pode viver para si mesmo (13-15).

A sua tarefa é anunciar a novidade aos homens, isto é (“neste sentido”), Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Nenhuma vírgula deve ser colocada de- pois de Cristo (cf. AS RSV), pois o que Paulo quer destacar é o que Deus fez em Cristo. O elo (Rm 5.9-10) entre a reconciliação e a justificação (12) é mostrado na palavra imputando (“levando em conta”, ASV; cf, Rm 4.3-8).

A obra da reconciliação, no entanto, não está completa no que diz respeito ao mundo, pois Deus pôs (“depositou”, Weymouth) em Paulo a palavra187 da reconciliação (cf. 1 Co 1.18). A palavra (logos), segundo Cullmann, “é a revelação final e definitiva como tal”. A palavra da reconciliação é a essência do ministério da reconciliação. A palavra qualifica plenamente todas as fases do ministério. Este ministério não trata basicamente de dar bons conselhos, mas sim de comunicar aos homens as boas-novas do que Deus fez em Cristo pelo mundo. Assim, Paulo é servo da sua mensagem.

Como embaixadores da parte de Cris- to (cf. Is 52.7; Ef 6.20), Paulo e seus colaboradores servem como representantes de (hyper) Cristo (20). O seu trabalho apostólico é semelhante ao de um poderoso representante de um imperador antigo. A sua dignidade e autoridade são as do seu Soberano. Não é como se, mas “vendo que” Deus por nós rogasse (Weymouth), a base do seu apelo urgente e piedoso. Ele insiste, da parte de Cristo, que o mundo se reconcilie com Deus. Aqui estão o valor e a dinâmica do seu ministério. Deus, pelo Espírito de Cristo, está por trás da pregação de Paulo e na verdade fala através dele. A sua palavra é a palavra de Deus (cf. 1 Ts 2.13).

Uma teologia do ministério cristão pode ser encontrada nestes versículos. A reconciliação dos homens tem duas causas eficazes: 1)o que Deus fez em Cristo o fez pecado por nós; e 2) como resultado disso, o que Cristo significou para nós nele, fôssemos feitos justiça de Deus (21). Bengel sugere que “Ele foi feito pecado da mesma maneira como nós somos feitos justiça”. Nele (en auto) corresponde a por nós (hyper hernon). Os dois lados adotaram o que não era merecidamente deles. Cristo, que “era inocente do pecado” (NEB), entrou numa esfera completamente estranha à si mesmo, para que nós pudéssemos entrar numa esfera da qual nos alienamos.

Cristo, um estranho absoluto a qualquer rebelião contra o Pai (Jo 8.46; Hb 4.15; 1 Pe 2.22), foi tratado como se fosse completamente responsável pela rebelião do homem contra Deus (Is 53.6; 1 Pe 2.24). Ele sofreu “o que Deus faz ao pecado, e tornou visível o que acontece quando o homem tem Deus contra si”. Cristo tornou-se “uma maldição por nós” (GI 3.13; cE Dt 21.23; Is 53.12; Lc 22.37; Rm 8.2).

A expressão Deus... o fez indica a unidade entre Pai e Filho na identificação com o pecado (Jo 10.30; Fp 2.8; Hb 9.1-14). No sentido definitivo, é Deus quem sofre em si mesmo as conseqüências do pecado do homem, pelo seu amor perdoador (Rm 13.8).

O resultado é “o perdão no seu sentido mais amplo”, a restauração de uma relação correta com Deus com a libertação e a novidade de vida exigidas por essa relação. A justiça de Deus é uma atividade de Deus (Rm 1.17) pela qual Ele defende a sua causa ou realiza os seus objetivos entre os homens. Ser considerado por Deus como justo é um ato régio, não de absolvição, mas de anistia ou de perdão (Rm 3.24-26).

A justificação é uma ação forense, mas a imagem de meras palavras está fragmentada, pois não é “uma mera palavra, mas é a palavra de Deus que trabalha e cria a vida”. Assim o homem é levado à justiça de Deus, numa nova condição de vida (15, 17), cujo mérito é a cruz de Cristo e cuja substância é o Espírito de Cristo. O caráter justo resultante do homem é o da justiça da sua nova relação com Deus (Fp 3.9), e a sua posse daquele Espírito correto, o Espírito Santo transformador (3.18), que lhe foi dado (Rm 5.5).

