9 de janeiro de 2018

Uma Salvação Grandiosa


Uma Salvação Grandiosa

TEXTO ÁUREO = "Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram." (Hb 2.3)

VERDADE PRÁTICA = A salvação não é algo dado ao crente compulsoriamente. O cristão é exortado a ser vigilante e não negligente em relação a essa dádiva recebida.

LEITURA DIÁRIA

Segunda – Jo 10.9: Jesus deu testemunho de uma tão grande salvação

Terça – Hb 2.3: A Igreja Primitiva deu testemunho da salvação

Quarta – Hb 2.7,9: A salvação do homem tornou necessária a humanização do Redentor

Quinta – Hb 2.14: A eficácia da salvação é demonstrada na vitória sobre o Diabo

Sexta – Hb 2.15: A eficácia da salvação é demonstrada no triunfo sobre a morte

Sábado – Hb 2.18: A eficácia da salvação é demonstrada na vitória sobre as tentações

LEITURA BIBLICA EM CLASSE = Hebreus 2. 1-18

1 PORTANTO, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas.

2 Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição,

3 Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;

4 Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade?

5 Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos.

6 Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?

7 Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos;

8 Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas.

9 Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.

10 Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.

11 Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos,

12 Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, Cantar-te-ei louvores no meio da congregação.

13 E outra vez: Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu.

14 E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo;

15 E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.

16 Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão.

17 Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.

18 Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.

HINOS SUGERIDOS: 35,156, 542 da Harpa Cristã

INTRODUÇÃO

Portanto, uma salvação superior (2.1-4). A verdadeira preocupação da epístola agora está clara: visto que o Salvador é mais do que um anjo — o Filho — é duplamente imperativo atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido. Podemos até estar desatentos à conversa de um vizinho, mas certamente prestaríamos muita atenção se estivéssemos diante de um importante governante. Assim, se valorizamos a nossa alma, somos constrangidos a atentar cuidadosamente para o evangelho que enaltece a majestade e importância da Pessoa que apresenta.

 

O tempo presente do verbo atentar sugere a necessidade de cuidado continuado e vigilante. Caso contrário, estamos correndo o risco de passar despercebidos por essas verdades do evangelho. Para que, em tempo algum, nos desviemos delas. Afigura é de um barqueiro descuidado e preguiçoso correndo o risco de passar pelo porto seguro e ser levado pela correnteza. A frase em tempo algum é melhor traduzida por “jamais” (NVI) ou “de maneira alguma” (NT Amplificado). Há muitas maneiras de os cristãos correrem o risco de ser levados pela correnteza.

 

A exortação está baseada em uma lógica simples: se a palavra dos anjos era firme (2; com autoridade e unida) e colocava seus destinatários debaixo de uma punição justa (apropriada) pela desobediência, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?  Desprezar a lei mediada pelos anjos era uma coisa grave, mas desprezar (por negligência) a salvação mediada pelo Filho, que foi entregue aos homens por meio de acontecimentos e evidências comprovados, era muito mais grave ainda.

 

Estas evidências eram tão válidas quanto aquelas que confirmavam a entrega da lei no monte Sinai (cf. 12.18-29). Esta salvação, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi depois, confirmada pelos apóstolos e outros discípulos; e seu testemunho foi apoiado pelo testemunho do próprio Deus, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo — “e com vários poderes e distribuições do Espírito Santo” (Mueller) — por sua vontade.

 

Os versículos 1-4 podem servir como texto-base para uma pregação. Este texto pode ser aplicado aos não-salvos, mas sua relevância primária é para os cristãos e sua aplicação é poderosa. Acompanhe o desenvolvimento abaixo.

 

“A Grandeza da Salvação”. Tão grande sugere a magnitude inexprimível (cf. 2 Co 1.10; Ap 1.18). Sua grandeza é vista:

 

1) No Senhor que a deu (v. 3b) — sua pessoa, seu poder e sua paixão.

2) Nos acontecimentos sobrenaturais que lhe serviram de berço (v. 4).

3). Na gravidade excessiva do perigo do qual ela nos liberta — do pecado com sua culpa, poder, contaminação e punição eterna (7.27).

 

No “Perigo da Negligência” vemos que: 1) Os cristãos estão em perigo de negligenciar esta tão grande salvação a) porque ela ainda é, em grande parte, invisível e espiritual,

 

a) por causa das influências perversas do mundo ao nosso redor, a) por causa da tendência incrédula da mente carnal dentro do homem. 2) Os cristãos estão correndo o risco de negligenciar a salvação ao a) ignorar os recursos da graça, b) falhar em compartilhar o evangelho, c) negligenciar em obter a completa salvação do pecado interior.

 

“A Impossibilidade do Escape” sugere: 1) O perigo de atrofia espiritual que a negligência traz. 2) A ira divina em consequência da negligência (veja contexto; também 6.4- 6; 10.23-31; 12.12-29).

 

1. O Destino do Homem (2.5-8)

 

Começando com o versículo 5, observamos uma transição na exposição acerca da pessoa e propósito de Jesus, com uma ênfase agora não na sua filiação herdada, mas no significado e propósito da encarnação. Jesus não deve ser identificado com os anjos ou como um anjo. Ele deve ser identificado com os homens.

 

a) O mundo futuro (2.5). A cláusula de que falamos claramente liga a “grande salvação” (v. 3) e a presença de Jesus “à destra” do Pai com a futura “habitação terrena” (Mueller). Ela também sugere um escopo atemporal do tema e da abordagem de toda a epístola. O evangelho de Jesus Cristo não é apenas relevante para a era presente, mas é a chave para as eras vindouras, incluindo os novos céus e a nova terra. Este mundo-terra purificado e emancipado, que é o alvo de toda a história, Deus não sujeitou aos anjos.

 

b) O seu Governante apontado (2.6-8b). A citação de Salmos 8.4-6 revela o lugar do homem no plano de Deus. Fisicamente, em relação ao universo, ele é insignificante; então, por que Deus deveria se lembrar dele? (v. 6). Tanto em posição quanto em poder ele é inferior aos anjos, mas somente temporariamente (o gr. do versículo 7 indica “por um breve tempo” — Mueller).

 

Apesar de sua pequenez física e sua posição inferior, Deus o coroou de glória e de honra e todas as coisas lhe sujeitou debaixo dos pés (8a). A extensão do domínio predestinado do homem abrange tudo: nada deixou que lhe não esteja sujeito (8b).

A comissão do homem de sujeitar e governar esta terra como representante de Deus foi concomitante com a criação (Gn 1.26-29).

 

Sua tentativa de conquistar a ordem da natureza, consequentemente, não desagrada a Deus, porque faz parte da sua atribuição inicial. Mas essa atribuição era tanto espiritual quanto material, e, portanto, ir em busca do material em detrimento, ou mesmo rejeição, ao espiritual, é pecado. Além disso, de acordo com muitos teólogos, a atribuição do homem era conquistar o reino de Satanás. O homem foi criado para neutralizar o Diabo, diz Oswald Chambers.15 Fica claro em Hebreus que a comissão do homem era, e é, de magnitude cósmica e eterna.

 

c) Sua impotência atual (2.8c). Mas o domínio do homem fracassou até aqui, porque ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas. Algumas coisas o homem tem dominado muito bem, mas no reino espiritual ele tem falhado tristemente. Seu fracasso não foi em decorrência da imaturidade ou tempo insuficiente, mas devido a uma catástrofe interferente. Os que foram projetados para ser dominadores de Satanás se tornaram seus cativos.

