31 de janeiro de 2010

Um ministério de reconciliação (5.11—6.10)

Um ministério de reconciliação (5.11—6.10)

A terceira característica do ministério de Paulo é a da reconciliação, à medida que ele continua a reafirmar a sinceridade dos seus atos junto aos coríntios (cf. 1.12; 2.17; 4.2). A abnegação dos seus motivos está garantida igualmente pelo temor ao Senhor e pelo amor a Cristo (5.11-15). A sua perspectiva é a da reconciliação de Deus em Cristo (5. 16-21); e o seu modo de vida como apóstolo é coerente com a sua mensagem (6.1-10). Esta é a resposta que os coríntios podem dar àqueles que procuram impugnar o caráter do ministério de Paulo.

a) O temor ao Senhor e o amor de Cristo (5.11-15). Contrariamente ao que alguns coríntios parecem afirmar, Paulo não é interesseiro nos seus atos para com eles. Ele não só é responsável perante Deus pela qualidade do seu ministério, mas também a verdadeira natureza do amor de Cristo por ele exclui tais motivos. -

Paulo tem em mente o fato e o caráter do juízo (cf. 10), e desta maneira está plenamente consciente da sua impressionante responsabilidade perante Deus.

Assim que (11) ele está persuadindo os homens, quando necessário, da integridade dos seus motivos ministeriais. A sua segurança contra qualquer falsidade de sua parte, é que somos manifestos a Deus. O seu apelo é ao que Deus conhece sobre ele; ou seja, todas as coisas (cf. Hb 4.12-13). Mas isto não é tudo: espero que, na vossa consciência, sejamos também manifestos. Será que o apóstolo não foi tão transparente com eles como tinha sido com Deus (cf. 4.2)? O seu apelo é à consciência moral (1.12; 4.2; 5.11), e não à inteligência orgulhosa deles (cf. 1 Co 1.18-3 1). Paulo acredita que no íntimo eles sabem que ele estava sendo verdadeiro.

Para que os seus adversários não interpretassem esta afirmação de sinceridade como uma manifestação de orgulho arrogante (cf. 2.17; 3.1), Paulo se apressa em esclarecer. Ele não recomeça a recomendar-se outra vez a eles.” Em lugar disso, o seu objetivo é dar a eles ocasião de vos gloriardes de nós (12). Ele deseja dotá-los de motivação e de recursos para responderem adequadamente àqueles que o atacam.

Eles estão em posição de defender o apóstolo (1.14) e deveriam fazê-lo contra os que se gloriam na aparência e não no coração. Coração, como Paulo usa, descreve “todo o homem, até as suas profundezas mais interiores”. Kuemmel escreve que aqui aparência (prosopon) “indica o homem centrado em si mesmo e hardia, o homem centrado em Deus”. O orgulho dos oponentes de Paulo é somente um pretexto, projetado para impressionar os homens e obter uma vantagem material, O fato de eles não se preocuparem com as realidades do ministério fica evidente pela sua oposição a Paulo como um apóstolo sofredor. O “orgulho deles está em uma demonstração de aparência exterior, e não no valor interior” (NEB).

Os coríntios podem perfeitamente defender a sinceridade do apóstolo (13) com base no fato de que “em Paulo o interesse próprio está integralmente derrotado, pois a sua vida é governada pela regra composta por duas partes: para Deus — para você”.’54 Bruce parafraseia a reivindicação de Paulo: “Nós estamos loucos, como podem pensar alguns? Bem, glorifiquemos a Deus. Somos calmos e sensíveis? Esta é a nossa vantagem”. Paulo foi acusado de estar enlouquecido (exestemen), assim como falaram de Jesus. “Diziam: Está fora de si” (exeste, Mc 3.21). A referência é à tensão espiritual constante em que Paulo vivia e trabalhava.

O entusiasmo do apóstolo, a sua superioridade absoluta às considerações egoístas comuns.., a sua afirmação decidida das verdades que estão além do alcance do sentido, o fogo sobrenatural que queimava incessantemente no seu peito... tudo isto constituía o estado que é descrito como estar “fora de si”, um tipo de loucura sagrada.., o discípulo e o Mestre, da mesma maneira, pareciam, àqueles que não os compreendiam, estar em uma condição de espírito demasiadamente tensa; no ardor da sua devoção, eles se permitiam ser levados além dos limites naturais.”

Considere a reação impulsiva de Festo à defesa de Paulo diante de Agripa. “Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar” (At 26.24).” Quando o comportamento de Paulo é excepcional segundo os padrões humanos normais, como ele insiste, é para Deus; e quando o seu comportamento é normal, é para vós. Portanto, em contraste com os seus críticos, o seu comportamento, como um todo, está livre do interesse próprio.

O que constrange Paulo a agir assim é o amor de Cristo (14). O verbo constranger se refere à “pressão que aprisiona e restringe” (cf. Fp 1.23).” O apóstolo é controlado, limitado pelo amor de Cristo por ele, O genitivo de Cristo é exclusivamente subjetivo” (cf. Rm 8.35,39). Isto é indicado pela referência imediata à morte de Cristo: um morreu por todos. Para Paulo, a morte de Cristo é “a doação que Cristo faz de si mesmo sem limites”.

Ela manifesta genuinamente o amor de Deus: “Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O resultado prático é que “o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Este é o amor que mantém Paulo cativo, um “amor que se origina e que termina com Deus em Cristo” (cf. Rm 8.28-3O).

Paulo prossegue explicando a razão pela qual o amor de Deus em Cristo tem tal poder controlador na sua motivação de vida. Ele tinha chegado a algumas conclusões vitais —julgando nós assim” — provavelmente logo depois da sua conversão. Trata-se de algo básico o fato de que Cristo morreu por todos (cf. 15). Com base nisto, duas coisas se seguem para demonstrar por que “o amor de Cristo... nos deixa sem opções” (Bruce).

A sua primeira convicção é de que, uma vez que um morreu por todos, logo, todos morreram. Este resultado implica em dois fatos em relação ao homem:

1) Quando Cristo morreu, toda a raça humana estava envolvida; pois Ele é “o Líder da raça humana... o princípio personificado da sua existência”. Assim, nele, “somos todos considerados mortos” e temos uma necessidade plena de redenção, ou Cristo não teria precisado morrer.

2) Como está indicado pela preposição por (hyper), não somente os homens estão identificados com Cristo pelo que Ele fez por eles (isto é, morreu), mas também, naquele evento, Ele mesmo se identificou com o pecado dos homens (versículo 21; cf. 1 Pe 2.24). A idéia de substituição está envolvida. Como escreve Tasker, “a morte de Cristo foi a morte de todos, no sentido de que Ele morreu a morte que todos deveriam ter morrido”)”

Em vista da morte de Cristo, todos os homens estão mortos, com respeito a qualquer auto-suficiência espiritual. A interpretação mais simples é a de que o fato de que Cristo morreu por todos prova que todos estavam mortos. Isto nos leva à segunda convicção de Paulo, que exclui o interesse próprio da vida daquele que é “controlado pelo amor de Cristo” (Moffatt). Ele morreu por todos, para que os que vivem no mundo não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou (15; cf. Rm 14.7-9; 1 Co 3.21-23; Gl 2.20).

A Ressurreição e a Crucificação estão inseparavelmente unidas pela obra expiatória de Cristo (Rm 4.25; 1 Co 15.17). A identificação, pela fé, com Cristo na sua morte, envolve a união com Ele na sua vida ressurrecta (Rm 5.10). A antiga vida pecaminosa que tinha o “eu” como o foco do interesse dá lugar a uma nova vida centrada naquele que por eles morreu e ressuscitou. Isto “quer dizer que a raiz do pecado é removida da sua vida”. Assim, a justificação se alarga para envolver a santificação. Segundo as próprias palavras de Paulo: “o nosso velho homem foi com ele crucificado... a fim de que não sirvamos mais ao pecado... Ora, sejá morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos.., quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.6-11). Para Paulo, “o viver é Cristo” (Fp 1,21). Numa vida assim, não há lugar para uma vida centrada em si mesmo (cf. Fp 2.5-18). Paulo nunca procura meramente exaltar e favorecer a si mesmo, 1) porque ele é completamente transparente diante do Deus a quem ele deve responder pela integrida- de do seu ministério, O seu verdadeiro ser

a) é sincero para com os seus convertidos, 11,

b) está em contraste com a falsidade dos seus críticos, 12. Paulo não se recomenda (2) porque ele é sustentado pelo surpreendente alcance do amor de Cristo por ele.

