16 de julho de 2013

O COMPORTAMENTO DOS SALVOS EM CRISTO



CONDUTA DIGNA DO EVANGELHO

Filipenses 1.27—2.1-4

Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho. E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas, para vós, de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele, tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e, agora, ouvis estar em mim.

Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. (Fp 1.27—2.1-4)

A quebra da sequência dos versículos tem por objetivo destacar a importância do assunto inserido no texto. O texto indicado para este capítulo trata, como se vê, da conduta digna que o cristão deve viver em meio aos sofrimentos infligidos no contexto da vida cristã. Esses mesmos versículos destacam a perseverança como qualidade indispensável para suportar o sofrimento. Em todo o Novo Testamento, especialmente nas cartas de Paulo, o sofrimento esteve presente na vida dos cristãos. Ele mesmo lidava com o sofrimento com uma postura firme na esperança de que um dia não haveria mais sofrimento para os que estão em Cristo.

Neste final do capítulo 1 (Fp 1.27-30), Paulo faz de Cristo o exemplo supremo da vida dedicada. Esse exemplo se torna um consolo quando sofremos por amor a Cristo. Paulo chama a atenção dos filipenses para as aflições e perseguições que ele havia passado e que eles também experimentariam. Em outra carta, o apóstolo resume seu pensamento nesse sentido quando diz: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3.12).

O apóstolo admoesta aos cristãos de Fiipos a que norteassem suas vidas pelo evangelho de Cristo, independentemente das adversidades que tivessem de enfrentar por causa do nome de Jesus. Por que aceitar sofrer pelo evangelho? A resposta simples e objetiva estava na convicção de que um dia esse sofrimento iria parar, e a presença do Espírito Santo na vida íntima de cada crente fortaleceria a esperança da glória. Na realidade, Paulo faz um convite aos cristãos para que sejam capazes de padecer pelo Senhor Jesus, porque o galardão da fidelidade estava garantido.

A Conduta de Cidadãos dos Céus

1. O significado de “portar-se dignamente” (1.27)

Ao exortar aos cristãos filipenses que se portassem dignamente, Paulo tinha em mente o estilo de vida da cidade e da sociedade de Filipos, como uma representação autêntica da vida romana. Ele entendia que a cidade que oferecia honras aos seus cidadãos e que levava uma vida politeísta poderia afetar a fé em Cristo. Ele, então, apela à consciência cristã dos membros da igreja a que tivessem cuidado em não corromper a fé recebida em Cristo. Paulo lembra nessa exortação o fato de que eles deveriam saber como viver numa sociedade comprometida com a cidadania imperial romana, sem se esquecer de que eles tinham uma cidadania celestial, cujo Rei era o Senhor Jesus Cristo. Esse fato é lembrado no texto de 3.20: “Mas a nossa cidade está nos céus”. O apóstolo apela para a conduta cristã que os filipenses deveriam ter em relação à vida da cidade política e social de Filipos.

A maior dificuldade do mundano está na palavra “conduta”, que é interpretada como um modo de cercear a liberdade de ser e de fazer o que quiser fazer. Entretanto, do ponto de vista da Bíblia, essa palavra cabe perfeitamente no estilo de vida cristã. A conduta requerida não é um cerceamento à liberdade; pelo contrário, é um modo de exercer liberdade com domínio sobre todos os ímpetos da natureza humana.

Note o que o texto diz: “somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo”. A palavra chave nesta frase é “portar-se” que melhor traduzida e de acordo com o contexto se refere ao comportamento de um cidadão. Portanto, como “cidadãos dos céus” os cristãos devem conduzir-se de um modo digno do evangelho. Esse modo digno de conduzir-se implica agir com firmeza e equilíbrio na vida cristã cotidiana.

A palavra “digno” está no texto grego do Novo Testamento como aksios (ou axios) e é usada por Paulo em outras cartas aos efésios (Ef 4.1), aos colossenses (Cl 1.10) e aos tessalonicenses (1 Ts 2.12). A palavra axios sugere, na sua etimologia, a figura de uma balança de dois pratos em que o fiel da balança determina a medida exata daquilo que está no prato. O valor ou dignidade é achado quando o fiel da balança fica na posição vertical central. Os pratos da balança que ficam em posição horizontal precisam ter o mesmo peso para equilibrar o fiel da balança. O cristão precisa ter uma vida equilibrada com o fiel da balança que é a vontade soberana de Deus para a sua vida. Em síntese, os privilégios de que gozamos na vida cristã devem condizer com nossa conduta de cidadãos dos céus.