 

2. Cumprido em Jesus (2.8c-9)

 

Há uma nota tranquilizadora de esperança na frase ainda não. A tarefa não foi cancelada; ela ainda será cumprida. Mas não por meio dos recursos do primeiro Adão, porque estes estão falidos. Podemos não ver o homem como conquistador agora, mas vemos [...] Jesus, o segundo Adão, por meio de quem uma raça redimida terá não somente uma segunda chance mas um sucesso completo. Esta declaração tão clara é o primeiro uso do nome Jesus.

 

Até este ponto a referência, embora inequívoca, tinha sido encoberta; agora toda alusão indireta é deixada de lado e o nome sacro anunciado. Pilatos colocou uma coroa de espinhos e um manto de púrpura em Jesus, e disse: “Eis aqui o homem” (Jo 19.5). Mas nem Pilatos nem a multidão realmente o viram. Eles olhavam com olhos que não podiam ver. Agora o autor de Hebreus dirige o olhar deles para Jesus de uma maneira similar e com um intenso desejo de que vejam com uma visão mais clara do que Pilatos ou os judeus em Jerusalém.

 

O que Pilatos proclamou sem compreender, esta epístola grifa com ênfase: Eis aqui o Homem! Aquele que era co-igual com o Pai antes da criação do mundo, fora feito um pouco menor (por um breve período) do que os anjos.

 

A honra que o homem perdeu cumpre-se abundantemente neste Homem, porque Ele é agora coroado de glória e de honra, à destra do Pai, diante dos anjos e nos corações dos seus discípulos. Mas a coroação foi por causa (dia com acusativo) da paixão da morte.

 

A morte vergonhosa de Jesus tornou-se um embaraço para os Hebreus; mas eles precisam entender que este ato foi, na verdade, a glória dele e a esperança deles. Sua morte não foi um erro trágico, mas originada na graça de Deus, em sua determinação compassiva de prover redenção. Seus benefícios são por todos (“para cada indivíduo” — NT Ampl.).

 

Isto certamente exclui uma expiação limitada ou qualquer sistema que busca separar o mérito da sua morte em graça comum e graça salvadora; por todos implica uma igualdade universal. Além disso, para que não se faça nenhuma tentativa de desvalorizar a experiência da morte do nosso Senhor ao interpretar erroneamente a palavra provasse, deve-se salientar que esta mesma palavra é usada em Mateus 16.18, Marcos 9.1, Lucas 9.27 e João 8.52, em que a força plena da morte humana, inteiramente experimentada, é inferida. Dods diz: “...de fato experimentando a amargura da morte”.

 

No entanto, embora a morte seja real, ela não é um substituto legal exato, em que se obtém a redenção absoluta de todos os homens; sua morte foi por (“em favor de”, hyper com ablativo), i.e., Ele morreu para tornar possível a salvação de todos, ou seja, um substitutivo em um sentido ético em vez de legal.

 

3. O Propósito da Encarnação (2.10-18)

 

A nítida declaração do propósito de Deus é dada no versículo 9, mas agora o autor expande sua tese. A explanação é dupla e é encontrada na repetição de hina (“para que”) no texto grego, traduzido da seguinte forma: a) para que, pela morte, aniquilasse Satanás e libertasse seus subordinados e b) para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote. Mas o autor primeiro estabelece a argumentação a favor da encarnação como uma base necessária para o cumprimento destes dois objetivos.

 

a) O tipo de Salvador necessário (2.10-14a). Atarefa é trazer muitos filhos à glória, i.e., à plena semelhança de Cristo e à plena consumação da redenção deles no céu. Mas para que isto pudesse ocorrer, o Príncipe da salvação deles precisava ser aperfeiçoado, pelas aflições. Isto não se refere ao aperfeiçoamento da santidade pessoal do nosso Senhor, mas às suas qualificações como Príncipe e primeiro da fila (cf. 12.2, em que a mesma palavra é traduzida por “autor”). Ele é tanto Salvador quanto Exemplo.

 

Ele vai adiante de nós, não somente mostrando o caminho para a glória, mas limpando e construindo o caminho. Obviamente ao fazê-lo Ele precisa passar pela severidade e por privações. Em sua própria pessoa Ele precisa enfrentar o inimigo e conquistá-lo. Somente assim pode ser feito um caminho seguro para aqueles que seguem. Este não é um Príncipe que lidera da retaguarda e permite que seus homens lutem e morram.

 

Ele é Alguém que vai adiante e luta e morre ele mesmo, para que seus seguidores possam viver e estar assegurados da vitória. Esta imposição de sofrimento não é cruel ou irracional, indigno de um grande Deus; em vez disso, convinha que aquele, para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, fizesse assim. O plano da salvação é para a glória do próprio Deus, cuja sabedoria e graça eterna o planejou.

 

O termo aflições (no plural) sugere que o Calvário não se refere apenas ao único ato da crucificação mas às muitas formas de sofrimento que pertencem ao homem como homem, e às inúmeras aflições que nosso Senhor conheceu desde a manjedoura até a cruz.

 

Sua realeza conosco é dupla:

 

a) Somos santificados por Ele e, desta forma, feitos à sua semelhança, e conduzidos a uma unidade e comunhão maravilhosa baseadas na semelhança moral,

 

b) Porque, assim o que santifica como os que são santificados, são todos de um; i.e., eles têm um Pai. Jesus, o Deus-homem, pela encarnação, agora compartilha com o homem a paternidade de Deus como Criador; ao santificar seus próprios discípulos, Ele compartilha com eles a santidade do Pai. Uma semelhança familiar é, por meio disso, estabelecida. Esta semelhança com Deus por intermédio da santificação é o significado mais profundo da filiação no NT.

 

Por causa desta semelhança familiar estabelecida a) pela sua própria participação na natureza humana e b) pelo seu partilhar da natureza santa, Ele não se envergonha de lhes chamar irmãos.

 

Para provar esta afirmação, o autor cita Salmos 22.22 e retira duas breves frases de Isaías 8.17-18.20 Então segue a conclusão: Visto que os “filhos” e os “irmãos” participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas.

 

A palavra participam (perfeito de koinoneo, “ter em comum”) é clara e forte, significando que os irmãos são participantes mútuos e companheiros no sofrimento de sua situação humana; seria, portanto, inconcebível para o seu Príncipe ser uma criatura sobre-humana e distante, desligada da estrutura humana e não envolvido na agonia da vida.

 

b) O propósito da sua morte (2.14b,15). O Logos tornou-se homem para que pudesse morrer; Ele morreu para que pudesse aniquilar o que tinha o império da morte, isto é, o diabo. Foi por meio da sua morte (dia com o genitivo) que Jesus foi habilitado a destruir o Diabo. Sua morte não foi casual, mas indispensável e dinâmica. As duas perguntas surgem ao mesmo tempo.

 

Em que sentido Satanás detinha o império da morte? Hebreus deixa claro que a morte de Jesus não tinha que ver somente com o homem e seu pecado mas com Satanás e seu poder.  Satanás não era para ser visto como um símbolo mitológico do mal, mas como uma pessoa com poder e autoridade, cujo reino das trevas competitivo estava profundamente envolvido no caos primitivo, na situação desagradável do homem, e, portanto, no propósito da encarnação e crucificação.

 

E difícil determinar até que ponto Satanás detinha poder sobre a morte. Isso deve ter incluído a morte do homem (v. 15) e está claro que este poder tem um final terrível e inescapável à parte da morte conquistadora de Cristo. A identificação cuidadosa desta pessoa como diabolos, o Acusador, pode sugerir que, como promotor, ele tinha o direito legal de exigir a morte como castigo pelo pecado do homem. Devemos lembrar que Deus e Satanás são governantes oponentes na luta pela vida e morte, e que o pecado do homem deu a Satanás uma vantagem real.