Esse amor, realizado na morte de Cristo no seu nome, pode controlar radicalmente os seus motivos porque

a) ele está ciente do desamparo desesperador da morte da qual ele foi libertado, 14, e porque,

b) ele é conquistado pela qualidade transcendente da vida que ele está livre para viver, 15. Paulo é contido pela sua esmagadora responsabilidade para com Deus e pela sua vida gratificante em Cristo.

b) A perspectiva da reconciliação (5.16-21). A sinceridade de Paulo é fundamentada no próprio caráter da sua mensagem. Ele proclama o ato reconciliador de Deus em Cristo, um evento que forneceu o critério final para a sua visão de si mesmo e de outros. Em uma afirmação explicativa (16), que está relacionada com o pensamento de que “todos morreram” (14), Paulo afirma a sua maneira diferente de considerar os homens. Mesmo depois da sua descoberta do significado da morte de Cristo (“daqui por diante”), ele não “conhece ninguém em termos de um relacionamento que seja puramente deste mundo” (Bruce).

Segundo a carne (cf. 1.17; 10.2; 11,18) faz referência às distinções tipicamente mundanas raça, posição social, riqueza e títulos segundo as quais os homens se consideram uns aos outros. Os valores dos críticos de Paulo eram desse tipo (12). Mas a morte de Cristo removeu a importância desses parâmetros (14), pois eles são contrários à realidade resultante do Espírito (Rm 8.5; cf. 1 Co 3.1-4).

Mesmo que Paulo tenha anteriormente visto a Cristo pelo critério carnal da sua cultura (Fp 3.4-6; cf. 01. 1.13-14), ele já não mais o faz,16’ pois isto o levou a julgar a reivindicação de Jesus da filiação messiânica como sendo uma blasfêmia, e a perseguir os seus seguidores (1 Tm 1.13). Agora, ele conhece a Cristo como Ele realmente é o Senhor ressuscitado e exaltado (Fp 2.5-11). Paulo pode ter tido contato com Jesus durante o seu ministério terreno, mas isto não é o que ele está dizendo aqui.

Como uma conseqüência direta dos versículos 14-15, vem um dos versículos mais fascinantes na epístola, com a sua “antecipação grandiosa”. Da morte veio a nova vida que alguém vive no Senhor, “uma nova vida, num novo contexto” que Paulo descreve com a sua expressão mais característica: em Cristo (17). Estar em Cristo é ser uma nova criatura (cf. 016.15; Ef 2.10; 4.24). Por meio de Cristo, uma situação completamente nova foi criada (cf. Is 43.19; Ap 21.15). Uma nova ordem das coisas nasceu, trazendo consigo um novo homem. O homem é uma nova criatura “em virtude do novo relacionamento com Deus”. Todos os relacionamentos anteriores, embora honrados pela idade, já passaram, porque “eis que tudo se fez novo”.

O apóstolo está jubiloso com a idéia. O seu ministério está baseado no fato de que “tudo está obsoleto... e perde qualquer valor diante daquela perspectiva exclusiva à qual, de agora em diante, tudo converge”.” Denney sugere que “ser guiado por distinções mundanas é conhecer somente algumas poucas pessoas, conhecê-las pelo que é superficial na sua natureza; mas ver que tais distinções morreram com a morte de Cristo, e olhar os homens em relação a Ele, que é Redentor e Senhor de tudo, é conhecer todos os nossos irmãos, e conhecê-los não superficialmente, mas profundamente”.

Significativa para o pensamento de Paulo aqui, como também para toda a sua perspectiva, é a expressão em (en) Cristo.

Com ela, ele retrata vividamente a sua convicção de que é no seu relacionamento íntimo pessoal com o Cristo ressuscitado que a salvação de Deus é continuamente percebida; em Cristo está em contraste direto com “debaixo da lei” (cf. Rm 6.14; 8.2).” Estar em Cristo significa ser levado até a esfera da completa atividade redentora de Deus (5.21; 1 Co 1.30). Isto resulta de uma identificação realista com a pessoa de Cristo, crucificado e ressuscitado, uma morte e uma ressurreição com Cristo (Rm 6.1-12; Gl 2.20).

O conceito é social,como também individual (1 Co 1.2); estar em Cristo é um compartilhar (koinonia) em Cristo (1 Co 1.9). Paulo imagina Cristo — em virtude da ressurreição como o Segundo Adão (Rm 5.12-21; 1 Co 15.45) e o Líder de uma nova humanidade da qual Ele é “as primícias” (1 Co 15.20,23), o “primogênito” (Rm 8.29; Cl 1.18) e o “espírito vivificante” (veja 1 Co 15.45).

Cristo está realística e intimamente conectado com a nova humanidade como o seu Líder representativo. Nesta expressão-chave, em Cristo, Paulo parece ter feito uso da idéia hebraica de personalidade corporativa, pela qual pode-se pensar em uma comunidade em termos do seu líder representativo.”

Esta nova situação, na qual os homens são novas criaturas em Cristo, se deve ao ato criativo de Deus (cf. 4.6; Rm 3.25; 11.36). Tudo isso provém de Deus, testemunha o após- tolo, porque Ele nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo (18-19).

A reconciliação envolve a superação da alienação pessoal (Ef 4.18) ou da hostilidade (Cl 1.21), causadas pela rebelião do homem contra o seu legítimo Soberano. O resultado é uma nova condição de paz (Rm 5.1; GI 5.22; Ef 2.12-17; Fp 4.7) e a restauração da comunhão.

E o homem que deve ser reconciliado, e não Deus, como no judaísmo, pois é Deus quem realiza a reconciliação. Certamente está envolvida a ira de Deus contra o pecado dos homens (Rm 1.18; 2.5), caso contrário os pecados que praticaram não seriam computados contra eles. Mas Deus, no seu amor sagrado, tomou a iniciativa. Na cruz de Cristo, Ele se tornou o Agressor e invadiu a vida humana extraviada com um amor cheio de perdão. “Se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho... o amor de Deus está derramado em nosso coração” (Rm 5.10, 5).

A “maior mudança possível ocorreu no homem... na sua natureza completa e na sua vida”,que estão alteradas por causa da mudança do relacionamento entre Deus e o homem. O pecado é tratado adequadamente com (21) respeito ao que ele causou ao homem (Rm 7.5-25; 8.2) e também com respeito ao que ele significa diante da santidade de Deus (Rm 3.21-26). Para Paulo e para os coríntios a reconciliação foi realizada. O caminho agora está aberto para todos, e ao apóstolo foi confiado o ministério da reconciliação. Este é o clímax da passagem e a razão final pela qual ele não pode viver para si mesmo (13-15).

A sua tarefa é anunciar a novidade aos homens, isto é (“neste sentido”), Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Nenhuma vírgula deve ser colocada de- pois de Cristo (cf. AS RSV), pois o que Paulo quer destacar é o que Deus fez em Cristo. O elo (Rm 5.9-10) entre a reconciliação e a justificação (12) é mostrado na palavra imputando (“levando em conta”, ASV; cf, Rm 4.3-8).

A obra da reconciliação, no entanto, não está completa no que diz respeito ao mundo, pois Deus pôs (“depositou”, Weymouth) em Paulo a palavra187 da reconciliação (cf. 1 Co 1.18). A palavra (logos), segundo Cullmann, “é a revelação final e definitiva como tal”. A palavra da reconciliação é a essência do ministério da reconciliação. A palavra qualifica plenamente todas as fases do ministério. Este ministério não trata basicamente de dar bons conselhos, mas sim de comunicar aos homens as boas-novas do que Deus fez em Cristo pelo mundo. Assim, Paulo é servo da sua mensagem.

Como embaixadores da parte de Cris- to (cf. Is 52.7; Ef 6.20), Paulo e seus colaboradores servem como representantes de (hyper) Cristo (20). O seu trabalho apostólico é semelhante ao de um poderoso representante de um imperador antigo. A sua dignidade e autoridade são as do seu Soberano. Não é como se, mas “vendo que” Deus por nós rogasse (Weymouth), a base do seu apelo urgente e piedoso. Ele insiste, da parte de Cristo, que o mundo se reconcilie com Deus. Aqui estão o valor e a dinâmica do seu ministério. Deus, pelo Espírito de Cristo, está por trás da pregação de Paulo e na verdade fala através dele. A sua palavra é a palavra de Deus (cf. 1 Ts 2.13).

Uma teologia do ministério cristão pode ser encontrada nestes versículos. A reconciliação dos homens tem duas causas eficazes: 1)o que Deus fez em Cristo o fez pecado por nós; e 2) como resultado disso, o que Cristo significou para nós nele, fôssemos feitos justiça de Deus (21). Bengel sugere que “Ele foi feito pecado da mesma maneira como nós somos feitos justiça”. Nele (en auto) corresponde a por nós (hyper hernon). Os dois lados adotaram o que não era merecidamente deles. Cristo, que “era inocente do pecado” (NEB), entrou numa esfera completamente estranha à si mesmo, para que nós pudéssemos entrar numa esfera da qual nos alienamos.