2. O comportamento de cidadãos dos céus (1.27)

O texto diz literalmente “vivei” como “cidadãos dos céus” do mesmo modo como cada cidadão romano tinha que viver conforme as leis do Império Romano.

Muito mais, como cidadãos romanos, os cristãos deveriam viver de modo digno do evangelho, sem ofender a lei terrena, mas nunca negando a salvação recebida de Cristo Jesus. Por isso, um cidadão consciente sabia que deveria sempre respeitar as leis do império para ter privilégios de cidadãos (Rm 13.1-7). Do mesmo modo, o cristão devia comportar-se como cidadão dos céus, porque sua nova pátria é o Reino de Deus. Mais à frente, Paulo identifica bem esse novo estado de vida do cristão quando diz: “Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). O cristão deve, portanto, comportar-se de forma digna dessa cidadania. Todo aquele que for nascido de novo, é nova criatura e tem seu nome escrito no Livro da Vida do Cordeiro, por isso faz parte da família celestial (2 Co 5.17; Fp 4.3).

Paulo tinha uma visão ética da vida cristã muito definida. Por isso, é frequente nas suas cartas o apelo ao padrão de conduta ética para as igrejas sob a sua orientação pastoral. Várias vezes nos deparamos com esse apelo paulino nas suas cartas. Aos Tessalonicenses, ele escreveu: “Assim como bem sabeis de que modo vos exortávamos e consolávamos, a cada um de vós, como o pai a seus filhos, para que vos conduzísseis dignamente para com Deus, que vos chama para o seu reino e glória” (1 Ts 2.12). Ao recomendar uma cristã chamada Febe, membro da igreja em Cencreia, Paulo escreveu aos romanos:
“Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencreia, para que a recebais no Senhor, como convém aos santos” (Rm 16.1,2). Percebe-se que é o evangelho que estabelece a norma ética do comportamento cristão.

Uma Conduta Capaz de Fazer Frente à Oposição no Seio da Igreja (1.28)

A igreja enfrentava uma oposição de intimidação (1.28)

A versão bíblica Almeida Revista e Corrigida (ARC) apresenta o texto assim: “Em nada vos espanteis dos que resistem” (v. 28). A versão da Bíblia Viva esclarece ainda mais o texto com estas palavras:
“sem temor algum, não importa o que os seus inimigos possam fazer”.

A palavra “resistir” tem o mesmo sentido que “oposição”, e isso estava ganhando espaço no seio da Igreja como uma forma de intimidação aos fiéis.

A expressão “em nada vos espanteis” contém um verbo expressivo que sugere o tropel de cavalos assustados. Paulo mostra a distinção na reação de coragem e firmeza que os filipenses deveriam ter em relação às perseguições. Ele garante que o sofrer por Cristo é garantia de salvação e vitória sobre os inimigos. A invasão de falsos mestres e apóstolos no seio da igreja produzia medo da parte dos cristãos que 
Paulo havia doutrinado.

A resistência ao ensino do evangelho vinha de fora por intermédio de pregadores que negavam a divindade de Cristo e os valores ensinados pelos apóstolos. Essa resistência de alguns tinha por objetivo ameaçar e intimidar os cristãos sinceros. Paulo estava preso. Então eles se aproveitaram da ausência do apóstolo e dos outros obreiros auxiliares de Paulo para exercerem influência nos pensamentos e no afastamento da fé cristã. 

Mas Paulo apela ao sentimento daqueles cristãos estimulando-os a permanecer firmes sem se deixarem enganar e desanimar. Na verdade, Paulo os estimula a que mantenham a fé genuína e enfrentem de cabeça erguida aos que resistem à mensagem do evangelho. A oposição identificada no seio da igreja vinha de fora da comunidade que abriu caminho para dentro da igreja e passou a influenciar alguns cristãos. Esses opositores eram formados por alguns eruditos perniciosos e itinerantes que, para ganhar espaço no seio da igreja, criticavam o apóstolo Paulo. Porém, o apóstolo eleva a importância do evangelho de Cristo como capaz de produzir em seus corações a vitória da parte do Senhor.