 

Esta vantagem pode ter sido uma exigência para que o castigo pelo pecado divinamente ameaçador fosse exigido por completo. Mas exigi-lo por completo seria um fracasso ignominioso com a raça humana; ao passo que falhar em exigir o castigo da morte por completo seria uma rendição da integridade santa de Deus em virtude de uma palavra quebrada (1 Co 15.56).

 

O pecado do homem colocava seu Criador numa situação embaraçosa e dava a Satanás uma base legal para pressionar o direito do fracasso, ou em relação ao homem ou em relação à integridade de Deus. Satanás não percebe uma terceira alternativa, mas exulta porque qualquer uma das duas situações embaraçosas vai trazer desonra para Deus diante dos anjos e demônios.

 

Outros vêem o poder da morte de Satanás não como o poder de um promotor que acredita que defende uma causa imbatível, mas como o poder legal de um executor; i.e., Satanás obteve de maneira legal o direito de matar. Eric Sauer vê a queda de Satanás como a origem da morte e a explicação da introdução da morte na ordem natural do mundo, muito antes da criação do homem. Neste ponto de vista, o pecado do homem trouxe a raça humana para debaixo do poder da morte de Satanás. Guerras, fome e pragas poderiam estar entre os artifícios de Satanás para destruir.

 

Em que sentido o Acusador foi “destruído” por meio da morte de Jesus? A palavra vem de katargeo, “anular, libertar”. Satanás não foi aniquilado, mas seu poder foi quebrado e cancelado legalmente, de uma maneira completa e final (aoristo do subjuntivo). Havia uma terceira alternativa para esta situação embaraçosa que Satanás não conseguiu prever. A encarnação seduziu Satanás a derrotar-se com a sua própria arma. Ao matar Jesus, ele perdeu seus direitos legais, porque matou Aquele que não havia pecado! E por meio da ressurreição, o poder da morte foi terminantemente quebrado. Se Adão deu a Satanás a vantagem na batalha cósmica, Cristo desfez esta vantagem, e a vantagem voltou de uma vez por todas para Deus. Se Adão vendeu a raça humana como escrava a Satanás, Cristo a comprou. Reconhecidamente, isto tem que ver com a teoria da redenção, descartada há muito tempo pela Igreja como fantasiosa e primitiva.

 

Mas algumas dessas idéias aparecem de maneira inequívoca nesta passagem das Escrituras — e em diversos textos em todo o NT.

 

Mas no versículo 15 encontramos a segunda metade da cláusula hina (com medo da morte). Cristo morreu não só para que o Diabo fosse destruído, mas para que livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão. Gramaticalmente, estes dois propósitos estão coordenados, mas na experiência humana o medo da morte do homem deve ser relacionado com o império da morte de Satanás; portanto, a destruição do poder de Satanás seria em si mesmo o motivo — ou pelo menos um motivo parcial — para a libertação das vítimas de Satanás. E uma libertação completa da servidão que era resultado do seu vitalício medo da morte. Este é um tipo de escravidão deplorável, um terrível medo de morrer, que algema toda a raça humana.

 

A servidão é quebrada pela libertação do medo. Os crentes em Jesus sabem que a morte foi conquistada pela própria morte e ressurreição de Cristo. Por isto, a) “o aguilhão da morte”, que é o “pecado” (1 Co 15.56), foi removido pela expiação; portanto, a base da acusação de Satanás foi cancelada (Ap 12.10-11), e o julgamento após a morte não precisa ser temido, b) A ressurreição de Cristo garante a ressurreição dos crentes em Cristo; conseqüentemente, uma esperança confiante e alegre desaloja o presságio tenebroso do domínio de Satanás. Portanto, eles não precisam mais viver com medo de Satanás, c) O poder da morte foi tirado de Satanás para que não pudesse matá-los antes da sua hora. Hoje, os crentes em Cristo vivem na certeza de que suas vidas estão nas mãos de Deus.

 

c) Um sacerdócio pleno (2. 16-18). A Encarnação foi necessária, não só para que Jesus fosse aperfeiçoado pelo sofrimento e morte como Salvador, mas para que também fosse aperfeiçoado como Sumo Sacerdote. Como Salvador, Ele liberta do poder de Satanás; como Sumo Sacerdote, ele liberta da justa condenação de Deus. Os mesmos passos na argumentação usada nos versículos 9-15 são agora retomados, mas de forma resumida. Primeiro, sua humanidade é reafirmada, desta vez especificamente como israelita. Ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão.

 

Se Ele tivesse sido um anjo não poderia ter realizado o tipo de ministério sacerdotal descrito em Hebreus. A humanidade universal sozinha também não teria sido suficiente; Ele precisava ser hebreu. Jesus era alguém da sua própria raça. Pelo que, i.e., por essa razão, era apropriado que fosse semelhante aos irmãos em todas as coisas. Teria sido incongruente para Ele ter descido do céu como o Leão da tribo de Judá, em pleno esplendor messiânico, como alguns judeus imaginavam. Este tipo de pessoa estaria afastado demais dos israelitas e seus pecados e necessidades para poder ajudá-los de forma sacerdotal. Somente alguém semelhante a eles, que compartilhasse plenamente dos seus sofrimentos, poderia tornar-se um misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus.

Há dois aspectos do ministério sacerdotal de Cristo: o divino e o humano, o propiciatório e o pastoral.

 

(1) O propiciatório (2.17c).

 

Uma das tarefas principais do sumo sacerdote é propiciar o santo Deus ao lidar honesta e adequadamente com o problema do pecado. Nenhuma adoração que ignora o pecado é aceitável. A mancha da alta traição deve ser removida antes que a comunhão e a fraternidade possam ser estabelecidas entre o Soberano e seus subordinados. Este é o ofício do Mediador — representar Deus diante do traidor que está voltando e o traidor diante de Deus, e executar as condições de perdão especificadas pelo Soberano. Este certamente era um conceito familiar para os Hebreus, embora continue sendo um conceito de difícil compreensão para as mentes ocidentais. Este Mediador entre Deus e o homem é Jesus. Seu primeiro ofício como um Sacerdote misericordioso e fiel é expiar os pecados do povo. A palavra expiar (“reconciliação” na KJV), hilaskesthai, neste caso significa satisfazer pessoalmente as exigências justas em favor de outra pessoa.

 

Deus é propiciado (satisfeito) por esta expiação; portanto uma reconciliação pode estar baseada nela. Não é uma expiação das pessoas mas dos pecados das pessoas. E, portanto, uma anulação ou perdão dos pecados, e os pecadores são conseqüentemente libertos da culpa e da condenação. Esta é uma referência clara à função justificadora do sacerdote e não ao ministério de santificação. O povo forma o grupo de adoradores, não os descrentes ou os impenitentes; pecados são todas as violações, conhecidas ou desconhecidas.

 

(2) O pastoral (2.18). A conjunção coordenativa Porque igar) volta ao aspecto da semelhança do nosso Senhor com os seus irmãos (v. 17). Pois Ele não é apenas apto como Sumo Sacerdote para expiar pecados, mas para socorrer aos que são tentados, pois Ele mesmo padeceu, sendo tentado. O autor continua vindicando o plano divino que requer um Messias sofredor. Jesus sofreu, como homem, todas as vicissitudes da vida. Ele não só sofreu a terrível experiência da morte, mas também a luta de um ser moral. Ele enfrentou a tentação e suas lutas ferozes bem como os contratempos da vida e a dor da morte. Ele lutou na arena moral da humanidade.