Cristo, um estranho absoluto a qualquer rebelião contra o Pai (Jo 8.46; Hb 4.15; 1 Pe 2.22), foi tratado como se fosse completamente responsável pela rebelião do homem contra Deus (Is 53.6; 1 Pe 2.24). Ele sofreu “o que Deus faz ao pecado, e tornou visível o que acontece quando o homem tem Deus contra si”. Cristo tornou-se “uma maldição por nós” (GI 3.13; cE Dt 21.23; Is 53.12; Lc 22.37; Rm 8.2).

A expressão Deus... o fez indica a unidade entre Pai e Filho na identificação com o pecado (Jo 10.30; Fp 2.8; Hb 9.1-14). No sentido definitivo, é Deus quem sofre em si mesmo as conseqüências do pecado do homem, pelo seu amor perdoador (Rm 13.8).

O resultado é “o perdão no seu sentido mais amplo”, a restauração de uma relação correta com Deus com a libertação e a novidade de vida exigidas por essa relação. A justiça de Deus é uma atividade de Deus (Rm 1.17) pela qual Ele defende a sua causa ou realiza os seus objetivos entre os homens. Ser considerado por Deus como justo é um ato régio, não de absolvição, mas de anistia ou de perdão (Rm 3.24-26).

A justificação é uma ação forense, mas a imagem de meras palavras está fragmentada, pois não é “uma mera palavra, mas é a palavra de Deus que trabalha e cria a vida”. Assim o homem é levado à justiça de Deus, numa nova condição de vida (15, 17), cujo mérito é a cruz de Cristo e cuja substância é o Espírito de Cristo. O caráter justo resultante do homem é o da justiça da sua nova relação com Deus (Fp 3.9), e a sua posse daquele Espírito correto, o Espírito Santo transformador (3.18), que lhe foi dado (Rm 5.5).

Novamente, a justificação se estende para envolver a santificação, pois é uma justiça nele (17) que se tornou, para nós, “justiça, santificação e redenção” (1 Co 1.30).’ A abordagem de Paulo do seu ministério é supremamente “em Cristo”.

1) Como uma nova criatura “em Cristo’, ele está alerta para o mundo dos homens (16-17). Como tal,

2) a ele foi confiada a mensagem do ato reconciliador de Deus “em Cristo” (18-19), para que

3) ele possa oferecer aos homens a oportunidade gratuita, “em Cristo”, de se tornarem a justiça de Deus (20-21)

c)A vida de um apóstolo (6.1-10). A divisão dos capítulos aqui é bastante arbitrária.

Paulo ainda está defendendo o caráter do seu ministério do ponto de vista da sua conduta e das suas experiências como um embaixador de Cristo.

O pensamento de 5.20 se conclui quando Paulo, com base na sua mensagem (5.21), exorta urgentemente os fracos crentes coríntios a não receberem’9’ a graça de Deus em vão (6.1). O seu medo é que eles não permitam que a salvação de Deus em Cristo realmente produza o fruto desejado de um caminhar santo — uma vida que responda adequadamente à morte de Cristo (5.14-15), e que possa enfrentar o juízo sem ter do que se envergonhar (5.10; cf. 1 Co 3.10-15).

O novo relacionamento com Deus, que nasceu através de Cristo, não se mantém automaticamente. Assim, eles são instigados a não “abrir mão dele por nada” (NEB). Paulo faz o seu apelo aos que estão cooperando com Deus

(5.18, 20; 1 Co 3.9). Beardslee conclui que o apóstolo é muito cauteloso ao falar de Deus e do homem como trabalhando juntos. Ele sugere que “seria mais verdadeiro para o pensamento de Paulo dizer que todo trabalho humano real é um trabalho de Deus, do que dizer que Deus e o homem trabalham juntos”.

Isto está de acordo com a declaração de lsaías 26.12 — “Senhor... tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras”.

O versículo 2 é um parênteses que revela uma das suposições fundamentais do evangelho de Paulo; a urgência do seu apelo é reforçada pela interjeição de Isaías 49.8. Ali, o Servo do Senhor tem a promessa de ajuda no dia em que a salvação for oferecida aos gentios (Is 49.1-12). Aos seus leitores, portanto, Paulo anuncia: eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação (2). O que os coríntios sentiram por meio da proclamação do apóstolo foi o verdadeiro cumprimento dessa profecia. A ação salvífica final de Deus está tendo lugar no presente; as últimas coisas não são mais um evento distante. Hoje é o tempo aceitável por Deus para que os homens participem livremente da sua reconciliação em Cristo: “O tempo do diabo é sempre o amanhã; o tempo de Deus é sempre o hoje”

A exortação de Paulo e dos seus colaboradores não é incoerente com a qualidade das suas vidas. Dando (3) e tornando-nos (4) são particípios coordenados com “cooperando” (1). A consciência do apóstolo está limpa, pois ele sempre procura “não dar escândalo em coisa alguma” (NASB), para que o seu ministério não seja censurado. Nenhuma causa real para a rejeição da sua mensagem pode ser encontrada na sua conduta. Este é o caráter do ministério cristão.

Mas como os seus caluniadores coríntios aparentemente sentiram que a honra da indicação feita por Deus significava sucesso e proeminência, Paulo teve que ressaltar que até mesmo os seus sofrimentos eram demonstrações da autenticidade do seu apostolado (45) 201 Em tudo possivelmente em todas as ocasiões — Paulo e seus companheiros de trabalho se tornavam recomendáveis (dignos de elogio, cf. 3.1; 4.2; 5.12) como ministros (servos; cf. 6.4; Mt 20.26; Mc 10.43) de Deus. Redpath sugere que todas as condições mencionadas em 4-10 “fornecem uma plataforma para a exibição da graça de Deus” na vida dos seus servos.

Paulo recomenda o seu ministério, primeiramente, na muita paciência (“grande persistência”, RSV). Esta qualidade, muita ressaltada por Jesus (Mt 10.22; 14.13; Lc 8.15; 21.19) e certamente significativa para Paulo (1.6; 11.23-30; Rm 5.3; 1 Ts 1.3), coloca-se no topo de três grupos de provações. O primeiro grupo, no versículo 4, apresenta os sofrimentos de Paulo em termos gerais. Eles podem se referir àquelas dificuldades que são independentes do agente humano, e incluem aflições (cf, 1.3-10; 2.4; 4.8, 17;At 14.22; 20.23), todas as experiências de pressão física, mental ou espiritual que talvez possam ser evitadas; necessidades (“privações”, NEB), que não possam ser evitadas; e angústias (“dilemas”, NEB, 4.8), das quais não é possível escapar.

O segundo trio (5) especifica os sofrimentos em particular que são infligidos pelos homens.

Paulo se esforça para recomendar a si mesmo como um servo fiel de Deus, “mostrando a suprema paciência entre” (Bruce) açoites (11.23; At 16.23), prisões (11.23; At 16.23-24) e tumultos (At 13.50; 14.19; 16.19; 19.29; 21.30). O terceiro trio consiste daquelas disciplinas que ele impôs a si mesmo para a proteção da sua missão: nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns.

O grande apóstolo, para o bem do evangelho, freqüentemente:

1) se cansava até o ponto da exaustão,

2) diminuía as suas horas de descanso para dedicar mais tempo ao ministério da Palavra e à oração, e

3) negligenciava as suas refeições quando o trabalho era urgente.

Tendo concluído com as nove condições que indicam a esfera da persistência, Paulo agora toma um novo fôlego. Ele enumera nove características espirituais, coordenadas com a virtude da pureza, que Deus o capacitou a demonstrar como um ministro de Cristo (6-7). O apóstolo manteve pura a sua vida e os seus motivos verdadeiros. Ele possuía a ciência do que Deus tinha feito em Jesus Cristo (cf. 8.7; 11.6; 1 Co 2.6-16) tanto na sua própria vida quanto nas suas implicações para todos os homens. Ele tinha a longanimidade, em que poderia suportar os ferimentos, os insultos, a teimosia e a estupidez das pessoas sem ira nem vingança (cf. Cl 3.12).

Mas além da persistência, ele era complacentemente bondoso e tolerante nas suas relações com tais pessoas (cf. Lc 6.35; 1 Co 13.4; 01 5.22). O Espírito Santo, que é a própria dinâmica de todas as virtudes de Paulo, estava sendo demonstrado no seu ministério (1 Co 2.4; 1 Ts 1.5). O fruto básico do Espírito, que é o amor genuíno (cf. Rm 12.9; 1 Tm 1.5; 1 Pe 1.22), reflete a própria atitude de Cristo (cf. 5.14; 1 Co 13.1-13) na vida do apóstolo.

A palavra da verdade (genitivo objetivo) se refere à proclamação que Paulo faz da verdade do evangelho (cf. 5.19; Ef 1.13; Cl 1.5). Tudo isto ele fez no (en) poder de Deus (cf. 4.7-11; 12.9-11; 1 Co 2.3-7). O seu ministério é a própria atividade de Deus (5.20). Com uma mudança nas preposições (dia substituindo a en de 4-7a) Paulo afirma que as suas armas (cf. 10.4) fazem parte da armadura (cf. Is 59.17; Rm 13.12; Ef 6.13-17; 1 Ts 5.8) “que a divina justiça provê” (5.21; cf. Rm 6.13). Dos recursos do seu relacionamento com Deus e está plenamente equipado tanto com armas ofensivas quanto defensivas. Pois à sua direita ele tem a “espada do Espírito” (Ef 6.17), e à sua esquerda, “o escudo da fé” (Ef 6.16).