Novamente, a justificação se estende para envolver a santificação, pois é uma justiça nele (17) que se tornou, para nós, “justiça, santificação e redenção” (1 Co 1.30).’ A abordagem de Paulo do seu ministério é supremamente “em Cristo”.

1) Como uma nova criatura “em Cristo’, ele está alerta para o mundo dos homens (16-17). Como tal,

2) a ele foi confiada a mensagem do ato reconciliador de Deus “em Cristo” (18-19), para que

3) ele possa oferecer aos homens a oportunidade gratuita, “em Cristo”, de se tornarem a justiça de Deus (20-21)

c)A vida de um apóstolo (6.1-10). A divisão dos capítulos aqui é bastante arbitrária.

Paulo ainda está defendendo o caráter do seu ministério do ponto de vista da sua conduta e das suas experiências como um embaixador de Cristo.

O pensamento de 5.20 se conclui quando Paulo, com base na sua mensagem (5.21), exorta urgentemente os fracos crentes coríntios a não receberem’9’ a graça de Deus em vão (6.1). O seu medo é que eles não permitam que a salvação de Deus em Cristo realmente produza o fruto desejado de um caminhar santo — uma vida que responda adequadamente à morte de Cristo (5.14-15), e que possa enfrentar o juízo sem ter do que se envergonhar (5.10; cf. 1 Co 3.10-15).

O novo relacionamento com Deus, que nasceu através de Cristo, não se mantém automaticamente. Assim, eles são instigados a não “abrir mão dele por nada” (NEB). Paulo faz o seu apelo aos que estão cooperando com Deus

(5.18, 20; 1 Co 3.9). Beardslee conclui que o apóstolo é muito cauteloso ao falar de Deus e do homem como trabalhando juntos. Ele sugere que “seria mais verdadeiro para o pensamento de Paulo dizer que todo trabalho humano real é um trabalho de Deus, do que dizer que Deus e o homem trabalham juntos”.

Isto está de acordo com a declaração de lsaías 26.12 — “Senhor... tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras”.

O versículo 2 é um parênteses que revela uma das suposições fundamentais do evangelho de Paulo; a urgência do seu apelo é reforçada pela interjeição de Isaías 49.8. Ali, o Servo do Senhor tem a promessa de ajuda no dia em que a salvação for oferecida aos gentios (Is 49.1-12). Aos seus leitores, portanto, Paulo anuncia: eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação (2). O que os coríntios sentiram por meio da proclamação do apóstolo foi o verdadeiro cumprimento dessa profecia. A ação salvífica final de Deus está tendo lugar no presente; as últimas coisas não são mais um evento distante. Hoje é o tempo aceitável por Deus para que os homens participem livremente da sua reconciliação em Cristo: “O tempo do diabo é sempre o amanhã; o tempo de Deus é sempre o hoje”

A exortação de Paulo e dos seus colaboradores não é incoerente com a qualidade das suas vidas. Dando (3) e tornando-nos (4) são particípios coordenados com “cooperando” (1). A consciência do apóstolo está limpa, pois ele sempre procura “não dar escândalo em coisa alguma” (NASB), para que o seu ministério não seja censurado. Nenhuma causa real para a rejeição da sua mensagem pode ser encontrada na sua conduta. Este é o caráter do ministério cristão.

Mas como os seus caluniadores coríntios aparentemente sentiram que a honra da indicação feita por Deus significava sucesso e proeminência, Paulo teve que ressaltar que até mesmo os seus sofrimentos eram demonstrações da autenticidade do seu apostolado (45) 201 Em tudo possivelmente em todas as ocasiões — Paulo e seus companheiros de trabalho se tornavam recomendáveis (dignos de elogio, cf. 3.1; 4.2; 5.12) como ministros (servos; cf. 6.4; Mt 20.26; Mc 10.43) de Deus. Redpath sugere que todas as condições mencionadas em 4-10 “fornecem uma plataforma para a exibição da graça de Deus” na vida dos seus servos.

Paulo recomenda o seu ministério, primeiramente, na muita paciência (“grande persistência”, RSV). Esta qualidade, muita ressaltada por Jesus (Mt 10.22; 14.13; Lc 8.15; 21.19) e certamente significativa para Paulo (1.6; 11.23-30; Rm 5.3; 1 Ts 1.3), coloca-se no topo de três grupos de provações. O primeiro grupo, no versículo 4, apresenta os sofrimentos de Paulo em termos gerais. Eles podem se referir àquelas dificuldades que são independentes do agente humano, e incluem aflições (cf, 1.3-10; 2.4; 4.8, 17;At 14.22; 20.23), todas as experiências de pressão física, mental ou espiritual que talvez possam ser evitadas; necessidades (“privações”, NEB), que não possam ser evitadas; e angústias (“dilemas”, NEB, 4.8), das quais não é possível escapar.