2. O paradoxo de padecer por Cristo Jesus (1.29)

“Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por Ele” (Fp 1.29). Temos aqui uma magnífica declaração. A voz passiva da frase “vos foi com concedida” atribui todas as coisas que estavam acontecendo à soberana vontade de Deus. Foi Deus quem concedeu a experiência de padecer por Cristo. Os filipenses deveriam confiar no propósito divino e não se deixarem abater pelas experiências amargas das perseguições e privações infligidas contra eles. Na verdade, Paulo transparece em seu pensamento que aquelas provações vêm a eles pela graça de Deus e o resultado final será a vitória em Cristo. A expressão “padecer por Cristo” indicava que esse padecimento implicava comparticipar das aflições de Cristo, numa identificação pessoal com Ele, que antes padeceu por nós. O apóstolo Pedro em sua epístola escreveu: “Alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis” (1 Pe 4.13).

Indiscutivelmente, o versículo 29 une o privilégio de crer, como um ato de coragem, e a graça de padecer por Cristo. Isto é, de fato, um paradoxo, cujo sentido pode significar “aquilo que parece contraditório ou que parece contrário ao comum”. Pode ser “aquilo que tem aparente falta de nexo ou de lógica”. Nos tempos atuais, o pensamento neopentecostal não admite a ideia de sofrer, padecer, ficar doente. A falsa teoria da chamada teologia da prosperidade não admite a ideia de sofrimento. Porém, a Bíblia contradiz essa teoria e ainda desafia o crente a aceitar o sofrimento como uma oportunidade de glorificar a Cristo. E privilégio do cristão sofrer por Cristo por causa da esperança da glória. Essa capacidade de aceitar o sofrimento nesta vida terrena e permanecer fiel ao Senhor Jesus se choca frontalmente com sistema de pensamento mundano.

Nenhum ser humano aceita o sofrimento como coisa normal, muito menos transformá-lo numa esperança. Paulo via seus sofrimentos como um serviço que ele fazia para Cristo. Ele tinha consciência desse sentimento porque ouviu a palavra de Ananias de Damasco, que foi à casa onde ele aguardava uma orientação do Senhor. A palavra de Deus para Ananias acerca de Paulo foi esta: “Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome” (At 9.16). Essa predição cumpriu-se literalmente na experiência apostólica de Paulo. Todavia, ele aceitou seus sofrimentos como participação nos sofrimentos de Cristo (Fp 3.10).

Quando temos uma visão genuína do nosso futuro, não teremos problemas com os sofrimentos presentes na vida terrena. Lucas contou no livro de Atos que os apóstolos foram açoitados e lançados na prisão (At 5.18). Esses apóstolos sentiam-se privilegiados em sofrer por Jesus Cristo. Diz Lucas: “E, chamando os apóstolos e tendo-os açoitado, mandaram que não falassem no nome de Jesus e os deixaram ir. Retiraram-se, pois, da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus” (At 5.40,41). Tudo o que Paulo desejava com os fihipenses é que eles enfrentassem seus sofrimentos e afrontas com a alegria de sofrerem pelo nome de Jesus.

3. O combate do evangelho é travado contra inimigos espirituais (1.30)

Como entender essa escritura? O texto diz: “tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e, agora, ouvis estar em mim”. A palavra combate ganha um sentido especial nessa escritura porque se tratava de algo no campo espiritual. Os filipenses sabiam perfeitamente o tipo de combate que Paulo teve quando do início da igreja em Filipos (At 16.2; 1 Ts 2.2). Os filipenses também souberam do combate que Paulo teve quando partiu da Macedônia (Fp 4.15). Embora seu combate seja feroz e Paulo enfrente constantes ameaças de morte, o apóstolo não temia entrar nesse combate porque entendia que seu ministério apostólico dependia totalmente de Deus. Nesse sentido, ele apela ao coração dos filipenses no sentido de encorajá-los a que fiquem firmes na fé e tenham a mesma confiança que ele mesmo tinha acerca do cuidado de Deus. Ora, os filipenses estavam engajados no mesmo combate espiritual e, por isso, não deveriam desanimar. No exercício do ministério cristão, estamos num campo de batalha com um combate feroz contra as potestades de Satanás (Ef 6.10-12).

O encorajamento dado pelo apóstolo aos irmãos de Filipos tinha sua base na própria experiência de alguém que pessoalmente havia sofrido e ainda estava sofrendo por amor de Cristo. Que combate era esse? Era um combate promovido por inimigos espirituais para abatê-lo, destruí-lo e neutralizá-lo. Esse combate atingia sua vida física, moral e espiritual.