A seguir vem uma lista de nove condições contrastantes que Paulo sofre com alegria pelo bem do seu chamado (8-10). Este é o terceiro intercâmbio de experiências opostas em Cristo que ele relaciona na carta (1.3-7; 4.7-12). O mesmo paradoxo de humilhação e glória que caracterizou a carreira de Jesus é parte integrante do ministério de Paulo.

Isto já está evidente no contraste entre os versículos 4-5 e 6-7. Os primeiros quatro pares (8-9a) apresentam as maneiras como Paulo é considerado por diversas pessoas:

Por honra e desonra
por infâmia e por boa fama
como enganadores e sendo verdadeiros,

como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos

Os últimos cinco pares (9b-10) apresentam os fatos reais da existência ministerial do apóstolo em relação a Jesus Cristo. Esta relação era um estado de coisas “determinadas pela crucificação e ressurreição, e pela posição subordinada deliberadamente assumida pelo Cristo exaltado”. Na verdade, Paulo vive:

como morrendo e eis que vivem os

como castigados e não mortos

como contristados, mas sempre alegres

como pobres, mas enriquecendo a muitos

como nada tendo e possuindo tudo

Assim, como um ministro da reconciliação de Deus em Cristo, Paulo pode exortar os coríntios por duas razões, a fim de não frustrar a graça de Deus nas suas vidas. Em primeiro lugar, está o fato de que o seu ministério é Deus verdadeiramente trabalhando na ação redentora do último dia (1-2).

Em segundo lugar, a qualidade da sua vida de serviço não impede a aceitação da graça de Deus (3).

Antes, a vida de Paulo exibe aquela graça

a) ao suportar diversas provações, 4-5;

b) manifestando as verdadeiras características do novo homem em Cristo, 6-7; e c) através de um ministério que compartilha o paradoxo da própria vida de Jesus, 8-10.

A essência da tarefa de Paulo como apóstolo é o ministério da reconciliação (5.11-6.10). E uma missão

1) cujos motivos são encontrados no ato de Deus em Cristo, 5.11-15;

2) cuja perspectiva é o ato de Deus em Cristo, 5.16-21; e

3) cuja conduta participa da natureza do ato de Deus em Cristo, 6.1-10.

Examinando rapidamente a caracterização que Paulo faz do seu ministério (3.1— 6.10), é evidente que ele defende o seu trabalho pela natureza da mensagem que lhe foi confiada, e experimentada pelos cormntios:

1) O seu ministério é primordialmente do Espírito, devido à obra do Espírito Santo, 3.1—4.6;

2) isto é possível porque tudo o que Paulo suporta por amor a Jesus é a morte de Jesus, que libera o Espírito Santo aos seus ouvintes — a vida ressurrecta de Jesus, da qual Paulo irá compartilhar plenamente no futuro, 4.7—5.10;

3) mas as duas condições só são verdadeiras pelo fato de o ministério de Paulo consistir do ato de reconciliação de Deus, em Cristo, para o mundo, 5.11—6.10.;

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus (auxiliar)

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico Beacon

A reconciliação, com uma dupla noção

A reconciliação, com uma dupla noção

O apóstolo continua mostrando os motivos de eles não terem desfalecido diante das aflições, a saber, sua expectativa, seu desejo e garantia de felicidade após a morte (vv. 1-5). Ele ressalta uma inferência para o conforto dos crentes no seu estado presente (vv. 6-8) e outra para estimulá-los em seu trabalho (vv. 9-11). Então apresenta um pedido de desculpas por dar a impressão de aprovar-se a si mesmo e oferece uma boa razão para o seu zelo e diligência (vv. 12-15). Ele menciona duas coisas que são necessárias no nosso viver cristão até o fim: regeneração e reconciliação (vv 16-21).

A Expectativa do Crente depois da Morte - - w. 1-11

Nesses versículos, o apóstolo dá continuidade ao argumento do capítulo anterior, referente aos motivos da sua coragem e paciência diante das aflições.

I Ele menciona sua expectativa, desejo e garantia da felicidade eterna depois da morte (vv. 1-5). Observe particularmente o seguinte:

1. A expectativa do crente pela felicidade eterna após a morte (v. 1). Ele sabe, ou está bem assegurado pela fé, a respeito da verdade e realidade da coisa em si, de que existe uma outra vida gloriosa depois que esta vida presente termina. Ele tem uma boa esperança em relação ao seu interesse nessa bem-aventurança eterna do mundo invisível: “Sabemos que temos uma construção de Deus, temos uma expectativa firme e bem fundamentada da felicidade futura”.

Observemos: (1) Que tipo de céu o crente espera habitar um dia. Ele o vê como uma casa, ou habitação, uma moradia, um lugar de descanso, um refúgio, a casa do nosso Pai, onde há muitas mansões, e nosso lar eterno. Essa é uma casa nos céus, nesse lugar alto e santo que excede em muito todos os palácios desta terra, da mesma forma que os céus estão muito acima da terra. E uma construção de Deus, cujo construtor é o próprio Deus. Portanto, essa construção é digna do seu autor.

A felicidade do estado futuro é o que Deus preparou para aqueles que o amam. São habitações eternas nos céus, não como tabernáculos humanos, as pobres casas de barro, nas quais nossas almas agora habitam, que estão deteriorando, “. . . cujo fundamento está no pó (veja Jó 4.19). (2) Quando é aguardada, essa felicidade será desfrutada imediatamente após a morte, tão logo .. . a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer”. Observe: [1] Que o corpo, essa casa terrena, é apenas um tabernáculo, que precisa ser dissolvido em breve. Os pregos serão tirados e as cordas serão afrouxadas, e então o corpo retornará ao pó. [2] Depois disso virá uma casa não feita por mãos humanas. O espírito retornará para Deus, que o deu. Aqueles que caminharam com Deus aqui habitarão com Ele para sempre.

2. O desejo sincero dos crentes quanto a essa bem-aventurança futura, que é expressa pela palavra stenazomeu — gememos, que significa:

(1) Gemido de tristeza debaixo de uma carga pesada. Assim os crentes gemem por causa das cargas da vida: “E, por isso, também gememos” (v. 2). “...nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados” (v. 4). Nosso corpo e as calamidades da vida são uma carga pesada. Mas os crentes gemem porque estão sobrecarregados com um corpo de pecado, e as muitas corrupções que ainda restam e continuam assolando-os. Isso faz Paulo exclamar: “Miserável homem que eu sou’ (Rm 7.24).

(2) Os crentes gemem, desejando a felicidade da outra vida. Eles gemem pelo seguinte: “E, por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (v. 2), para obter uma imortalidade abençoada, “para que o mortal seja absorvido pela vida” (v. 4), “... estando vestidos”, para não serem “achados nus” (v. 3).

Se for a vontade de Deus, não dormiremos, mas seremos transformados; porque não é desejável em si ser despido. A morte, considerada meramente como uma separação da alma do corpo, não é desejada, mas, sim, temida. Mas se ela for considerada uma passagem para a glória, o crente está pronto para morrer em vez de viver, estar ausente do corpo, para estar presente com o Senhor (v. 6), deixar esse corpo para estar com Cristo, e tirar esses trapos de mortalidade e colocar as vestes de glória. Observe: [1] A morte nos despojará da roupa da carne, e de todo o conforto que a vida pode oferecer, bem como acabará com todas as dificuldades daqui. Chegamos nus a este mundo e nus sairemos daqui. Mas: [2] As almas afáveis não serão encontradas despidas no outro mundo. Elas serão vestidas com vestes de louvor, com mantos de justiça e glória. Elas serão libertadas de todas as suas dificuldades, e suas vestes serão lavadas e branqueadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.14).

3. A garantia do crente do seu interesse nessa bem-aventurança futura, em um relato duplo:

(1) Da experiência da graça de Deus, ao prepará-lo para essa bem-aventurança.

“Ora, quem para isso mesmo nos preparou foi Deus” (v. 5). Observe: Todos os que foram chamados para o céu no futuro são preparados para o céu enquanto estão aqui. As pedras dessa construção espiritual e desse templo celestial são formadas aqui embaixo. Aquele que nos preparou para isso é Deus, porque nada menos do que um poder divino pode tornar a alma um participante da natureza divina. Somente a mão de Deus pode nos preparar para isso. Muita coisa precisa ocorrer para preparar nossa alma para o céu, e essa preparação do coração vem do Senhor.