O segundo trio (5) especifica os sofrimentos em particular que são infligidos pelos homens.

Paulo se esforça para recomendar a si mesmo como um servo fiel de Deus, “mostrando a suprema paciência entre” (Bruce) açoites (11.23; At 16.23), prisões (11.23; At 16.23-24) e tumultos (At 13.50; 14.19; 16.19; 19.29; 21.30). O terceiro trio consiste daquelas disciplinas que ele impôs a si mesmo para a proteção da sua missão: nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns.

O grande apóstolo, para o bem do evangelho, freqüentemente:

1) se cansava até o ponto da exaustão,

2) diminuía as suas horas de descanso para dedicar mais tempo ao ministério da Palavra e à oração, e

3) negligenciava as suas refeições quando o trabalho era urgente.

Tendo concluído com as nove condições que indicam a esfera da persistência, Paulo agora toma um novo fôlego. Ele enumera nove características espirituais, coordenadas com a virtude da pureza, que Deus o capacitou a demonstrar como um ministro de Cristo (6-7). O apóstolo manteve pura a sua vida e os seus motivos verdadeiros. Ele possuía a ciência do que Deus tinha feito em Jesus Cristo (cf. 8.7; 11.6; 1 Co 2.6-16) tanto na sua própria vida quanto nas suas implicações para todos os homens. Ele tinha a longanimidade, em que poderia suportar os ferimentos, os insultos, a teimosia e a estupidez das pessoas sem ira nem vingança (cf. Cl 3.12).

Mas além da persistência, ele era complacentemente bondoso e tolerante nas suas relações com tais pessoas (cf. Lc 6.35; 1 Co 13.4; 01 5.22). O Espírito Santo, que é a própria dinâmica de todas as virtudes de Paulo, estava sendo demonstrado no seu ministério (1 Co 2.4; 1 Ts 1.5). O fruto básico do Espírito, que é o amor genuíno (cf. Rm 12.9; 1 Tm 1.5; 1 Pe 1.22), reflete a própria atitude de Cristo (cf. 5.14; 1 Co 13.1-13) na vida do apóstolo.

A palavra da verdade (genitivo objetivo) se refere à proclamação que Paulo faz da verdade do evangelho (cf. 5.19; Ef 1.13; Cl 1.5). Tudo isto ele fez no (en) poder de Deus (cf. 4.7-11; 12.9-11; 1 Co 2.3-7). O seu ministério é a própria atividade de Deus (5.20). Com uma mudança nas preposições (dia substituindo a en de 4-7a) Paulo afirma que as suas armas (cf. 10.4) fazem parte da armadura (cf. Is 59.17; Rm 13.12; Ef 6.13-17; 1 Ts 5.8) “que a divina justiça provê” (5.21; cf. Rm 6.13). Dos recursos do seu relacionamento com Deus e está plenamente equipado tanto com armas ofensivas quanto defensivas. Pois à sua direita ele tem a “espada do Espírito” (Ef 6.17), e à sua esquerda, “o escudo da fé” (Ef 6.16).

A seguir vem uma lista de nove condições contrastantes que Paulo sofre com alegria pelo bem do seu chamado (8-10). Este é o terceiro intercâmbio de experiências opostas em Cristo que ele relaciona na carta (1.3-7; 4.7-12). O mesmo paradoxo de humilhação e glória que caracterizou a carreira de Jesus é parte integrante do ministério de Paulo.

Isto já está evidente no contraste entre os versículos 4-5 e 6-7. Os primeiros quatro pares (8-9a) apresentam as maneiras como Paulo é considerado por diversas pessoas:

Por honra e desonra
por infâmia e por boa fama
como enganadores e sendo verdadeiros,

como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos

Os últimos cinco pares (9b-10) apresentam os fatos reais da existência ministerial do apóstolo em relação a Jesus Cristo. Esta relação era um estado de coisas “determinadas pela crucificação e ressurreição, e pela posição subordinada deliberadamente assumida pelo Cristo exaltado”. Na verdade, Paulo vive:

como morrendo e eis que vivem os

como castigados e não mortos

como contristados, mas sempre alegres

como pobres, mas enriquecendo a muitos

como nada tendo e possuindo tudo

Assim, como um ministro da reconciliação de Deus em Cristo, Paulo pode exortar os coríntios por duas razões, a fim de não frustrar a graça de Deus nas suas vidas. Em primeiro lugar, está o fato de que o seu ministério é Deus verdadeiramente trabalhando na ação redentora do último dia (1-2).