Em outra carta aos Coríntios, Paulo menciona que três vezes havia sido “açoitado com varas” (2 Co 11.25) e uma vez havia acontecido em Filipos, quando havia chegado à cidade para pregar o evangelho (At 16.22,23) — e dessa última experiência os irmãos filipenses eram sabedores. Ele sabia que os irmãos de Filipos estavam sofrendo algum tipo de constrangimento e, por isso, podia dizer que o mesmo sofrimento ele estava vivendo. Certamente, era um consolo para os filipenses saber que Paulo estava sofrendo, mas não havia desanimado nem desistido da sua missão. Estava viva na mente do apóstolo a mensakem divina, quando se encontrou com Cristo: “E eu lhe mostrarei o quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (At 9.16). Essa é a força do evangelho capaz de reagir ao sofrimento para fazer valer o nome do Senhor e a vitória final.

Uma Conduta que Promova a Unidade da Igreja (2.1-4)

A ausência fisica de Paulo na vida da igreja acabou por provocar várias situações quase que incontroláveis de desunião. Para que a igreja sobrevivesse, a unidade precisava ser preservada, O apóstolo tivera notícias que o preocuparam e, por isso, ele se interessa em fortificar a igreja nos seus fundamentos. Os inimigos externos (1.28), porque vieram de fora, ameaçavam a unidade doutrinária da igreja com influências judaizantes e filosóficas de cristãos que não conseguiram se desvencilhar do passado. Essas pessoas trouxeram discursos que minavam a fé cristã ensinada por Paulo. O apóstolo, então, se volta para a igreja e a trata como uma família que precisava manter os elos familiares. Ele convida os cristãos filipenses a que examinem todas as coisas comparando-as com aquilo que ele havia ensinado do autêntico evangelho de Cristo. Nos tempos atuais, a igreja de Cristo tem sido invadida por falsos pregadores e ensinadores. São obreiros falsos que trazem para o seio da igreja doutrinas falsas que contrariam a sã doutrina cristã.

O apóstolo Paulo, em meio aos seus pensamentos colocados na Carta, deixa de lado o assunto sobre os sofrimentos exteriores — que envolviam perseguições, privações materiais — e focaliza outro tipo de sofrimento que estava afetando a vida da igreja. Alguns acontecimentos internos na vida eclesiástica que estavam prejudicando a unidade da igreja eram do conhecimento do apóstolo, e ele não podia estar presente para dirimir dúvidas e desfazer equívocos.

1. O ardente desejo de Paulo pela unidade da igreja (2.1-3)

O último versículo do capítulo 1 fala de um combate, e Paulo procura fortalecer a igreja contra inimigos externos que, de algum modo, estavam afetando a unidade da igreja. Como uma igreja poderá conseguir unidade quando se depara com pessoas com atitudes contenciosas, egoístas e cheias de vã-glória, divergindo e contestando as doutrinas ensinadas por Paulo?

Eram pessoas pretensiosas, que divergiam do pensamento central do cristianismo, que é o Senhor Jesus Cristo, insuflando mistura de doutrina cristã com filosofias? Paulo refuta esses falsos conceitos que visavam promover a discórdia entre os irmãos e dispersá-los da convivência e da comunhão fraternal. O apóstolo apela ao bom senso dos cristãos de Filipos e pede que tenham um mesmo sentimento e um mesmo parecer (2.2). A unidade será preservada se todos tiverem o mesmo amor que produz harmonia, unidade e um mesmo sentimento.

2. Mantendo a presença interior do Espírito (2.1-4)

O apelo à manutenção da comunhão do Espírito reforçava o fato de que eles haviam recebido o Espírito, que vivia dentro deles, e, por isso, deveriam tomar uma atitude de manter a unidade e cultivar a união de pensamento em relação ao que aprenderam do evangelho. A despeito de os seres humanos serem de culturas e temperamentos diferentes, podiam partilhar o mesmo sentimento que também houve em Cristo Jesus. Paulo escreveu: “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5). A presença interior do Espírito implica a lembrança de que Jesus é o Senhor sobre todas as coisas. 