(2)0 penhor do Espírito deu a eles essa garantia: o penhor é parte do pagamento e assegura o pagamento completo. A graça e o conforto atual do Espírito são garantias da graça e do conforto eternos.

II O apóstolo ressalta uma inferência para o conforto dos crentes no seu estado e condição presente neste mundo (vv. 6-8). Observe o seguinte:

1. Qual é o estado e a condição atual deles: Eles vivem “ausentes do Senhor” (v. 6). Eles são peregrinos e estrangeiros neste mundo. Eles moram aqui neste lar terreno, ou neste tabernáculo, por pouco tempo. Embora Deus esteja conosco aqui, pelo seu Espírito, e em suas ordenanças, não estamos com Ele como esperamos estar: não podemos ver sua face enquanto vivemos: “(Porque andamos por fé e não por vista)” (v. 7). Não temos a visão e o gozo de Deus, como uma dádiva que está presente conosco, e como esperamos ter no futuro, quando veremos como somos vistos. Observe: A fé é para este mundo e a visão está reservada para o outro mundo. E nosso dever e deve ser o nosso interesse, andar por fé, até chegarmos a viver por vista.

2. Quão confortáveis e corajosos deveríamos ser diante das dificuldades da vida, inclusive na hora da morte: “Pelo que estamos (devemos estar) sempre de bom ânimo” (v. 6), e outra vez (v. 8): “Mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo”. Se os cristãos verdadeiros considerassem de maneira adequada a perspectiva da fé em relação ao outro mundo e os motivos da sua esperança na bênção após a morte, seriam confortados diante das dificuldades da vida e fortalecidos na hora da morte. Quando estiverem diante do último inimigo, devem criar coragem e estar dispostos antes a morrer do que a viver. Devem despir-se deste tabernáculo conforme a vontade de Deus.

Observe: Assim como aqueles que são nascidos de cima anelam estar lá, assim basta estarmos ausentes do corpo, e logo estaremos com o Senhor; basta morrer, e estar com Cristo; basta fechar nossos olhos para todas as coisas neste mundo e abri-los no mundo de glória. A fé se transformará em visão.

III Ele continua despertando e estimulando a si mesmo e aos outros para a obra a ser realizada (vv. 9-11).

Por isso, a esperança bem-fundamentada do céu está longe de nos prover qualquer tipo de encorajamento para a preguiça ou a segurança pecaminosa.

Pelo contrário, essa esperança nos deveria animar a usar o maior cuidado e zelo na religião: “Pelo que (ou, porque esperamos estar presentes com o Senhor), muito desejamos” e nos esforçamos (v. 9).

Philotimoumetha — somos ambiciosos e nos esforçamos tão diligentemente quanto os homens mais ambiciosos são para obter aqui- loque almejam.

Observe o seguinte:

1. O motivo da ambição do apóstolo — a aceitação de Deus. Temos o propósito, quer vivos ou mortos, quer presentes no corpo ou ausentes desse corpo, de ser agradáveis ao Senhor (v. 9), para que possamos agradar aquele que nos escolheu, para que o nosso grande Senhor possa nos dizer:

Fizestes bem. Era isso que ansiavam como o maior favor e honra: era o auge da ambição deles.

2. Outros motivos estimulantes para despertar a atenção deles acerca do julgamento vindouro (vv. 10,11). Há muitas coisas relacionadas a essa grande questão que deveriam intimidar os homens mais temerosos a ter o máximo de cuidado e atenção na prática cristã. Por exemplo, a certeza desse julgamento diante do qual temos de aparecer. A universalidade do julgamento, diante do qual todos devemos aparecer.

O trono do julgamento do grande Juiz, o Senhor Jesus Cristo, diante do qual todos devemos comparecer. Ele aparecerá em fogo flamejante. A recompensa a ser recebida então, por coisas feitas nesse corpo, que será muito particular (cada um separada- mente), e muito justa, de acordo com o que a pessoa tiver feito, seja bom ou mau. O apóstolo chama esse julgamento tremendo de “...o temor que se deve ao Senhor” (v. 11) e diz estar motivado a persuadir os homens a se arrependerem e viverem uma vida santa, para que, quando Cristo aparecer com poder, eles apareçam diante dele com paz no coração. E, a respeito de sua fidelidade e diligência, ele confortavelmente apela a Deus, e à consciência daqueles a quem escreveu: somos manifestos a Deus; e espero que, na vossa consciência, sejamos também manifestos.

O Ministério dos Apóstolos vv. 12-15

Aqui observe:

I O apóstolo apresenta uma justificativa para seu aparente elogio de si mesmo e de seus companheiros (v. 13), e diz o seguinte:

1. Ele não tinha a intenção de elogiar-se, quando falou da sua fidelidade e diligência nos versículos anteriores. Ele também não queria suspeitar da boa opinião deles a seu respeito. Mas:

2. A verdadeira razão era colocar um argumento na boca deles para poderem responder aos acusadores dele, que proferiram vás vanglórias e gloriavam-se apenas em aparência. Assim eles poderiam gloriar-se deles ou defendê-los contra as acusações dos seus adversários. E se as pessoas podem dizer que a palavra foi manifesta em suas consciências e foi eficaz na conversão e edificação delas, esta é a melhor defesa que podem fazer quanto ao ministério da palavra, quando forem difamadas e acusadas.

II Ele apresenta boas razões para o seu grande zelo e diligência. Alguns dos adversários de Paulo o tinham acusado, possivelmente, por causa do seu zelo e fervor; como se fosse louco, ou, na linguagem dos seus dias, um fanático.

Eles atribuíram tudo ao seu entusiasmo, como o governador romano tinlia dito: “As muitas letras te fazem delirar” (At 26.24).

Mas o apóstolo diz o seguinte:

1. O seu zelo e esforço era para a glória de Deus e para o bem da igreja: “Porque, se enlouquecemos, é para Deus e para sua glória; e, se conservamos o juízo, é para vós, ou para promover o vosso bem” (v. 13). Se eles manifestavam um grande ardor e impetuosidade em alguns momentos, e usavam de extrema calma em argumentações convincentes em outros, era para o melhor fim. Eles tinham bons motivos para usar os dois métodos.

2. “Porque o amor de Cristo nos constrange” (v. 14).

Eles estavam debaixo dos constrangimentos mais suaves e fortes para fazer o que fizeram. O amor tem uma virtude constrangedora de animar os ministros e cristãos em geral no cumprimento do seu dever.

Nosso amor por Cristo tem essa virtude. E o amor de Cristo por nós, que foi manifestado na sua morte em nosso favor, tem esse efeito sobre nós, se for devida- mente considerado e julgado da forma correta. Observe como o apóstolo argumenta em favor da razoabilidade do constrangimento do amor, e declara:

(1) O que éramos antes, e deveríamos continuar a ser, se Cristo não tivesse morrido por nós: Estávamos mortos (v. 14). “... se um morreu par todos, logo, todos morreram”; mortos na lei, debaixo da condenação da morte; mortos em pecados e ofensas, mortos espiritualmente. Considere: Esta era a condição deplorável de todo aquele por quem Cristo morreu: Eles estavam perdidos e destruídos, mortos e decaídos, e teriam permanecido miseráveis para sempre se Cristo não tivesse morrido por eles.

(2) O que deveriam fazer essas pessoas por quem Cristo morreu; que vivessem para Ele. E isso que Cristo planejou: que ““... os que vivem”, que foram vivificados por Deus por meio da sua morte, vivam “para aquele que por eles morreu e ressuscitou” e não vivam mais para si” (v. 15). Observe: Não nós, mas Crista deveria ser o objetivo do nosso viver e das nossas ações. Um dos objetivos da morte de Cristo era curar-nos desse amor-próprio e levar-nos sempre a agir debaixo da influência imponente do seu amor. A vida cristã deve ser consagrada a Cristo. Viveremos como deveríamos viver quando vivermos para Crista, que morreu por nós.

O Ministério dos Apóstolos - - vv. 16-21

Nesses versículos, o apóstolo menciona duas coisas que são necessárias para o nosso viver cristão, sendo que as duas são conseqüências da morte de Cristo por nós; a saber; a regeneração e a reconciliação.

I A regeneração, que consiste em duas coisas, a saber:

1. O desapego do mundo: “...daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne (v. 16). Não possuímos ou temos influência sobre pessoa ou coisa alguma neste mundo com fins carnais e vantagens materiais. Somos, na verdade, capacitados pela graça divina, não para ocupar-nos com este mundo, nem com as coisas deste mundo, mas para viver acima dele. O amor de Crista está em nosso coração e o mundo está debaixo dos nossos pés”.

Considere: Bons cristãos devem desfrutar dos confortos desta vida, e de suas relações neste mundo, com uma indiferença santa. “...ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, diz o apóstolo, já o não conhecemos desse modo”. E questionável se Paulo tinha visto a Cristo em carne. No entanto, o restante dos apóstolos o tinha visto, e da mesma forma pode ter sido o caso entre aqueles a quem estava escrevendo agora.