Em segundo lugar, a qualidade da sua vida de serviço não impede a aceitação da graça de Deus (3).

Antes, a vida de Paulo exibe aquela graça

a) ao suportar diversas provações, 4-5;

b) manifestando as verdadeiras características do novo homem em Cristo, 6-7; e c) através de um ministério que compartilha o paradoxo da própria vida de Jesus, 8-10.

A essência da tarefa de Paulo como apóstolo é o ministério da reconciliação (5.11-6.10). E uma missão

1) cujos motivos são encontrados no ato de Deus em Cristo, 5.11-15;

2) cuja perspectiva é o ato de Deus em Cristo, 5.16-21; e

3) cuja conduta participa da natureza do ato de Deus em Cristo, 6.1-10.

Examinando rapidamente a caracterização que Paulo faz do seu ministério (3.1— 6.10), é evidente que ele defende o seu trabalho pela natureza da mensagem que lhe foi confiada, e experimentada pelos cormntios:

1) O seu ministério é primordialmente do Espírito, devido à obra do Espírito Santo, 3.1—4.6;

2) isto é possível porque tudo o que Paulo suporta por amor a Jesus é a morte de Jesus, que libera o Espírito Santo aos seus ouvintes — a vida ressurrecta de Jesus, da qual Paulo irá compartilhar plenamente no futuro, 4.7—5.10;

3) mas as duas condições só são verdadeiras pelo fato de o ministério de Paulo consistir do ato de reconciliação de Deus, em Cristo, para o mundo, 5.11—6.10.;

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus (auxiliar)

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico Beacon

A reconciliação, com uma dupla noção

A reconciliação, com uma dupla noção

O apóstolo continua mostrando os motivos de eles não terem desfalecido diante das aflições, a saber, sua expectativa, seu desejo e garantia de felicidade após a morte (vv. 1-5). Ele ressalta uma inferência para o conforto dos crentes no seu estado presente (vv. 6-8) e outra para estimulá-los em seu trabalho (vv. 9-11). Então apresenta um pedido de desculpas por dar a impressão de aprovar-se a si mesmo e oferece uma boa razão para o seu zelo e diligência (vv. 12-15). Ele menciona duas coisas que são necessárias no nosso viver cristão até o fim: regeneração e reconciliação (vv 16-21).

A Expectativa do Crente depois da Morte - - w. 1-11

Nesses versículos, o apóstolo dá continuidade ao argumento do capítulo anterior, referente aos motivos da sua coragem e paciência diante das aflições.

I Ele menciona sua expectativa, desejo e garantia da felicidade eterna depois da morte (vv. 1-5). Observe particularmente o seguinte:

1. A expectativa do crente pela felicidade eterna após a morte (v. 1). Ele sabe, ou está bem assegurado pela fé, a respeito da verdade e realidade da coisa em si, de que existe uma outra vida gloriosa depois que esta vida presente termina. Ele tem uma boa esperança em relação ao seu interesse nessa bem-aventurança eterna do mundo invisível: “Sabemos que temos uma construção de Deus, temos uma expectativa firme e bem fundamentada da felicidade futura”.

Observemos: (1) Que tipo de céu o crente espera habitar um dia. Ele o vê como uma casa, ou habitação, uma moradia, um lugar de descanso, um refúgio, a casa do nosso Pai, onde há muitas mansões, e nosso lar eterno. Essa é uma casa nos céus, nesse lugar alto e santo que excede em muito todos os palácios desta terra, da mesma forma que os céus estão muito acima da terra. E uma construção de Deus, cujo construtor é o próprio Deus. Portanto, essa construção é digna do seu autor.