Sua presença dentro do crente é a garantia de que a obra de Cristo foi perfeita e completa. Sua presença em nós promove a paz e a união no seio da igreja. A lealdade a Cristo torna-se o fruto dessa presença que nos faz obedecer à sua Palavra, o novo mandamento deixado por Ele (Jo 13.34,35).

“.. se há algum conforto em Cristo” (2.1). O termo grego paraklesis no Novo Testamento é traduzido por alguns vocábulos como “conforto”, “consolo” ou “exortação”. A palavra “conforto”, como está na ARC, aparece também na ARA como “exortação”, e ambas dão a ideia de encorajamento ou apoio nas lutas da vida (At 9.31). Várias ideias estão associadas à palavra grega no Novo Testamento. Esse termo grego aparece no Novo Testamento como um dom espiritual (Rm 12.8) e, também, como um modo de instruir e estimular a fé (1 Tm 4.13; Hb 12.5). Em outros textos, aparece como consolo ou conforto (Lc 2.25; At 15.31; Rm 15.4,5; 2 Co 1.3,5-7). Paulo usa a palavra paraklesis com o sentido de lembrar algo recebido. Paulo pede e admoesta os filipenses a que vivam em união e trabalharem juntos em toda a obra do evangelho e em perfeita harmonia. O conforto em Cristo é produzido pelo Espírito Santo na vida da igreja. Por isso, não poderia haver rancores e mágoas nos corações.

“...se alguma consolação de amor” (2.1). A base do consolo em Cristo é o amor. Sem amor é impossível absorver o consolo espiritual, porque o amor de Cristo constrange e move a nossa vida, como o próprio apóstolo estava convencido disso ao declarar aos coríntios: “Porque o amor de Cristo nos constrange” (2 Co 5.14). Para a mente de Paulo, o amor que Jesus Cristo nutre pela sua Igreja deve impelir a que todos vivam dignamente. O amor de Cristo nos constrange, no sentido de que as divisões e facções são desfeitas para que haja união de sentimentos.

“...se alguma comunhão no Espírito” (2.1). O princípio que unifica a igreja é a comunhão do Espírito no corpo de Cristo, a sua Igreja. Por outro lado, estava indicando que a presença do Espírito na vida interior de cada crente é um fato consumado na experiência cristã. Por isso, com a ajuda do Espírito, podemos superar todas aquelas atitudes que roubam a humildade e o relacionamento sadio com todos os irmãos. A comunhão no Espírito anula o individualismo e cria uma nova vida em comum no seio da igreja. A mutualidade e a cooperação entre todos são elementos vitais que a comunhão no Espírito produz.

“...se alguns entranháveis afetos e compaixões” (2.1). No texto da ARA está assim: “se há entranhados afetos e misericórdias”, indicando que se tratava de um forte e caloroso amor, especialmente aquele amor demonstrado pelos filipenses ao apóstolo. Havia uma relação de afeto da parte da igreja de Filipos por Paulo e pela sua situação como preso em Roma, por isso, preocupavam-se com ele em sua prisão. E Paulo, reciprocamente, demonstra o mesmo amor e afeto pelos filienses e todas as igrejas da Macedônia.

A palavra “afetos” aparece no grego como splanchnon, que no sentido figurado significa “piedade ou simpatia, solidariedade”. Esses termos definem as palavras: afeto, entranhas, graça, misericórdia. “Entranhas” sugere a sede da vida emocional. No capítulo 1.8, Paulo fala de seu amor pelos filipenses: “Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo”. Ao referir-se ao amor de Cristo, Paulo fazia uma conexão desse amor para com Ele e para com os filipenses. Esse amor é algo palpável e sentido. Não é nada platônico, intocável, teórico. E entranhável pelo Espírito Santo.

A palavra “compaixões” aparece em outras versões como “misericórdias”, cujo sentido se trata daquele sentimento que descreve a emoção e a sensibilidade para com os necessitados.
A compaixão deveria guardar aos cristãos da desunião. William Barclay, em seu Comentario ai Nuevo Testamento, declarou: “A desunião rompe a estrutura essencial da vida”. Ele também disse que “os homens não foram criados para ser como lobos rosnando uns com os outros, sim para viver em harmonia”.