Porém, ele não queria que eles se avaliassem de acordo com isso, urna vez que mesmo a presença corporal de Cristo não deveria ser desejada pelos seus discípulos.

Devemos viver de acordo com sua presença espiritual e o conforto que isso proporciona. Observe: Aqueles que fazem imagens de Cristo e as usam em sua adoração não estão seguindo o caminho que Deus designou para fortalecer sua fé e vivificar seus sentimentos; porque é a vontade de Deus que não mais conheçamos a Cristo em carne.

2. Uma mudança completa do coração: “Assim que, se alguém está em Cristo”, se alguém de fato é cristão, e demonstra isso na prática, “nova criatura é”, ou deveria ser (v. 17).

Alguns interpretam este texto da seguinte maneira: que seja uma nova criatura. Este deve ser o cuidado de todo aquele que professa a fé cristã, que seja uma nova criatura; não só que tenha um novo nome e vista um novo uniforme, mas que tenha um novo coração e uma nova natureza. A mudança que a graça de Deus faz no coração é tão grande, que “...as coisas velhas já passaram— pensamentos velhos, princípios velhos, práticas velhas, já passaram; e “...eis que tudo se fez novo”. Observe: A graça regeneradora cria um novo mundo na alma. Todas as coisas são novas. O homem renovado age a partir de um novo princípio, por novas leis, com novos fins, em uma nova convivência.

II A reconciliação, com uma dupla noção:

1. Como um privilégio inquestionável (vv. 18,19). A reconciliação pressupõe a ruptura de uma amizade. O pecado causou essa ruptura. Ele quebrou a amizade entre Deus e o homem. O coração do pecador é preenchido de inimizade contra Deus, e Deus é ofendido verdadeiramente pelo pecador. No entanto, existe a possibilidade da reconciliação; o Deus ofendido do céu está disposto a se reconciliar. E perceba:

(1) Ele apontou o Mediador da reconciliação. Ele nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo (v. 18). Deus deve ser reconhecido do inicio ao fim na tarefa e cumprimento do Mediador. Todas as coisas relacionadas à nossa reconciliação com Jesus Cristo vêm de Deus, que pela mediação de Jesus Cristo reconciliou o mundo consigo mesmo. Ele colocou-se na condição de ser reconciliado com os ofensores, sem causar qualquer agravo ou insulto à sua justiça ou santidade. Ele não imputa ao homem as suas transgressões e desiste do rigor do primeiro concerto, que foi quebrado, não insistindo na vantagem que Ele poderia ter legitimamente contra nós pela quebra da aliança. Ele está disposto a formar um novo pacto, uma nova aliança de graça, e, de acordo com o teor dela, Ele está livre para perdoar todos os nossos pecados e justificar livremente, pela sua graça, todo aquele que crer.

(2) Ele estabeleceu o ministério da reconciliação” (v. 18). Pela inspiração de Deus, foram escritas as Escrituras, que contêm a palavra da reconciliação, mostrando-nos que a paz foi feita pelo sangue da cruz, que a reconciliação foi operada, e nos orientou em como podemos estar interessados por ela. Ele estabeleceu o oficio do ministério, que é o ministério da reconciliação. Os ministros devem abrir e proclamar aos pecadores os termos da misericórdia e reconciliação e persuadi-los a concordar com eles. Porque:

2. A reconciliação é entendida aqui como nosso dever indispensável(v. 20). Da mesma forma que Deus está pronto a ser reconciliado conosco, nós também devemos nos reconciliar com Ele. E é o grande alvo e plano do evangelho que a palavra da reconciliação prevaleça contra os pecadores para que abandonem a sua inimizade contra Deus. Ministros fiéis são embaixadores de Cristo, enviados parar tratar com os pecadores acerca de paz e reconciliação: Eles vêm em nome de Deus, com suas súplicas, e agem em nome de Cristo, fazendo aquilo que Ele fez quando esteve nesta terra e o que Ele deseja que seja feito agora que está no céu.

Que condescendência maravilhosa! Embora Deus não possa ser considerado um perdedor na disputa ou desavença, nem um ganhador na paz, no entanto, pelos seus ministros Ele suplica para que os pecadores abandonem a sua inimizade e aceitem os termos que Ele oferece, para que possam ser reconciliados com Ele, com todos os seus atributos, com todas as suas leis, e com todas as suas providências, e creiam no Mediador, e aceitem a redenção e concordem com todo o seu evangelho.

Para nos encorajar a fazer isso, o apóstolo acrescenta o que deveria ser bem entendido e devida- mente considerado por nós (v. 21), a saber: (1) A pureza do Mediador: Ele “...não conheceu pecado”. (2) O sacrifício que ofereceu: Ele foi feito “...pecado por nós”; não um pecador, mas pecado, isto é, uma oferta pelo pecado, um sacrifício pelo pecado. (3) O fim e desígnio de tudo isso: ..para que, nele, fôssemos feit os justiça de Deus” e justificados livremente pela graça de Deus pela redenção que está em Cristo Jesus. Observe: [1] Como Cristo, que não conheceu pecado, foi feito pecado por nós, para que nós, que não temos justiça própria, fôssemos feitos nele justiça de Deus. [2]

Nossa reconciliação com Deus somente ocorre por meio de Jesus Cristo e pelo seu mérito. Portanto, devemos somente confiar nele e na sua justiça.

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus (auxiliar)

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

Comentário Bíblico NT. Mathew Henry

28 de janeiro de 2010

Tesouro em Vasos de Barro

Tesouro em Vasos de Barro

Texto Áureo: “Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.”(2 Co 4.7).

I – Considerações iniciais

Primeiramente gostaria de saudar aos irmãos com a Paz do Senhor.

Nesta oportunidade estaremos fazendo um breve estudo sobre a lição 5 do primeiro trimestre do ano de 2010, Tesouro em Vasos de Barro. Esta é uma lição muito bela, que pode trazer a todos nós diversos ensinamentos de como é importante entregarmos nossa vida completamente a Deus, nos fazendo barro em Tuas mãos para que Ele possa fazer de nós vasos da maneira que O agrada e nos encher de Seus maravilhosos tesouros.

Primeiramente estaremos estudando sobre Vasos de Barro, para depois falarmos dos Tesouros de Deus, para que possamos nos aprofundar em cada um destes temas e, por fim, relacioná-los.

II – Vasos de Barro

Na Bíblia podemos encontrar ao menos dois sentidos diferentes para esta comparação feita entre nós humanos e os vasos de barro. Encontra-se o sentido trazido pela lição, o qual nos compara a Vasos de Barro por estes serem recipientes frágeis que podem guardar dentro de si grandes riquezas. Encontra-se, ainda, o sentido de que somos barro nas mãos de Deus, o nosso Oleiro, o qual pode nos moldar da forma como Lhe agradar. Pode-se facilmente relacionar estes sentidos, mas vamos estudá-los separadamente antes para depois fazermos esta relação.

1. Nós somos o barro e Deus o Oleiro

1A palavra do Senhor, que veio a Jeremias dizendo: 2Levanta-te e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. 3E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas. 4Como o vaso que ele fazia de barro se quebrou na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos seus olhos fazer. 5Então, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 6‘Não poderei eu fazer de vós como este oleiro, ó casa de Israel? – diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel ” (Jeremias 18. 1-6).

Nesta passagem, Deus fala ao profeta Jeremias através de uma parábola, comparando a todos nós com vasos que são feitos por um oleiro. Deus manda que Jeremias observe um oleiro trabalhando, e ao fazer isso o profeta vê que o oleiro molda o barro da forma como lhe parece bom aos olhos e que quando o vaso quebra em suas mãos, ele pode refazê-lo de outra forma.

Somos comparados ao barro nas mãos do oleiro, pois este uso aquele para fazer vasos da forma que lhe agradar, podendo fazer de uma forma, depois mudar para algo totalmente diferente. Esta comparação nos mostra o dever que temos de entregar nossas vidas completamente a Deus, para que Ele possa fazer de nós o que lhe agradar. Sempre devemos buscar andar segundo a vontade de Deus, pois assim nossa vida será agradável aos Seus olhos.

O oleiro não pode trabalhar com um material rígido, pois assim ele não consegue moldar. O barro é um material que possui uma consistência adequada para ser moldado de várias formas diferentes. Assim devemos ser, um corpo preparado e disposto a ser feito da forma como agradar a Deus.

Enquanto há deformidades no vaso, enquanto não chega ao resultado desejado pelo oleiro, este não para de moldá-lo, buscando sempre a perfeição. Da mesma forma devemos nos colocar diante de Deus, para que Ele possa estar constantemente retirando nossas deformidades, isto é, nos ajudando a nos santificar, a buscar sermos vasos perfeitos, adequados a guardar os Seus tesouros.