A felicidade do estado futuro é o que Deus preparou para aqueles que o amam. São habitações eternas nos céus, não como tabernáculos humanos, as pobres casas de barro, nas quais nossas almas agora habitam, que estão deteriorando, “. . . cujo fundamento está no pó (veja Jó 4.19). (2) Quando é aguardada, essa felicidade será desfrutada imediatamente após a morte, tão logo .. . a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer”. Observe: [1] Que o corpo, essa casa terrena, é apenas um tabernáculo, que precisa ser dissolvido em breve. Os pregos serão tirados e as cordas serão afrouxadas, e então o corpo retornará ao pó. [2] Depois disso virá uma casa não feita por mãos humanas. O espírito retornará para Deus, que o deu. Aqueles que caminharam com Deus aqui habitarão com Ele para sempre.

2. O desejo sincero dos crentes quanto a essa bem-aventurança futura, que é expressa pela palavra stenazomeu — gememos, que significa:

(1) Gemido de tristeza debaixo de uma carga pesada. Assim os crentes gemem por causa das cargas da vida: “E, por isso, também gememos” (v. 2). “...nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados” (v. 4). Nosso corpo e as calamidades da vida são uma carga pesada. Mas os crentes gemem porque estão sobrecarregados com um corpo de pecado, e as muitas corrupções que ainda restam e continuam assolando-os. Isso faz Paulo exclamar: “Miserável homem que eu sou’ (Rm 7.24).

(2) Os crentes gemem, desejando a felicidade da outra vida. Eles gemem pelo seguinte: “E, por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (v. 2), para obter uma imortalidade abençoada, “para que o mortal seja absorvido pela vida” (v. 4), “... estando vestidos”, para não serem “achados nus” (v. 3).

Se for a vontade de Deus, não dormiremos, mas seremos transformados; porque não é desejável em si ser despido. A morte, considerada meramente como uma separação da alma do corpo, não é desejada, mas, sim, temida. Mas se ela for considerada uma passagem para a glória, o crente está pronto para morrer em vez de viver, estar ausente do corpo, para estar presente com o Senhor (v. 6), deixar esse corpo para estar com Cristo, e tirar esses trapos de mortalidade e colocar as vestes de glória. Observe: [1] A morte nos despojará da roupa da carne, e de todo o conforto que a vida pode oferecer, bem como acabará com todas as dificuldades daqui. Chegamos nus a este mundo e nus sairemos daqui. Mas: [2] As almas afáveis não serão encontradas despidas no outro mundo. Elas serão vestidas com vestes de louvor, com mantos de justiça e glória. Elas serão libertadas de todas as suas dificuldades, e suas vestes serão lavadas e branqueadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.14).

3. A garantia do crente do seu interesse nessa bem-aventurança futura, em um relato duplo:

(1) Da experiência da graça de Deus, ao prepará-lo para essa bem-aventurança.

“Ora, quem para isso mesmo nos preparou foi Deus” (v. 5). Observe: Todos os que foram chamados para o céu no futuro são preparados para o céu enquanto estão aqui. As pedras dessa construção espiritual e desse templo celestial são formadas aqui embaixo. Aquele que nos preparou para isso é Deus, porque nada menos do que um poder divino pode tornar a alma um participante da natureza divina. Somente a mão de Deus pode nos preparar para isso. Muita coisa precisa ocorrer para preparar nossa alma para o céu, e essa preparação do coração vem do Senhor.

(2)0 penhor do Espírito deu a eles essa garantia: o penhor é parte do pagamento e assegura o pagamento completo. A graça e o conforto atual do Espírito são garantias da graça e do conforto eternos.

II O apóstolo ressalta uma inferência para o conforto dos crentes no seu estado e condição presente neste mundo (vv. 6-8). Observe o seguinte:

1. Qual é o estado e a condição atual deles: Eles vivem “ausentes do Senhor” (v. 6). Eles são peregrinos e estrangeiros neste mundo. Eles moram aqui neste lar terreno, ou neste tabernáculo, por pouco tempo. Embora Deus esteja conosco aqui, pelo seu Espírito, e em suas ordenanças, não estamos com Ele como esperamos estar: não podemos ver sua face enquanto vivemos: “(Porque andamos por fé e não por vista)” (v. 7). Não temos a visão e o gozo de Deus, como uma dádiva que está presente conosco, e como esperamos ter no futuro, quando veremos como somos vistos. Observe: A fé é para este mundo e a visão está reservada para o outro mundo. E nosso dever e deve ser o nosso interesse, andar por fé, até chegarmos a viver por vista.