 

E suas batalhas não foram falsas. Ele não estava lutando com um pugilista contratado para treinar. Sendo tentado, padeceu. E isto fazia parte do seu aperfeiçoamento como Príncipe e Sacerdote — porque como poderia um Sacerdote realmente compartilhar dos sentimentos do seres humanos se não tivesse passado pelas mesmas coisas que eles passaram? Mas visto que entende por ter passado pela experiência, Ele pode socorrer — i.e., ajudar aqueles que clamam por socorro (cf. 13.6; também Mt 15.25; Mc 9.22, 24; At 16.9; 21.28; 2 Co 6.2; Ap 12.16).

 

 

Por: Evangelista Isaias Silva de Jesus (auxiliar)

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Bibigrafia

Ø  Comentario Bíblico Beacon CPAD - Hebreus a Apocalipse

 

 

 

 

 

Uma Salvação Grandiosa

TEXTO ÁUREO = "Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram." (Hb 2.3)

VERDADE PRÁTICA = A salvação não é algo dado ao crente compulsoriamente. O cristão é exortado a ser vigilante e não negligente em relação a essa dádiva recebida.

LEITURA BIBLICA EM CLASSE = Hebreus 2. 1-18

INTRODUÇÃO

2.1 — O autor emite a primeira de cinco exortações (Hb 2.1-4; 3.1—4-16; 5.11—6.20; 10.19-39; 12.1-29). Nós, cristãos, temos ouvido o Senhor Deus, porque ouvimos a mensagem do evangelho. A majestade de Deus requer que ouçamos com toda a atenção o que Ele nos diz. Desviar. O público destinatário da epístola era certamente marcado, em grande parte, por imaturidade e negligência espiritual (Hb 5.11,12).

O autor alerta seus leitores para que não sejam levados pela opinião popular dos que os rodeiam; deveriam, pelo contrário, apegar-se às palavras de Cristo, por serem as palavras de Deus. E fácil se deixar levar pela corrente. Lembre-se de como foi fácil para o justo Ló se afastar de Abraão e dirigir seus olhos para Sodoma. Estamos todos expostos continuamente às correntes de opinião, aparentemente razoáveis e confortáveis, se comparadas à tarefa de lutar contra a correnteza, tendo os olhos voltados para o nosso Comandante (Rm 12.12).

2.2 — A palavra falada pelos anjos. Deus entregou a Lei a Moisés por intermédio de Seus anjos (Dt 33.2; At 7.38,53; G1 3.19). A desobediência ou obediência à Lei era punida ou recompensada. Em Hebreus 12.5-11, tal disciplina é discutida detalhadamente (Dt 28—30). Se a pessoa transgredisse a Lei, sua punição não era a perda da justificação ou regeneração, mas sim das bênçãos temporais e ela era disciplinada. Compare Deuteronômio 28—30 com Hebreus 12.5-11.

 

 

 

 

2.3 — Como escaparemos. Se o povo que ouviu a mensagem entregue pelos anjos era justamente punido quando desobedecia à Lei, como acham os cristãos que podem escapar da punição se negligenciarem a mensagem, maior ainda, entregue pelo mais importante Mensageiro, o Filho? O pronome nós é referido cinco vezes nos versículos 1 a 3. O autor adverte a nós, cristãos, incluindo a si mesmo, sobre o erro de descuidarmos da salvação e perdermos a oportunidade de reinar com Cristo.

A grande salvação (Fp 2.12,13) não se refere, aqui, propriamente, à justificação, já que, no caso, a salvação começou a ser anunciada pelo Senhor. A justificação é apresentada desde o Antigo Testamento (Gn 15.6), mas é o Senhor Jesus quem primeiro fala a respeito de Seus seguidores herdarem o Seu Reino e reinarem com Ele (Hb 2.10; Lc 12.31,32; 22.29,30).

Pelos que a ouviram. O autor inclui a si mesmo entre aqueles que não ouviram do Senhor pessoalmente a respeito da salvação. O fato de a terceira geração ter tido a mensagem confirmada pela segunda geração, a qual, por sua vez, ao que parece, realizou milagres, indica que muitos milagres podem ter cessado na terceira geração. O tempo verbal de confirmada, no passado, pode levar a essa suposição. Os primeiros leitores podem até ter presenciado milagres, mas não os ter realizado.

2.4 — Sinais e maravilhas se referem aos milagres realizados pelo Espírito Santo por intermédio do Senhor e de Seus apóstolos, em cumprimento das antigas promessas relativas à vinda do Messias (At 2.22,43; 4-30; 5.12; 6.8; 14.3; 15.12; 2 Co 12.12).

2.5 — O autor retorna ao tema do capítulo 1: o Filho é superior aos anjos. De que conecta esta passagem com Hebreus 1.4-14, como indicam a menção dos anjos e a alusão ao Salmo 110 (v. 8), neste versículo. O mundo futuro é o Reino futuro do Filho e de Seus companheiros (Hb 1.9) na terra.

2.6-8 — Como se a humanidade do Filho pudesse representar um aparente empecilho para a declaração de Sua superioridade, o autor de Hebreus cita o Salmo 8, uma reflexão lírica sobre Gênesis 1, para provar que Deus colocou a humanidade acima de toda a criação, o que inclui o mundo angelical.

 

 

2.8 — Mas agora. O domínio dos seres humanos sobre a criação de Deus foi adiado por causa do pecado (v. 15). A conivência da humanidade com Satanás levou-a a entrar em conflito com Deus. Ainda não indica que essa demora, porém, é apenas temporária.

2.9 — Os seres humanos dominarão a criação, mas mediante Jesus Cristo. Vemos, porém [...] aquele Jesus. O autor usa o nome humano de Cristo, Jesus, pela primeira vez nesta carta. Citando passagens do Salmo 8, chama a atenção para o fato de que Cristo, por Sua humilhação e exaltação, recuperou o que Adão havia perdido — o chamado original para que os seres humanos reinem sobre a criação de Deus (Fp 2.6-11; Ap 5.1-14).

2.10 — Trazendo muitos filhos à glória não é propriamente uma referência a conduzir os cristãos ao céu, mas sim a levar os companheiros sofredores à glória futura (2 Co 4-17). Ao sofrerem, os cristãos se tornam filhos, no sentido de que se identificam com Cristo. Jesus usou também a palavra filhos nesse sentido (Mt 5.44,45). A palavra grega aqui para príncipe significa, na verdade, capitão, comandante, chefe, criador ou autor. Descreve um pioneiro ou desbravador. A aceitação de Jesus das aflições na terra faz dele nosso líder. Ele experimentou os sofrimentos a que estamos sujeitos a passar. E não somente os suportou, como também, por intermédio deles, triunfou sobre o pecado, a morte e Satanás. Sua vida sem pecado marcou o caminho até Deus, caminho que devemos seguir.

Jesus é o nosso modelo, nosso líder, nosso Comandante. Entende nossa dor porque Ele mesmo a sentiu e vivenciou. Salvação, aqui, se refere à nossa salvação futura, à nossa glorificação no Reino vindouro de Cristo.

2.11-13 — Com uma declaração seguida de três citações de apoio do Antigo Testamento, o escritor demonstra a unidade entre o Filho e os muitos filhos de Deus.

2.11 — Todos de um. Esta expressão se refere à humanidade que Jesus compartilha com todos os cristãos, ou ao fato de Jesus e os cristãos pertencerem todos a Deus. Por serem os filhos de um mesmo Pai (Jo 20.17), Jesus pode chamar todos os cristãos de Seus irmãos.

2.12 — O Salmo 22, aqui citado, descreve a agonia de um justo sofredor. O salmo, em última análise, é messiânico. Descreve os sofrimentos de Cristo. Jesus cita o Salmo 22.1 na cruz (Mt 27.46). Nele, o salmista, como o próprio Messias, se refere a meus irmãos, identificando-se com todos aqueles que depositam sua fé em Deus.

2.13 — As citações aqui são de Isaías 8.17,18 e dizem respeito a um profeta, que, tal como Jesus, é perseguido e rejeitado, mas se torna uma referência para o fiel.