“.. completai o meu gozo” (2.2) não tinha um caráter egoísta da parte do apóstolo, mas era um estímulo a que experimentassem o mesmo gozo que produzia um sentimento de segurança e esperança de que esse gozo resultaria no gozo da vida eterna. Paulo se dirige aos filipenses dizendo-lhes da sua alegria por eles, mas estimula e pede a eles que completem seu gozo (alegria, regozijo) demonstrando, em contrapartida, “o mesmo sentimento” ou “o mesmo amor”. Que amor é este? Não se trata do mero sentimento que sentimos pelas pessoas, mas era algo especial da parte de Deus. A bíblia declara que Deus derramou seu amor em nossos corações através do Espírito Santo (Rm 5.5).

Ora, por esse modo, poderos amar as pessoas independentemente de elas nos amarem ou não. Quando amamos com o amor de Cristo aprendemos a ver os valores das pessoas e não apenas seus defeitos.

“Nada façais por contenda ou por vanglória” (2.3). A exortação paulina conscientizava ao cristão filipense, e a tantos quantos são membros do corpo de Cristo, que o membro nada fará no seio da igreja de forma isolada, “por contenda ou por vanglória”, isto é, por ambição egoísta ou por presunção. Essas duas posturas, egoísmo e presunção, são antagônicas diretamente à comunhão com Cristo. Certa feita Jesus, falando aos discípulos e exemplificando fatos a eles, disse-lhes: “Mas entre vós não será assim” (Mc 10.43). 

Tudo o que possa ser prejudicial ao convívio fraternal deve ser extirpado na vida cristã cotidiana dos crentes em Cristo.
Naturalmente, as pessoas perniciosas que estavam no seio da igreja influenciando os irmãos fiéis a se debaterem por causa de cargos ou funções tinham que ser alijados da comunhão. O espírito de Diótrefes, que lutava pela primazia no seio da igreja, sem respeitar os princípios de autoridade que devem nortear a vida de uma igreja, tem que ser reprimido (3 Jo 9). O conselho de Paulo era para que os irmãos evitassem os que contendiam por primazia, por questões de orgulho, que é algo que surge da mesma raiz de vanglória. O que caracteriza o cristão é a humildade, que é uma qualidade que se opõe ao orgulho. A Bíblia diz que Deus dá graça aos humildes (Pv 3.34; Tg 4.6; 1 Pe 5.5).

“Não atente cada um para o que é propriamente seu” (2.4). Nessa exortação, o apóstolo Paulo procura inculcar na mente dos cristãos que o espírito egoísta contradiz o espírito cristão, cujo padrão de vida baseia-se no amor ao próximo. Antes de querer pensar apenas nas minhas coisas, nos meus interesses, devo pensar em ser útil às pessoas nos seus interesses. A convivência com os irmãos da mesma fé requer de cada cristão uma boa dose de humildade e desprendimento. O meu crescimento não pode prejudicar o crescimento dos demais. Os meus dons não são para o usufruto meu, mas devem ser úteis à comunidade. Os que buscam primazia no seio da igreja com atitudes egoístas se esquecem do princípio deixado por Jesus:

“E qualquer que, dentre vós, quiser ser o primeiro será servo de todos” (Mc 10.44).

Na ética cristã, aprendemos um princípio básico em relação às pessoas que é o de, primeiro, pensar nos outros no sentido de ajudar. A expressão “levai as cargas uns dos outros” faz parte da filosofia de relações humanas ensinada por Jesus. O exemplo de Cristo é sempre o argumento forte do apóstolo nas relações éticas (Rm 14.1-3). O Espírito ajuda o crente a evitar todo partidarismo, egoísmo e vanglória, produzindo no seu coração um sentimento de respeito e amor pelos demais irmãos da mesma fé (v. 4).


Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus


Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS


Filipenses – A humildade de  Cristo como exemplo para a Igreja = Elienai Cabral


9 de julho de 2013

ESPERANÇA EM MEIO À ADVERSIDADE

ESPERANÇA EM MEIO À ADVERSIDADE

TEXTO AUREO =  “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Filp                 1 .21).

VERDADE PRÁTICA = Nenhuma adversidade poderá reter, a graça e à poder do Evangelho.

LEITURA BIBLICA = FILIPENSES 1: 12-21

INTRODUÇÃO

Todas as ocasiões em que Deus derramou do Seu Espírito, a igreja experimentou uma profunda paixão por Deus e pelas almas perdidas; o avivamento sempre deságua em evangelização; sempre se transforma em uma cachoeira demissões transculturais. No avivamento, a igreja entende que a tarefa da evangelização é uma tarefa sua e não de anjos.Quando o Espírito Santo é derramado, a visão de Deus passa a ser a visão da igreja e o mundo passa a ser a sua paróquia; no avivamento, os que são alcançados e trazidos aos celeiros, logo são enviados e levados aos campos.