2. Quão confortáveis e corajosos deveríamos ser diante das dificuldades da vida, inclusive na hora da morte: “Pelo que estamos (devemos estar) sempre de bom ânimo” (v. 6), e outra vez (v. 8): “Mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo”. Se os cristãos verdadeiros considerassem de maneira adequada a perspectiva da fé em relação ao outro mundo e os motivos da sua esperança na bênção após a morte, seriam confortados diante das dificuldades da vida e fortalecidos na hora da morte. Quando estiverem diante do último inimigo, devem criar coragem e estar dispostos antes a morrer do que a viver. Devem despir-se deste tabernáculo conforme a vontade de Deus.

Observe: Assim como aqueles que são nascidos de cima anelam estar lá, assim basta estarmos ausentes do corpo, e logo estaremos com o Senhor; basta morrer, e estar com Cristo; basta fechar nossos olhos para todas as coisas neste mundo e abri-los no mundo de glória. A fé se transformará em visão.

III Ele continua despertando e estimulando a si mesmo e aos outros para a obra a ser realizada (vv. 9-11).

Por isso, a esperança bem-fundamentada do céu está longe de nos prover qualquer tipo de encorajamento para a preguiça ou a segurança pecaminosa.

Pelo contrário, essa esperança nos deveria animar a usar o maior cuidado e zelo na religião: “Pelo que (ou, porque esperamos estar presentes com o Senhor), muito desejamos” e nos esforçamos (v. 9).

Philotimoumetha — somos ambiciosos e nos esforçamos tão diligentemente quanto os homens mais ambiciosos são para obter aqui- loque almejam.

Observe o seguinte:

1. O motivo da ambição do apóstolo — a aceitação de Deus. Temos o propósito, quer vivos ou mortos, quer presentes no corpo ou ausentes desse corpo, de ser agradáveis ao Senhor (v. 9), para que possamos agradar aquele que nos escolheu, para que o nosso grande Senhor possa nos dizer:

Fizestes bem. Era isso que ansiavam como o maior favor e honra: era o auge da ambição deles.

2. Outros motivos estimulantes para despertar a atenção deles acerca do julgamento vindouro (vv. 10,11). Há muitas coisas relacionadas a essa grande questão que deveriam intimidar os homens mais temerosos a ter o máximo de cuidado e atenção na prática cristã. Por exemplo, a certeza desse julgamento diante do qual temos de aparecer. A universalidade do julgamento, diante do qual todos devemos aparecer.

O trono do julgamento do grande Juiz, o Senhor Jesus Cristo, diante do qual todos devemos comparecer. Ele aparecerá em fogo flamejante. A recompensa a ser recebida então, por coisas feitas nesse corpo, que será muito particular (cada um separada- mente), e muito justa, de acordo com o que a pessoa tiver feito, seja bom ou mau. O apóstolo chama esse julgamento tremendo de “...o temor que se deve ao Senhor” (v. 11) e diz estar motivado a persuadir os homens a se arrependerem e viverem uma vida santa, para que, quando Cristo aparecer com poder, eles apareçam diante dele com paz no coração. E, a respeito de sua fidelidade e diligência, ele confortavelmente apela a Deus, e à consciência daqueles a quem escreveu: somos manifestos a Deus; e espero que, na vossa consciência, sejamos também manifestos.

O Ministério dos Apóstolos vv. 12-15

Aqui observe:

I O apóstolo apresenta uma justificativa para seu aparente elogio de si mesmo e de seus companheiros (v. 13), e diz o seguinte:

1. Ele não tinha a intenção de elogiar-se, quando falou da sua fidelidade e diligência nos versículos anteriores. Ele também não queria suspeitar da boa opinião deles a seu respeito. Mas:

2. A verdadeira razão era colocar um argumento na boca deles para poderem responder aos acusadores dele, que proferiram vás vanglórias e gloriavam-se apenas em aparência. Assim eles poderiam gloriar-se deles ou defendê-los contra as acusações dos seus adversários. E se as pessoas podem dizer que a palavra foi manifesta em suas consciências e foi eficaz na conversão e edificação delas, esta é a melhor defesa que podem fazer quanto ao ministério da palavra, quando forem difamadas e acusadas.

II Ele apresenta boas razões para o seu grande zelo e diligência. Alguns dos adversários de Paulo o tinham acusado, possivelmente, por causa do seu zelo e fervor; como se fosse louco, ou, na linguagem dos seus dias, um fanático.

Eles atribuíram tudo ao seu entusiasmo, como o governador romano tinlia dito: “As muitas letras te fazem delirar” (At 26.24).