Quando queremos servir ao Senhor, devemos fazê-lo com todo o nosso viver. Desta forma, se há algo em nós que pode não agradar a Deus, devemos deixar que Ele nos molde segundo a Tua Palavra. Se alguém se converte, aceita a Jesus como único e suficiente Salvador, deve buscar uma grande mudança em sua vida. É o que muitos chamam de regeneração. Não nos cabe nos aprofundar neste tema, uma vez que ele é matéria para um estudo próprio, mas ele deve ser lembrado, pois o maior sentido de nos colocarmos como barro nas mãos de Deus é exatamente para que ele possa mudar nossas vidas. Isso serve para todos nós, desde aquele servo fiel, mas que como humano possui suas falhas e deve buscar ser corrigido pelo oleiro; passando por aquele que se proclama evangélico, mas não possui uma vida condizente; até chegar aos novos convertidos, que devem buscar desde sempre serem quebrados por Deus e serem feitos vasos novos.

Como encontramos em João 3.3: 3Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.”

A respeito da regeneração, podemos encontrar na Bíblia de Estudo Pentecostal, p. 1576, no estudo intitulado A Regeneração, o seguinte comentário:

“A regeneração é a nova criação e transformação da pessoa (Rm 12.2; Ef 4.23,24), efetuadas por Deus e o Espírito Santo (Jo 3.6; Tt 3.5; (...)). Por esta operação, a vida eterna por parte do próprio Deus é outorgado ao crente (Jo 3.16; 2 Pe 1.4; 1 Jo 5.11), e este se torna filho de Deus (Jo 1.12; Rm 8.16,17; Gl 3.26); e uma nova criatura (2 Co 5.17; Cl 3.10). Já não se conforma com este mundo (Rm 12.2), mas é criado segundo Deus ‘em verdadeira justiça e santidade’ (Ef 4.24)”.

A comparação entre nós e o barro não serve só para aqueles que querem ter suas deformidades retiradas pelo nosso Oleiro, mas também para aqueles que querem ter uma nova vida, querem ser regenerados, querem ser quebrados por Deus e feitos vasos novos, segundo a Tua vontade.

Devemos proclamar como fez o profeta Isaías no capítulo 64, versículo 8, do livro que leva seu nome: 8Mas, agora, ó Senhor, tu és o nosso pai; nós, o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.”

Encontramos na epístola do apóstolo Paulo aos Romanos, no capítulo 9, as expressões Vaso para Honra e Vaso para Desonra, e Vasos da Ira e Vasos de Misericórdia. Ambos os paradoxos possuem basicamente o mesmo significado. Para melhor entendermos, primeiramente vamos ver Rm 9. 20-23: 20Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura dirá ao que o formou: Por que me fizeste assim? 21Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? 22E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição, 23para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou,”.

No versículo 20 o apóstolo Paulo expõe a superioridade de Deus em relação a nós, mostrando que não somos dignos de contestar o que Ele faz, continuando no começo do versículo 21, quando então usa o paradoxo vaso para honra e para desonra. Neste momento, Paulo começa a mostrar que existem vasos que não agradam a Deus e vasos que agradam a Ele, mesmo sendo ambos feitos pela mesma massa. Os vasos para desonra são aqueles que se perdem no mundo do pecado, enquanto os para honra são os que são fieis a Deus. Para melhor explicar isso, Paulo usa as figuras dos Vasos da Ira e Vasos de Misericórdia. Ele fala que Deus suporta os primeiros, os quais são preparados para a perdição, com muita paciência.

A expressão Vasos da Ira é equivalente à Vaso para Desonra, ambas falam de pessoas que vivem no mundo, regidos pelo pecado, que não possuem Deus em suas vidas. Estas pessoas possuem como fim natural a perdição, mas podem se regenerar, deixar que Deus os refaça em Vasos para Honra, ou Vasos de Misericórdia. Estas expressões designam os salvos em Cristo, os servos fiéis a Deus. Fala-se em Vasos de Misericórdia, pois estes são resultados da misericórdia de Deus para com os homens pecadores que se arrependem e buscam se regenerar. Todos que procuram seguir os passos de Jesus e viver segundo a Palavra de Deus podem ser transformados de Vasos para Desonra/Vasos da Ira em Vasos para Honra/Vasos de Misericórdia. Como já foi dito anteriormente, Deus tem poder para nos desfazer em suas mãos e fazer de nós vasos conforme a Sua vontade, como o oleiro fez com o vaso enquanto o profeta Jeremias observava.

Como falou o apóstolo Paulo em Romanos 3.23-26: "23Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; 24sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, 25ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; 26para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus".

2. A fragilidade dos vasos de barro

Este é o segundo sentido que se dá a esta metáfora usada na Bíblia, a qual nos compara com vasos de barro. Aqui Deus não é tido como o oleiro, mas como aquele que enche os vasos com seus tesouros.

Sabemos que existem vasos de diversos materiais, e dentre todos, talvez os mais frágeis sejam os feitos de barro. Qualquer queda de um vaso de barro pode fazer com que ele se quebre, não servindo mais para qualquer coisa. Por isso é que somos comparados a vasos de barro, e não a vasos de ouro, por exemplo. Estes podem cair ou receber pancadas que não se quebrarão.

Somos vasos de barro pois nosso corpo é frágil. Quando caímos precisamos de uma ajuda para nos levantar, e se a queda for grande podemos nos estilhaçar completamente. Essas quedas são todas as dificuldades que a vida neste mundo nos traz, todas as tentações a que somos submetidos. O mundo está no pecado, e nós só resistimos, permanecemos na presença de Deus, pois Ele nos dá força. Antes que possamos cair no chão e virar cacos, Ele nos seguro com Tua mão.

Quando estamos fracos, Deus nos dá forças, como escreveu o apóstolo Paulo em sua segunda carta aos Coríntios 12.9: 9E disse-me: A minha graça te basta, por que o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo”.

A primeira parte deste versículo mostra Deus falando a Paulo, mostrando a ele que em sua fraqueza Deus o fortalece. Como podemos encontrar no comentário a este versículo escrito na Bíblia de Estudo Pentecostal, p. 1786: “A graça é a presença, o favor e o poder de Deus em nossa vida. É uma força, um poder celestial outorgado àqueles que invocam a Deus. Essa graça descerá sobre o crente fiel que suportar suas fraquezas e dificuldades, por amor ao evangelho (...)”.

Podemos ver que não temos simplesmente que nos aceitar como fracos e esperar a força de Deus em todo momento. O apóstolo Paulo fala no versículo subsequente ao supracitado que sentirá prazer “nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo” (2 Co 12.10). Isso quer dizer que ele continuará sofrendo qualquer coisa por amor de Cristo, continuará firme na presença de Deus, proclamando o Evangelho. Paulo se coloca como fraco, mas mesmo assim permanece fiel a Deus. O que se percebe nisso tudo, é que recebe a força de Deus aquele que luta por Ele, que busca incondicionalmente estar seguindo a Ele.

Deus não vai ficar nos livrando de tentações o tempo todo se não fizermos a nossa parte, se não buscarmos a sua presença. Como bem expôs o comentário acima mencionado, a graça de Deus é com aquele que suporta suas fraquezas e dificuldade por amor ao Evangelho. Sendo servos de Deus já temos uma força que ele nos dá para que possamos, por nós mesmos, resistirmos às tentações, permanecermos firmes na Tua casa. Quando as nossas forças não são suficientes, Deus pode nos dar da Tua graça, se assim buscarmos. Porém se damos abertura ao pecado, não merecemos a graça de Deus.

3. Relacionando os dois sentidos

Podemos concluir com todo o exposto, que devemos nos colocar como barro nas mãos do Grande Oleiro. Assim, Ele poderá nos fazer, nos moldar e, quando necessário, nos refazer, tudo conforme a Tua vontade. De toda forma o barro é um material frágil, e mesmo sendo feitos por Deus, temos um corpo fraco. Por isso Ele nos dá da sua força e da Tua graça, para que mesmo fracos, passamos ser fortes enquanto Deus habitar dentro de nós.

Somos comparados a vasos de barro em 2 Co 4.7, onde Paulo fala que temos um tesouro em vasos de barro. Assim Ele fala que mesmo sendo fracos, Deus coloca em nós grandes tesouros, os quais por nós mesmos não conquistaríamos. Vamos, pois, estudar estes tesouros.

III – Tesouros

Dando continuidade ao estudo, passamos agora a fazer um sintético, porém aprofundado, estudo sobre os tesouros. No dicionário encontramos como conceito de tesouro o seguinte: “Grande porção de dinheiro ou de objetos preciosos.” (Dicionário Aurélio). Disso se tira que o tesouro nada mais é do que uma grande quantidade de coisas de valor.

Nós carregamos um imenso tesouro em nosso interior. Como os vasos que, mesmo frágeis, carregavam dentro de si grandes tesouros materiais antigamente, assim somos nós, que mesmo mediante nossa fraqueza, carregamos dentro de nós o maior dos tesouros, não o tesouro visível, material, mas aquele tesouro que só os olhos do coração veem, o tesouro invisível, que só provém de Deus.