2.14-16 — Tendo estabelecido a unidade entre o Filho e os cristãos, o autor conclui que existem dois propósitos nessa identificação. O Filho se tornou humano para que, por Sua morte, pudesse destruir o diabo (v. 14) e libertar todos os que estavam presos ao pecado (v. 15).

2.14 — Participou das mesmas coisas. Jesus Cristo compartilhou de nossa humanidade, humilhando-se para tornar-se igual a nós (Fp 2.5-11). Império da morte. O diabo tenta as pessoas ao pecado e depois as acusa de rebelião contra Deus (Gn 3; Jó 1). Ao induzi-las ao pecado, Satanás entrega as pessoas à morte, pena devida pelos seus pecados (Rm 5.12). O diabo está ativo ainda hoje (1 Pe 5.8), mas seu poder sobre a morte lhe foi tirado. A morte de Cristo pagou por nós a penalidade do pecado. Podemos, assim, ao depositarmos nossa confiança em Cristo, ficar livres do perverso domínio de Satanás (Lc 10.18; 2 Tm 1.10; Ap 1.18). O julgamento de Satanás foi feito na cruz, mas sua execução será no futuro (1 Co 15.54-57; Ap 20.10).

2.15 — O diabo usa o medo da morte para nos escravizar. O Filho de Deus, porém, mediante Sua morte na cruz (v. 14), eliminou o medo e quebrou nossa servidão ao pecado e à morte.

2.16 — A descendência de Abraão se refere tanto aos descendentes humanos do patriarca quanto a seus filhos espirituais — aqueles que, como Abraão, depositam sua fé em Deus (G1 3.7,29). O autor pode ter usado essa expressão por serem os destinatários dessa carta principalmente judeus cristãos. O autor ressalta que Cristo veio para ajudar os filhos de Abraão, e não os exércitos angelicais.

2.17 — Em tudo inclui a humanidade de Jesus (v. 14) e Seu sofrimento (v. 18). Jesus partilhou de nossa natureza e nossos sofrimentos para que pudesse ser um Mediador compassivo entre Deus e a humanidade. Ele entende nossa fraqueza e intercede por nós na presença de Deus Pai. É, assim, um misericordioso [compassivo] e fiel [confiável] sumo sacerdote. Esta é a primeira vez em que o título de sumo sacerdote aparece em Hebreus e a primeira vez em que é aplicado a Jesus Cristo na Bíblia.

Expiar, ou seja, fazer expiação, significa satisfazer as exigências de um Deus santo e justo contra os pecadores que violaram Sua lei. Cristo aplacou a justa ira de Deus ao morrer na cruz em nosso lugar (Rm 3.21-26).

Embora inteiramente perfeito e sem pecado, Ele voluntariamente se submeteu à penalidade do pecado, ao experimentar a agonizante morte na cruz. Esse sacrifício voluntário do próprio Filho em nosso favor satisfez a justiça e santidade de Deus. E os benefícios de Seu sacrifício são para todos aqueles que nele depositarem sua fé.

2.18 — Sendo tentado. O sofrimento de Cristo incluiu a tentação. Ele experimentou a sedução do pecado, mas jamais se rendeu a ele. Cristo conhece o que é ser tentado; sabe, então, como ajudar aqueles que caem em tentação.

https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2015/07/significado-de-hebreus-2.html

 

 

 

 

 

 

 

 

3 de janeiro de 2018

A CARTA AOS HEBREUS E A EXCELÊNCIA DE CRISTO


A CARTA AOS HEBREUS E A EXCELÊNCIA DE CRISTO

 

                                                       Pr. JOSÉ COSTA JUNIOR

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

A Epístola aos Hebreus não é igual a nenhum outro livro do Novo Testamento. Ela começa como um tratado, continua como um sermão e conclui como uma carta. Conclui como uma carta, mas não começa como tal, pois não tem a saudação costumeira e não dá nem o nome do escritor nem o nome da comunidade à qual foi enviada. Contudo, por toda parte, o livro está claramente escrito para um grupo particular de leitores. Está escrito no melhor grego literário encontrado no Novo Testamento. O vocabulário é copioso e o estilo mostra traços de esforço e cuidado. A linguagem, ordem, ritmo, sintaxe, todos contribuem para o efeito total. O autor jamais é impetuoso; ele não é levado a se desviar por seus pensamentos. A beleza da carta pode mais facilmente ser apreciada que os detalhes do argumento, que demandam uma familiaridade não somente com o Velho Testamento, mas também certos tipos de interpretação do Velho Testa­mento vigentes no primeiro século.

 

Contudo, o leitor moderno sente que o autor de Hebreus o está dirigindo aos problemas com que o cristão se confronta hoje. Os primeiros leitores foram confrontados com fatos angustiantes. Particularmente na qualidade de quem anteriormente haviam sido zelosos aderentes do judaísmo. Parece muito provável que os primeiros leitores da epístola tinham ficado pessoalmente desapontados com o Cristianismo porque, por um lado, ele não lhes tinha proporcionado qualquer reino visível terreno e, por outro lado, o Cristianismo havia sido decisivamente rejeitado pela grande maioria dos seus irmãos de raça, os judeus. Além disso o contínuo apego ao Evangelho parecia apenas envolvê-los na participação das repreensões injuriosas de um Messias sofredor e crucificado, e no ter de enfrentar a possibilidade de violenta perseguição anticristã. É bem possível, portanto que se sentissem seriamente tentados a renegar a Jesus como o Messias e tornar a abraçar os bens visíveis e preferíveis, que o judaísmo parecia continuar a oferecer-lhes.

 

Que era o judaísmo que assim os atraía, em detrimento do Cristianismo, parece confirmado pelo modo óbvio com que o escritor resolve, desde o início da epístola, demonstrar a superioridade do novo pacto sobre o antigo, exibindo particularmente a proeminente excelência de Jesus, o Filho de Deus, em comparação com os profetas e os anjos, os líderes e os sumos sacerdotes que operavam na antiga dispensação. Portanto, o escritor mostra que se a antiga ordem era imperfeita e provisória, o Cristianismo trouxe perfeição (7.19), e perfeição que é eterna (5.9; 9.12,15; 13.20). Tanto o autor como seus leitores originais aparentemente eram judeus helenistas que tinham alguma familiaridade com o pensamento filosófico dos gregos, e parece que o autor lança mão de ideias baseadas em tais origens ao declarar que a antiga ordem continha meramente "figura do verdadeiro" (9.24) ou então apenas a "sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas" (10.1).

 

O leitor moderno também vive numa época de sublevação social, religiosa e cultural. As dificuldades pressionam de todos os lados, à medida que o cristão encara problemas desconcertantes, de proporções gigantescas. Onde está o Cristo em tudo isto? Este livro fala ao cristão de hoje, bem como ao cristão daqueles dias, urgindo-o a encontrar a solução para o problema básico, numa visão mais plena da pessoa e da obra de Jesus, o Cristo. O escritor diz que a religião, ou a verdadeira adoração, não é presa a coisas externas; ela é derivada de uma fé na supremacia de Cristo em todas as coisas: a palavra perfeita de Deus ao homem e o representante perfeito do homem perante Deus. Este livro lembra ao crente que não é parte de sua chamada ser complacente, procurar uma facilitação nas dificuldades, voltando às antigas formas de vida, ou mesmo ser desencorajado pela natureza complexa dos assuntos mundiais, conforme eles o afetam pessoalmente. O crente deve pôr-se, em primeiro lugar, continuamente no propósito de Deus, ao longo do caminho já marcado por Jesus Cristo, o autor e aperfeiçoador da fé do crente (12:2).