Mas o apóstolo diz o seguinte:

1. O seu zelo e esforço era para a glória de Deus e para o bem da igreja: “Porque, se enlouquecemos, é para Deus e para sua glória; e, se conservamos o juízo, é para vós, ou para promover o vosso bem” (v. 13). Se eles manifestavam um grande ardor e impetuosidade em alguns momentos, e usavam de extrema calma em argumentações convincentes em outros, era para o melhor fim. Eles tinham bons motivos para usar os dois métodos.

2. “Porque o amor de Cristo nos constrange” (v. 14).

Eles estavam debaixo dos constrangimentos mais suaves e fortes para fazer o que fizeram. O amor tem uma virtude constrangedora de animar os ministros e cristãos em geral no cumprimento do seu dever.

Nosso amor por Cristo tem essa virtude. E o amor de Cristo por nós, que foi manifestado na sua morte em nosso favor, tem esse efeito sobre nós, se for devida- mente considerado e julgado da forma correta. Observe como o apóstolo argumenta em favor da razoabilidade do constrangimento do amor, e declara:

(1) O que éramos antes, e deveríamos continuar a ser, se Cristo não tivesse morrido por nós: Estávamos mortos (v. 14). “... se um morreu par todos, logo, todos morreram”; mortos na lei, debaixo da condenação da morte; mortos em pecados e ofensas, mortos espiritualmente. Considere: Esta era a condição deplorável de todo aquele por quem Cristo morreu: Eles estavam perdidos e destruídos, mortos e decaídos, e teriam permanecido miseráveis para sempre se Cristo não tivesse morrido por eles.

(2) O que deveriam fazer essas pessoas por quem Cristo morreu; que vivessem para Ele. E isso que Cristo planejou: que ““... os que vivem”, que foram vivificados por Deus por meio da sua morte, vivam “para aquele que por eles morreu e ressuscitou” e não vivam mais para si” (v. 15). Observe: Não nós, mas Crista deveria ser o objetivo do nosso viver e das nossas ações. Um dos objetivos da morte de Cristo era curar-nos desse amor-próprio e levar-nos sempre a agir debaixo da influência imponente do seu amor. A vida cristã deve ser consagrada a Cristo. Viveremos como deveríamos viver quando vivermos para Crista, que morreu por nós.

O Ministério dos Apóstolos - - vv. 16-21

Nesses versículos, o apóstolo menciona duas coisas que são necessárias para o nosso viver cristão, sendo que as duas são conseqüências da morte de Cristo por nós; a saber; a regeneração e a reconciliação.

I A regeneração, que consiste em duas coisas, a saber:

1. O desapego do mundo: “...daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne (v. 16). Não possuímos ou temos influência sobre pessoa ou coisa alguma neste mundo com fins carnais e vantagens materiais. Somos, na verdade, capacitados pela graça divina, não para ocupar-nos com este mundo, nem com as coisas deste mundo, mas para viver acima dele. O amor de Crista está em nosso coração e o mundo está debaixo dos nossos pés”.

Considere: Bons cristãos devem desfrutar dos confortos desta vida, e de suas relações neste mundo, com uma indiferença santa. “...ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, diz o apóstolo, já o não conhecemos desse modo”. E questionável se Paulo tinha visto a Cristo em carne. No entanto, o restante dos apóstolos o tinha visto, e da mesma forma pode ter sido o caso entre aqueles a quem estava escrevendo agora.

Porém, ele não queria que eles se avaliassem de acordo com isso, urna vez que mesmo a presença corporal de Cristo não deveria ser desejada pelos seus discípulos.

Devemos viver de acordo com sua presença espiritual e o conforto que isso proporciona. Observe: Aqueles que fazem imagens de Cristo e as usam em sua adoração não estão seguindo o caminho que Deus designou para fortalecer sua fé e vivificar seus sentimentos; porque é a vontade de Deus que não mais conheçamos a Cristo em carne.

2. Uma mudança completa do coração: “Assim que, se alguém está em Cristo”, se alguém de fato é cristão, e demonstra isso na prática, “nova criatura é”, ou deveria ser (v. 17).