Nesse estudo analisaremos os grandes tesouros que carregamos em nossos corações, que provêm de Deus, tais como: A Verdade, a Palavra de Deus e o Evangelho; o Amor (em seus diversos aspectos); a Força.

1. A Verdade, a Palavra de Deus e o Evangelho

O apóstolo Paulo ao falar do tesouro em vasos de barro aponta para o grande poder juntamente com a grande responsabilidade que tinha de carregar dentro de si a mensagem do Evangelho, de ser fortalecido pelo Espírito Santo para poder transmitir a verdadeira Palavra de Deus.

Em 2 Co 4. 2 o apóstolo Paulo diz: 2antes, rejeitamos as coisas que, por vergonha, se ocultam, não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.” Ele e seus companheiros de ministério rejeitavam completamente os falsos mestres, que vinham com palavras persuasivas, mas destituídos da verdade do Evangelho.

No seguimento a tal trecho o apóstolo Paulo deixa claro que eles pregavam a genuína Palavra de Deus, a mensagem de Cristo Jesus (2 Co 4.5). Toda mensagem de Paulo era guiada pelo Espírito Santo de Deus, que o fazia capaz de pregar o Evangelho de Jesus Cristo, nunca fugindo da verdade, mas sempre se baseando na sabedoria divina, na valiosa Palavra de Deus.

Todos nós devemos ter esse tesouro em nossos corações. Sempre buscarmos ser cheios do poder do Espírito Santo, para que, com responsabilidade, possamos transmitir a Palavra de Deus para quem quer que seja. Nunca nos afastando da verdade, mas sempre pregando o genuíno Evangelho. Tal tesouro deve ser reluzente em nossos corações, para que o verdadeiro Evangelho possa transparecer em nossas vidas.

Dessa forma estaremos sempre preparados para cumprir a missão que nos foi dada, qual seja: 15E Disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”(Mc 16.15). Tendo tamanho tesouro em nossos corações, sempre resplandeceremos a Palavra de Deus.

2. Amor

Outro grande tesouro que o vaso carrega é o amor. Passemos a analisá-lo.

2.1 O Amor de Deus por nós

Deus nos ama de forma sublime. De um modo que nenhum humano pode amar. Deus é amor. 16E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é caridade e quem está em caridade está em Deus, e Deus, nele”. (1 Jo 4. 16).

O amor de Deus por nós é um tesouro maravilhoso que temos, não propriamente pelo amor em si, pois este está em Deus e vem sobre nós, mas sim por aquilo que adquirimos em nosso interior por conseqüência desse amor, isso sim fica guardado no vaso.

Através do amor de Deus nós temos a perfeita paz de Cristo Jesus. 27Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14. 27). Tal paz que temos em nosso coração só é possível pelo amor que Deus nos tem. A paz que traz alegria, que faz com que nossa vida seja maravilhosa, mesmo diante das dificuldades. A paz que temos em Cristo é perfeita.

Também por causa do imenso amor que Deus tem, nós podemos ter confiança. Confiança de colocarmos toda nossa vida, todos nossos planos nas mãos de Deus e podermos sossegar sabendo que o melhor para nossa vida acontecerá. 1Os que confiam no Senhor serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.” (Sl 125. 1)

Maravilhoso é podermos guardar tão grande tesouro em nossos corações. Podemos ter a paz perfeita de Jesus e a confiança plena em Deus. O amor de Deus para conosco é sublime, é um tesouro de valor incalculável.

2.2 Nosso amor pelo próximo

34Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.” (Jo 13. 34). Jesus nos deu esse mandamento como o maior de todos, como aquele que resume todos os outros (Rm 13. 8 e 9). Todavia, apesar de ser um mandamento dado por Jesus, que humano seria capaz de amar a todos, amigos e inimigos, se não pela graça de Deus? É ai o ponto onde o nosso amor pelo próximo torna-se um grande tesouro.

Tal mandamento não refere-se simplesmente a amarmos nosso pai, nossa mãe, irmãos (de sangue e na fé), namorada (o), esposa (o), ou familiares próximos. Mas sim termos caridade (amor) para com todos que necessitarem de nossa ajuda, amigos ou inimigos, como anteriormente citado. Esse amor só pode ser dado por Deus!

O amor que temos pelo próximo é um tesouro que traz consigo outros vários . Por ele somos capazes de perdoar ao próximo, sem guardar rancor ou qualquer sentimento ruim. O perdão é uma das maiores características desse amor que só vem de Deus, pois há situações que por nossas capacidades humanas não somos capazes de perdoar. Quantas e quantas vezes somos magoados, perseguidos, confrontados e temos vontade de reagir de forma agressiva? Se não for pela capacidade de amar ao próximo que Deus nos dá, não conseguiremos reagir da forma correta. 3Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe; 4e, se pecar contra ti sete vezes no dia e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me, perdoa-lhe.” (Lc 17.3 e 4).

27Aparta-te do mal e faze o bem; e terás morada para sempre.” (Sl 37.27). Mais uma vez ficamos defronte uma situação em que temos uma responsabilidade, a de fazer o bem, mas que se não for pelo amor ao próximo que só podemos ter através do poder de Deus, não temos capacidade. Quando amamos ao próximo, naturalmente estamos sempre dispostos a fazer o bem a ele.

Com o amor em nossos corações, nasce também a mansidão, a humildade, o altruísmo, a capacidade de dar uma palavra amiga, enfim, o amor (caridade) ao próximo é um tesouro esplêndido que guardamos em nossos corações, advindo dele outros tesouros de grande valor. 13Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três; mas a maior destas é a caridade.” (1 Co 13.13).

3. Força

Nós, seres humanos, sendo carne, sendo vasos de barro frágeis, não somos capazes de enfrentar as pelejas da vida, aflições, angústias entre outros por nossas próprias forças. É só através do poder do Espírito Santo de Deus que temos força para enfrentar o mundo.

2O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação e o meu alto refúgio.” (Sl 18.2). O Senhor, sendo nosso rochedo e fortaleza, sabemos que nEle temos proteção e segurança; sendo nosso escudo, sabemos que ele se coloca entre nós e o mal; sendo nosso lugar forte e alto refúgio, sabemos que temos onde nos proteger, um lugar onde o inimigo não entra, onde estamos acima dos perigos desta vida.

Através do grande poder de Deus nós temos força para enfrentar as lutas da vida. Quando lutamos para passar em um vestibular ou um concurso; quando passamos por doenças; quando temos de formar uma família, sustentá-la, criar e educar filhos; quando somos confrontados pela nossa fé. Enfim, desde as coisas “mínimas” da vida, até as mais importantes, nós necessitamos da força que só Deus pode nos dar.

Deus sempre vai a nossa frente preparando o caminho, mas se fracos formos, não conseguiremos trilhá-lo. Deus nos fortalece e através dessa força somos capazes de transpassar barreiras, de lutar. O caminho preparado por Deus é perfeito, no entanto passaremos por aflições nesses trilhos da vida, e para enfrentá-las temos a força que só Deus nos dá. 40Porque me cingiste de força para a peleja, fizeste abater debaixo de mim os que se levantaram contra mim.” (2 Sm 22.40).

Grande tesouro é a força que temos dada por nosso Deus. O apóstolo Paulo diz em 2 Co 12.10: “10Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte. ”. Este versículo, anteriormente citado, mas com uma ênfase diferente, resume bem quão grande é a força que temos em nosso Senhor. Como foi falado mais acima, devemos perseverar na obra de Deus mesmo quando nos sentirmos fracos. Sermos fiéis a Ele em quaisquer circunstâncias. Entretanto, sempre sabendo que todas as vezes que formos injuriados, passarmos por necessidades, formos perseguidos ou angustiados, enfim, todas as vezes que estivermos fracos, podemos buscar a Deus e Ele nos fará fortes. Temos em nosso coração a força que Deus nos dá, eis um grande tesouro.

IV – Conclusão

Nós somos vasos de barro nas mãos de Deus. Assim sendo, Deus pode nos moldar da forma como Ele quiser. Todas as vezes que for necessário Deus nos quebrará, e nos remodelará. Por sermos vasos feitos de barro, somos frágeis, sendo que por nossas capacidades não poderíamos avançar.

Todavia, mesmo sendo vasos de barro, carregamos a Verdade, a Palavra de Deus e o Evangelho; o Amor; e a Força de Deus em nossos corações. Esses são tesouros de inestimável valor e somente por ele nós sabemos que: 9Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos” (2 Co 4. 9)

Comentários: Jimmy Bruno dos Santos Silva e Jonathan Bruno dos Santos Silva, membros da Igreja Assembléia de Deus – Ministério do Belém – em Dourados/MS.

Bibliografia de Apoio: Bíblia de Estudo Pentecostal, Bíblia de Estudo Dake e Coleção Artigos Históricos – Mensageiro da Paz.