O VALOR DA ADVERSIDADE, 1.12-18

Paulo expressou seu louvor a Deus pela participação dos crentes filipenses no progresso do evangelho, e fez uma petição por eles. Agora ele procura dissolver as inquietações que sentiam relativas a ele, obviamente em resposta às investigações que fizeram. E quero, irmãos, que saibais (12). Eles desejam saber as perspectivas do apóstolo (12), a possibilidade de visitá-los (25), o estado de saúde de Epafrodito (2.26) e quando ele pode lhes enviar ajuda (4.10ss.). Eles sofreram com ele por causa do evangelho numa participação comum na adversidade (1.7,28,30), e estão ansiosos em ter informações de suas condições pessoais e da situação do evangelho em Roma. Ele os assegura que Deus está tirando o bem do mal, está glorificando a si mesmo e está revertendo os acontecimentos a favor dos servos que o amam.

1. O Progresso do Evangelho (1.12,13)

As coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho (12). O compromisso de Paulo é tão completo, que ele não consegue dizer como ele está sem dizer como está o evangelho. Lucas nos conta algo da situação que Paulo vivia. O apóstolo era constantemente vigiado, mas tinha permissão para morar em casa alugada, receber visitas e lhes anunciar as boas novas do Reino de Deus (At 28.16,30,31). Seu aprisionamento não restringiu o evangelho; pelo contrário, maior (mailon) se tornou a ocasião para o seu avanço.

O uso do termo grego mailon dá a entender que os crentes filipenses esperavam notícias ruins. Na opinião de certos expositores, o termo evidencia mudança nas circunstâncias de Paulo, particularmente quando analisado à luz da referência à sua “defesa” (apologia, ).
A sugestão é que Paulo tivesse sido transferido de sua residência provisória (At 28.30) para a prisão, onde os indivíduos sob julgamento ficavam presos. Por essa razão, os filipenses esperariam que esta custódia mais rígida significasse mais sofrimentos.

Mas o apóstolo acaba com a suposição. A palavra grega prokopen (proveito; “progresso”, BJ, NTLH, NVI, RA; “avanço”, AEC), que também ocorre no versículo 25, era usada para descrever sapadores que abriam fossos, trincheiras e galerias subterrâneas em preparação à chegada de um exército ou outro grupo bélico. E derivada do verbo prokoptein, que significa “cortar árvores e vegetação rasteira”. Em vez de impedir o “progresso” do evangelho, a prisão de Paulo serviu para tirar obstáculos e aumentar a propagação das boas novas (cf. 1 Tm 4.15). Este é o desejo supremo de Paulo, pouco importando o que lhe aconteça pessoalmente.

De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana (13). Melhor tradução: “As minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas” (AEC, RA). Em Cristo quer dizer “por causa de Cristo” (NVI). O termo grego praitorio é interpretado de quatro modos importantes: a) A guarda pretoriana, significando os soldados; b) o palácio do imperador; c) os quartéis da guarda pretoriana; d) as autoridades judiciais ou as pessoas que ouvem os casos dos prisioneiros. A última opção, caso aceita, se ajustaria com a referência à “defesa” no versículo 7, sendo possibilidade aceitável.  Lightfoot demonstrou imparcial e categoricamente que praitorio não pode ser aplicado ao palácio, nem aos quartéis os soldados ou ao acampamento pretoriano. Refere-se a um grupo de homens, uma guarda ou companhia de soldados. Embora não excluamos a interpretação que diz se tratar de autoridades judiciais, a idéia de uma companhia de soldados afigura-se melhor. Augusto tinha dez mil desses homens. Esta interpretação se harmoniza com a declaração lucana de Paulo ter morado durante certo tempo em casa alugada.

Em Efésios 6.20, carta escrita na mesma prisão pouco antes de Filipenses, Paulo fala de ser “embaixador em cadeias” (halusei; cf. At 28.20). A alusão é à corrente que prendia guarda e prisioneiro. A cada mudança de guarda Paulo tinha nova oportunidade de testemunhar de Cristo. Na prisão de dois anos grande número de guardas teria ouvido o evangelho de Paulo. Ele havia testemunhado na prisão filipense (At 16.25-32); e agora ainda testemunhava (4.22). Além deste testemunho pessoal, é possível que Paulo já tivesse defendido oficialmente a si mesmo e ao evangelho (7).