Alguns interpretam este texto da seguinte maneira: que seja uma nova criatura. Este deve ser o cuidado de todo aquele que professa a fé cristã, que seja uma nova criatura; não só que tenha um novo nome e vista um novo uniforme, mas que tenha um novo coração e uma nova natureza. A mudança que a graça de Deus faz no coração é tão grande, que “...as coisas velhas já passaram— pensamentos velhos, princípios velhos, práticas velhas, já passaram; e “...eis que tudo se fez novo”. Observe: A graça regeneradora cria um novo mundo na alma. Todas as coisas são novas. O homem renovado age a partir de um novo princípio, por novas leis, com novos fins, em uma nova convivência.

II A reconciliação, com uma dupla noção:

1. Como um privilégio inquestionável (vv. 18,19). A reconciliação pressupõe a ruptura de uma amizade. O pecado causou essa ruptura. Ele quebrou a amizade entre Deus e o homem. O coração do pecador é preenchido de inimizade contra Deus, e Deus é ofendido verdadeiramente pelo pecador. No entanto, existe a possibilidade da reconciliação; o Deus ofendido do céu está disposto a se reconciliar. E perceba:

(1) Ele apontou o Mediador da reconciliação. Ele nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo (v. 18). Deus deve ser reconhecido do inicio ao fim na tarefa e cumprimento do Mediador. Todas as coisas relacionadas à nossa reconciliação com Jesus Cristo vêm de Deus, que pela mediação de Jesus Cristo reconciliou o mundo consigo mesmo. Ele colocou-se na condição de ser reconciliado com os ofensores, sem causar qualquer agravo ou insulto à sua justiça ou santidade. Ele não imputa ao homem as suas transgressões e desiste do rigor do primeiro concerto, que foi quebrado, não insistindo na vantagem que Ele poderia ter legitimamente contra nós pela quebra da aliança. Ele está disposto a formar um novo pacto, uma nova aliança de graça, e, de acordo com o teor dela, Ele está livre para perdoar todos os nossos pecados e justificar livremente, pela sua graça, todo aquele que crer.

(2) Ele estabeleceu o ministério da reconciliação” (v. 18). Pela inspiração de Deus, foram escritas as Escrituras, que contêm a palavra da reconciliação, mostrando-nos que a paz foi feita pelo sangue da cruz, que a reconciliação foi operada, e nos orientou em como podemos estar interessados por ela. Ele estabeleceu o oficio do ministério, que é o ministério da reconciliação. Os ministros devem abrir e proclamar aos pecadores os termos da misericórdia e reconciliação e persuadi-los a concordar com eles. Porque:

2. A reconciliação é entendida aqui como nosso dever indispensável(v. 20). Da mesma forma que Deus está pronto a ser reconciliado conosco, nós também devemos nos reconciliar com Ele. E é o grande alvo e plano do evangelho que a palavra da reconciliação prevaleça contra os pecadores para que abandonem a sua inimizade contra Deus. Ministros fiéis são embaixadores de Cristo, enviados parar tratar com os pecadores acerca de paz e reconciliação: Eles vêm em nome de Deus, com suas súplicas, e agem em nome de Cristo, fazendo aquilo que Ele fez quando esteve nesta terra e o que Ele deseja que seja feito agora que está no céu.

Que condescendência maravilhosa! Embora Deus não possa ser considerado um perdedor na disputa ou desavença, nem um ganhador na paz, no entanto, pelos seus ministros Ele suplica para que os pecadores abandonem a sua inimizade e aceitem os termos que Ele oferece, para que possam ser reconciliados com Ele, com todos os seus atributos, com todas as suas leis, e com todas as suas providências, e creiam no Mediador, e aceitem a redenção e concordem com todo o seu evangelho.

Para nos encorajar a fazer isso, o apóstolo acrescenta o que deveria ser bem entendido e devida- mente considerado por nós (v. 21), a saber: (1) A pureza do Mediador: Ele “...não conheceu pecado”. (2) O sacrifício que ofereceu: Ele foi feito “...pecado por nós”; não um pecador, mas pecado, isto é, uma oferta pelo pecado, um sacrifício pelo pecado. (3) O fim e desígnio de tudo isso: ..para que, nele, fôssemos feit os justiça de Deus” e justificados livremente pela graça de Deus pela redenção que está em Cristo Jesus. Observe: [1] Como Cristo, que não conheceu pecado, foi feito pecado por nós, para que nós, que não temos justiça própria, fôssemos feitos nele justiça de Deus. [2]

Nossa reconciliação com Deus somente ocorre por meio de Jesus Cristo e pelo seu mérito. Portanto, devemos somente confiar nele e na sua justiça.

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus (auxiliar)

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico NT. Mathew Henry