 

Há alguns problemas críticos em Hebreus, contudo, para os quais não há soluções fáceis. Faltando uma saudação, dois problemas estão imedia­tamente evidentes: Quem escreveu este livro e a quem foi dirigido? Problemas concomitantes são os do propósito, ocasião, data e local. Há muita discussão sobre cada um desses pontos pelos eruditos bíblicos modernos, com muito pouco acordo sobre qualquer um. Mas, para que este livro possa falar à nossa própria situação, é necessário determinar-se algo do cenário original em que a epístola foi produzida e o que ela significou para seus primeiros leitores.

 

            O objetivo deste estudo é trazer algumas informações, colhidas dentro da literatura evangélica, com a finalidade de ampliar a visão sobre a carta aos Hebreus e a excelência de Cristo. Não há nenhuma pretensão de esgotar o assunto ou de dogmatizá-lo, mas apenas trazer ao professor da EBD alguns elementos e ferramentas que poderão enriquecer sua aula.

 

 

I.                   AUTORIA, DESTINATÁRIO E PROPÓSITO

 

Na própria epístola não encontramos indicação explícita sobre seu escritor. Os escritores cristãos primitivos também não nos provem qualquer testemunho unânime ou convincente. Tertuliano afirma que Barnabé foi quem a escreveu. Mas a tal afirmação falta confirmação; ainda que reste algo a dizer a favor do mesmo. O homem a quem foi dado o nome cristão que significa "filho da exortação" (At 4.36), bem poderia ter sido o responsável por esta "presente palavra de exortação" (13.22). Sendo levita, certamente ele se interessava mais que ordinariamente nos rituais sacrificais; sendo judeu de Chipre, mui possivelmente ele tivera íntimo contato com os ensinos helenistas e filosóficos do judaísmo de Alexandria, com os quais tanto o escritor como os seus leitores parecem ter tido alguma familiaridade; na qualidade de alguém que se converteu imediatamente após Pentecoste (o que talvez seja referido em 2.3-4) indubitavelmente ele foi influenciado pelo ensino de Estêvão, uma influência que parece persistir nesta epístola.

 

Em Alexandria, onde a epístola foi aceita por seus próprios méritos, há evidência de uma tendência crescente, no terceiro século de nossa era, de ligá-la ao apóstolo Paulo, ainda que bastante indiretamente. Clemente sugeriu que Paulo escreveu-a em hebraico e que Lucas a traduziu para o grego. Orígenes se inclinava a pensar que os pensamentos originais fossem do apóstolo, ainda que não a forma escrita e a linguagem finais. Tal conexão dessa epístola ao nome de Paulo muito contribuiu para que lhe conferissem autoridade apostólica, na falta do que muitos hesitaram em aceitá-la como canônica. Por consequência, muitas cópias manuscritas vieram a ser intituladas "A Epístola de Paulo aos Hebreus". Entretanto, essa atribuição da epístola ao apóstolo, não é aceita pela maioria dos eruditos contemporâneos. A própria evidência interna da epístola, como sua linguagem, estilo e conteúdo, é considerada como prova conclusiva contra essa suposição (por exemplo, contrastar Hb 2.3 com Gl 1.12; Gl 2.6).

 

Outras sugestões são inteiramente especulativas. Incluem os nomes de Apolo, Silas, Áquila (ou Prisca e Áquila) e Filipe, o evangelista. Dentre essas, a sugestão de Lutero-Apolo-é talvez a mais acertada. Pelo que sabemos de Apolo (ver At 18.24-28), ele é exatamente o tipo de homem que poderia ter escrito tal epístola. Porém, não existe qualquer outra evidência para comprovar que ele tenha sido seu autor. Quando um escritor humano das Escrituras foi providencialmente levado a ocultar sua identidade, não há necessidade de tentar descobri-la, havendo pouco ou nenhuma esperança de sucesso nessa tentativa. É mais sábio que nos contentemos em não sabê-lo.

 

            Juntamente com o problema da autoria, a Epístola aos Hebreus apresenta um problema quanto a seus primeiros leitores. A quem escreveu o autor? Assim como a falta de uma introdução impede a atribuição do nome do autor, igualmente a destinação não é apresentada. Se este livro é verdadeiramente uma carta, isto seria razão suficiente para se crer que o título não é original. Supõe-se que o título foi acrescentado, para se distinguir este livro de outros que foram aceitos, lidos e discutidos pelas igrejas primitivas. O título expressa, contudo, a crença dos escrito­res patrísticos de que o livro foi escrito àqueles que, por nascimento, eram judeus. Também não há evidência de que a carta tenha tido um título diferente. Embora Clemente de Roma e Hermas (também de Roma) não tenham citado a carta em seus escritos, o título é antigo. Panteno e Clemente de Alexandria conheciam este título na última metade do segundo século, e o manuscrito Papiro II, de Chester Beatly, do final do segundo século, tem o título pr/oj  0ebra/iouj "A Hebreus"). Tertuliano (por volta de 200) conheceu o título correspondente em latim, Ad Hebraeos. Foi sugerido que talvez o título tenha vindo a ser usado por analogia com os títulos da Epístola aos Romanos e a Epístola aos Gálatas. A falácia disto é imediatamente aparente quando se observa que os versículos introdutórios dessas duas cartas expressam uma igreja, ou igrejas, num contexto geográfico (Rm. 1:7; Gl. 1:2). A falta dos versículos introdutórios, nos manuscritos existentes, obstaria esta analo­gia. Além do mais, é improvável que uma carta fosse enviada com uma saudação contendo somente "Aos hebreus". É muito mais provável que o título tenha surgido da impressão recebida, ao se ler a carta, e sido uma tentativa de se determinar pelo conteúdo o caráter de seus primeiros leitores. Portanto, o título representa a impressão de que a carta foi originalmente escrita a um grupo de cristãos judeus, num lugar específico geograficamente.

É pressuposto, pelo escritor, que seus leitores estão muito familiarizados com o sacerdócio aarônico e levítico, tendo um interesse ativo nele, bem como estando totalmente familiari­zados com o Velho Testamento, o aceitando como autoridade e como sendo sagrado. Além disso, sente-se que o escritor estava dirigindo suas palavras a um grupo particular, a quem conhecia pessoalmente (6:9,10; 10:34; 13:7,19).

 

Era uma igreja, ou um grupo dentro de uma igreja, que estivera em existência por algum tempo (5:12; 13:7), mas não havia visto ou ouvido Jesus em pessoa (2:3,4). Era um grupo que já havia sofrido perseguição (10:32-34), mas não havia ainda experimentado o martírio (12:4). Tinha uma história de liberalidade e generosidade em cuidar daqueles que sofreram mais, em tempos de perseguição (6:10; 10:34). Havia tido alguns grandes líderes e mestres no passado (13:7), mas não havia progredido na fé cristã (2:1-4; 3:12-19; 6:4-6; 10:25-29; 12:14-16). Parece que estava começando a separar-se de outros cristãos na comuni­dade (10:25).

 

Mas, onde vivia esse grupo? Tradicionalmente, supunha-se que a carta foi primeiramente enviada a Jerusalém, pois lá o sacerdócio aarônico (levítico) servia no ritual do templo. O principal obstáculo a esta suposição é que a carta tem muito a dizer acerca do tabernáculo móvel, mas não do templo. Também teria havido alguns em Jerusalém que teriam ouvido e visto Jesus (contrariamente a Hb 2:3). O uso familiar da Septuaginta, em contrário ao Velho Testamento em hebraico, é outro argumento contra Jerusalém como a destinação desta carta. Também estes leitores não haviam "resistido até o sangue" (12:4), ao passo que os cristãos judeus em Jerusalém haviam sofrido martírio cedo ('At. 7:58-8:3), e, através da era apostólica, a igreja em Jerusalém fora mais uma receptora que doadora de auxílio (6:10; cf. At. 11:29; Rom. 15:26; etc).

 

De alguma maneira, a Epístola aos Hebreus está ligada com Roma. A expressão contida em 13:24 ("Os de Itália vos saúdam") é melhor entendida como aqueles que vieram da Itália e agora, na presença do autor da carta, estavam enviando saudações de volta a seus amigos na Itália. Esta é a maneira normal de se interpretar a frase. Contudo, ela poderia significar "os que estão na Itália", onde está também o escritor, mas isto força o sentido. Apoiando uma destinação romana, estão as alusões literárias mais antigas a esta carta, que vem de Roma.

 

Embora nem Clemente nem Hermas (ambos de Roma) mencionem a carta por nome, existem paralelos significativos, no vocabulário, para se concluir que ambos conheceram esta carta. De recursos extra bíblicos, o que se sabe acerca da igreja romana, desde seu princípio, mostra que ela era caracterizada por sua liberalidade e generosidade. Ela também tinha sofrido perseguição e perda de possessões (10:32), mas não perda de vidas (12:4), o que poderia ter ocorrido durante a época em que Cláudio expulsou os judeus de Roma (49 d.C). Na Epístola de Paulo aos Romanos (Rm. 14), a igreja em Roma parece ser escrupulosa em relação à comida, o que também é visto em Hebreus (13:9). Além disso, é sugerido, em Romanos 11:13,18, que a igreja em Roma tinha uma base cristã-judaica.

 

Embora estas considerações não sejam conclusivas, elas parecem encaixar-se melhor na situação que outras sugestões. Da informação contida na carta, parece que as pessoas endereçadas eram cristãos judeus que viviam fora da Palestina, na tradição do judaísmo não-conformista. Além disso, a carta está, de algum modo, relacionada com a Itália (13:24), que provavelmente significa Roma. Certeza além deste ponto é impossível, pelos materiais que temos à nossa disposição. Assim como a autoria permanece sendo um enigma, também a identidade da destina­ção desta carta.

 

Há, provavelmente, tanto debate acerca do propósito de Hebreus quanto há acerca de sua autoria e destinação. A

 

identificação do autor e dos primeiros leitores são de menos importância que determinar a razão para a escrita. A carta foi escrita de tal maneira que sua própria interpretação está determinada por seu propósito. O autor descreve sua mensagem como uma "palavra de exortação" (13:22), e isto deve indicar algo de seu propósito. Além disso, a palavra "exortar" (como verbo, substantivo e adjetivo) é usada seis vezes, através da epístola, e o verbo "advertir" aparece três vezes. Deve-se concluir que o assunto era de importância prática vital. Mas, qual era o assunto? O que foram os leitores exortados a fazerem ou não fazerem?

 

          É uma admoestação para que os cristãos judeus façam um completo rompimento com as velhas formas do judaísmo e para que entrem na maturidade da "vida abundante", que só pode ocorrer em Jesus Cristo e através dele (João 10:10). Era a tendência, na igreja primitiva, ficar o cristão perto demais dos elementos judaicos do grupo primitivo. Aqui está uma admoestação para ele afastar-se dos elementos do ritual judaico; uma exortação para encontrar a maturidade não no ritualismo do velho concerto, mas na nova religião do Espírito e da liberdade (João 3:1-15). O cristianismo não deve ser desenvolvido dentro do judaísmo (Luc. 5:36-39). O autor estava escrevendo àqueles que haviam-se tornado cristãos, mas ainda estavam-se prendendo ao ritualismo do judaísmo, o ritualismo que jamais poderia efetuar um resultado permanente (7:19; 10:1). Continuar com o ritualismo seria equivalente ao fracasso de seus pais em entrarem na Terra Prometida; demonstra uma falta de fé completa na obra de Jesus Cristo.

 

É por esta razão que o autor desenvolveu seu argumento como fez. Tudo de bom no judaísmo não era mais que uma sombra do que é real em Jesus Cristo (9:23-10:18 - 12:14-17). Jesus é superior, em todos os aspectos, àquilo sobre o que o judaísmo foi construído: as revelações através dos pais e dos anjos (1:1-2:18), Moisés (3:1-4:13), Arão (4:14-7:28), o sistema sacrificial (8:1-10:18). O autor não condena estes elementos como sendo maus, nem fala acerca deles de maneira depreciadora; mostra, sim, que eles foram substituídos. Eles foram úteis, mas agora serviram para sua finalidade e devem ser abandonados, desde que Jesus veio (1:2; 3:3; 8:12; 10:14). Há cinco passagens admonitórias, cada uma sendo uma exortação ou advertência contra o deixar de crescer na maturidade cristã (2:1-4; 3:7-19; 6:4-8; 10:26-39; 12:14-17). A urgência e necessidade do cresci­mento espiritual (6:1-20) são confirmadas por aqueles que, na história de Israel, se apressaram em completa fé na promessa de Deus de uma vida espiritual mais rica (10:36-11:40), sendo o próprio Jesus o exemplo supremo (12:2).

Mas qual é a mensagem de Hebreus para o cristão moderno? É sempre a tendência de o novo crente ficar perto demais dos elementos de sua vida anterior, de trazer alguns desses elementos para dentro de sua nova vida. Algumas das coisas velhas são bem obviamente erradas e devem ser abandonadas desde o início. Há outras coisas, contudo, que não são más em si, e é difícil determinar-se quais são realmente prejudiciais e quais não são. Hebreus assenta os princípios básicos para a maturidade cristã. Esta epístola foi escrita a cristãos que estavam num estado de crescimento impedido (5:11-6:3); ainda eram crianças espirituais. Precisavam crescer tão naturalmente na vida espiritual como as crianças normais o fazem na vida física. Há um perigo em permanecer-se sempre uma criança (6:4-20). Mas, esse crescimento deve ocorrer em Jesus Cristo; tudo o que se precisa para o crescimento encontra-se no Senhor e Salvador Jesus Cristo. O crescimento só pode ocorrer à medida que os olhos da pessoa estejam centralizados em Jesus (Hb. 12:2) e a vida seja rendida completamente a ele, em fé. Ele é nosso tudo em todos, o eterno (13:8). Ele é capaz de aperfeiçoar em nós tudo o que é necessário para nosso crescimento até a maturidade espiritual (4:14-16).

 
II.                CRISTO A PALAVRA SUPERIOR A DOS PROFETAS


O primeiro capítulo da epístola Aos Hebreus trata de assuntos primordiais à nossa vida de fé. O autor estava imbuído da responsabilidade de mostrar que a revelação em Cristo ultrapassa e é superior a todos os outros mediadores entre Deus e os homens, a saber: profetas e anjos. Para demonstrar essa realidade, utiliza-se da Palavra de Deus como única fonte. Assim, podemos dizer que o conceito pode ser desenvolvido por meio de algumas perguntas simples: como Deus falou? Quando falou? Por intermédio de quem falou? A quem falou? O que falou? E para que falou?

 

            O Cristianismo é uma religião de revelação. Deus fala às pessoas e por intermédio das pessoas. O Velho Testamento nos dá conta de que Ele falou por teofanias, visões, oráculos e sinais, por meio de voz suave, pela chorosa compaixão de Jeremias, por denúncias feitas por Amós ao som de trombeta, usando a fome, seca e pestilência, também a colheita abundante, a libertação do exílio, a lei, juízes, poetas e profetas.

 

            Apesar disso, o autor informa aos hebreus que, nos últimos dias, Deus falou por meio de um que com ele tem relacionamento de filho e, consequentemente, completa autoridade. É bom que o ouvinte compreenda que a expressão nestes últimos dias era comum aos hebreus e possuía sentido messiânico. Assim, quando Deus falou teria como resposta os dias recentes, nos últimos dias, cumprindo a expectativa da chegada do Messias.

 

            O profeta Amós havia apregoado a justiça; Isaías, a santidade; Oséias, o amor perdoador. Nestes últimos dias, Deus mandou seu mais autorizado porta-voz, Cristo.  Vemos que o entendimento do Velho Testamento que o autor exibe aponta para uma continuidade na revelação. As formas utilizadas pelo Antigo Testamento não sofrem solução de continuidade, pelo contrário, são aperfeiçoadas com a revelação final em Jesus Cristo.

Cristo, declara-nos o autor, é o cumprimento das promessas de Deus.

 

Deparamo-nos com alguns pensamentos que podem nos ajudar a compreender com mais facilidade por que dizemos que a fé cristã é melhor, é superior. Com o auxílio da chamada Bíblia Shedd, Edições Vida Nova, podemos elencar sete declarações que revelam a majestade e poder de Cristo, mencionadas pelo autor da epístola e ratificadas por outras referências bíblicas:

 

1.      Cristo é o herdeiro de todas as coisas: Efésios 1:20-23;

2.      Ele é o Agente da Criação: João 1:3;

3.       Ele é o brilho que irradia o Deus que é Luz: I João 1:5;

4.      Ele manifesta a verdadeira natureza de Deus: II Coríntios 4:4; Colossenses 1:5;

 

5.      Sua palavra poderosa sustenta o Universo: Colossenses 1:17;

6.      Ele é o sacerdote que se oferece a si mesmo como sacrifício para purificar os pecados: João 1:29, e

7.      Ele ocupa o trono soberano, à direita de Deus: Salmos 110:1 e Efésios 4:10.

           

Porque oportuno, detenhamo-nos na leitura dos quatro primeiros versículos, que tornarão o que acabamos de destacar ainda mais significativo: “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o Universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles”.

           

Importante destacar que Hebreus nos aponta Cristo como o Logos de Deus, a sabedoria de Deus e o agente de Deus na criação. Os estudiosos do assunto costumam chamar a nossa atenção para duas correntes de pensamento que tinham destaque naqueles dias com relação à interpretação do relacionamento entre Jesus e Deus.

 

            A primeira é conhecida como adopcionista e diz que Jesus se tornara, na História, o Filho de Deus por nomeação do Pai e a outra afirma que Jesus era o Filho preexistente, estava com Deus no princípio. Sabedores disso, compreendemos melhor a razão do autor destacar com tanta certeza que Jesus era o herdeiro de todas as coisas, criador do Universo, resplendor da glória de Deus e sustentador do Universo pelo seu poder. Além de criar ele sustenta, não abandona a coisa criada à sua própria sorte.

 

Em Seu ser eterno Ele é Deidade genuína e absoluta, o resplendor ou brilho visível da glória de Deus, sendo Ele mesmo a expressão exata da deidade (gr. charakter tes hupostaseos, "reprodução da substância"), o Filho eterno do Pai, "vero Deus do Deus verdadeiro". No planejamento divino do universo, Cristo é o autor, sustentador e fim. Tudo foi criado por Ele. Ele sustenta a criação inteira. Ele é o seu herdeiro. Note-se que o fim é visto desde o início; a divina nomeação do Filho como herdeiro do universo precede a criação do universo.

 

Em relação aos homens, Cristo é o Profeta, o Sacerdote e o Rei dos homens. Em Cristo Deus proferiu Sua final palavra de revelação; e assim Ele traz Deus aos homens (cfr. Jo 1.14-18). Em Sua própria Pessoa Ele expurgou nossos pecados e consumou a obra de reconciliação; e assim Ele apresenta os homens a Deus. Agora Ele está entronizado à mão direita de Deus. Na qualidade de exaltado Deus-Homem, Ele obteve, por virtude de herança, uma posição muito acima de todos os outros (cfr. Ef 1.20-21; Fp 2.9-11).

 

III.             CRISTO SUPERIOR AOS ANJOS

Muitos judeus tinham um respeito supersticioso ou idólatra pelos anjos, porque tinham recebido a lei e outras notícias da vontade divina por sua ministração. Os consideravam como mediadores entre Deus e os homens, e alguns chegaram tão longe como para dar-lhes uma espécie de homenagem religiosa ou adoração. De modo que era necessário não só que o apóstolo insistisse em que Cristo é o Criador de todas as coisas e, portanto, criador dos próprios anjos, senão em que era o Messias em natureza humana ressuscitado e exaltado, a quem estão sujeitos os anjos, as autoridades e as potestades.

Para provar isto cita várias passagens do Antigo Testamento. Comparando o que Deus diz ali dos anjos com o que diz a Cristo, manifesta-se claramente a infinidade dos anjos a respeito de Cristo. aqui está o ofício dos anjos: são os ministros ou servos de Deus para fazerem sua vontade, porém, que coisas grandiosas diz o Pai de Cristo! Reconheçamo-lo e honremo-lo como Deus, pois se não tivesse sido Deus, nunca teria feito a obra de mediador e nunca teria levado a coroa do Mediador. Declara-se como Cristo foi apto para o ofício de Mediador e como foi confirmado nele: leva o nome de Messias por ser o Ungido. Somente como Homem tem seus semelhantes, e como ungido com o Espírito Santo; mas está por acima de todos os profetas, sacerdotes e reis que jamais tenham sido utilizados no serviço de Deus na terra.

Cita-se outra passagem da Escritura, o Salmo 102.25-27, no qual se declara o poder onipotente do Senhor Jesus Cristo, tanto ao criar o mundo como ao mudá-lo. Cristo envolverá este mundo como se for uma vestidura, para que não se abuse mais dele, nem seja usado como o tem sido. Assim como o soberano, quando as roupagens de seu estado lhe são tiradas para serem dobradas e guardadas, continua sendo o soberano, do mesmo modo nosso Senhor continuará sendo o Senhor quando tiver deixado a terra e os céus, como uma vestimenta. Então, não coloquemos nossos corações no que não é o que acreditamos que seja, e não será o que é agora. O pecado tem feito uma grande mudança no mundo, para pior, e Cristo fará uma grande mudança para melhor. Que estes pensamentos nos alertem, diligentes e desejosos do mundo melhor.

O Salvador tem realizado muito para fazer que todos os homens sejam seus amigos, porém tem inimigos, embora serão colocados por estrado embaixo de seus pés, pela submissão humilde ou pela destruição extrema. Cristo continuará vencendo. Os anjos mais excelsos não são senão espíritos ministradores, somente servos de Cristo para executarem seus mandamentos.

Os santos são herdeiros no presente, que ainda não entraram na plena possessão. Os anjos os ministram opondo-se à maldade e consolando suas almas, submetidos a Cristo e ao Espírito Santo. Os anjos reunirão a todos os santos no último dia, quando sejam lançados da presença de Cristo à miséria eterna todos os que depositaram seu coração e suas esperanças nos tesouros perecíveis e nas glórias passageiras.

 

CONCLUSÃO

 

Na confecção deste pequeno estudo, buscamos consultar literatura que mais se aproxima com o pensamento de nossa denominação, tentando não perder a coerência teológica. Evitamos expressar conceitos e opiniões pessoais sem o devido embasamento na Palavra, pois a finalidade é agregar conhecimentos, enriquecer a aula da escola dominical e proporcionar ao professor domínio sobre a matéria em tela. Caso alcance tais finalidades, agradeço ao meu DEUS por esta grandiosa oportunidade.

 

 

 

 

                                                       Pr. JOSÉ COSTA JUNIOR