“A palavra de Deus não está presa” (2 Tm 2.9), de forma que ele pode dizer que o evangelho é apresentado por toda a guarda pretoriana e por todos os demais lugares (13). A tradução todos os demais lugares é obviamente inexata. Leitura melhor é: “todos os demais” (AEC, NVI, RA; cf. CH, NTLH).

Esta frase confirma a dedução de que Paulo não se refere a um palácio, mas a um grupo de pessoas; provavelmente aos que o visitavam e a outros a quem subseqüentemente contaria a Palavra do Senhor. Sua prisão proporcionou nova oportunidade para testemunhar de Cristo.

2. O Incentivo dos Romanos (1.14)

E muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor (14). Muitos (pleionas) dos irmãos indica que alguns não se abalaram com o fato de Paulo estar preso. A expressão no Senhor é mais bem compreendida se não for considerada junto com irmãos, mas com tomando ânimo. Esta tradução é mais precisa: “Os irmãos, em sua maioria, motivados no Senhor pela minha prisão” (NVI; cf. BAB, BJ, CH, NTLH, RA). Muitos dos irmãos romanos ficaram “mais [extraordinariamente] ousados para” (BAB) falar a palavra.

Os melhores manuscritos têm “palavra de Deus” (CII, RA) ou “Palavra do Senhor”. O verbo grego latem (falar) denota o fato de falar e não o conteúdo do discurso.6 Ou seja, a tendência ao silêncio foi de fato vencida. Não que eles não estivessem falando, mas que ganharam nova e maior ousadia para proclamar a Palavra de Deus sem medo. A vitória sobre o medo não se baseava na probabilidade da libertação de Paulo, pois esta de maneira nenhuma era certa. Os fatores determinantes dessa vitória foram o espírito triunfante de Paulo e seu sucesso evidente em testemunhar. Foi sua coragem que deu novo alento aos crentes romanos tímidos que, possivelmente por perseguição, tinham desanimado.

3. A Proclamação de Cristo (1.15-18)

Entre os que ficaram mais corajosos em declarar a Palavra do Senhor, há alguns que pregam a Cristo por inveja e porfia (15). Eles pregam por espírito de erin, porfia, “rivalidade” (NVI), “divisão” (OH) ou “partidarismo”. Seu objetivo, diferente do apóstolo, não é exaltar primariamente a Cristo, mas promover interesses próprios. Paulo diz que eles anunciam a Cristo por contenção (eritheias, 17); melhor, “por facção”, “por discórdia” (RA). Originalmente, a palavra significava trabalhar por pagamento. Com a passagem do tempo, veio a descrever a pessoa de acentuadas ambições profissionais, alguém que se exalta ou se promove para cargo público. Estes são auto promotores e interesseiros.7 Não puramente (17) é tradução literal (ou “não castamente”). Eles não falam toda a verdade, mas só a que serve para seus propósitos. Seus motivos são misturados, corrompidos com egoísmo (cf. Tg 3.14). Na verdade, estes não estão pregando no sentido exato do termo. E por isso que Paulo usa o verbo grego katangellousin (“anunciar”), palavra diferente da normalmente usada para referir-se à pregação. Eles estão tornando conhecido os fatos do evangelho, talvez a vida, morte e ressurreição de Jesus, mas o fazem por ciúme ou outros motivos indignos. São ortodoxos, mas não têm coração.

Julgando acrescentar aflição às minhas prisões (17). Eles acham que estão, literalmente, “levantando atrito” para Paulo. Esforçam-se em tornar a prisão do apóstolo uma experiência irritante, possivelmente suscitando inimigos contra ele, dessa forma pondo sua vida em maior perigo, ou no mínimo aborrecendo-o em espírito. Talvez, estes indivíduos sejam os insinceros mencionados em 2.21, que “buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo” (NVI; cf. BJ; cf. tb. Mt 23.15). Não são judaizantes, pois em outras cartas Paulo declara que eles arruínam o evangelho; não é o que ele diz aqui.

E possível que Romanos 14 seja um texto descritivo desses indivíduos.  Certos expositores sugerem que são os antigos mestres da igreja, que estão com inveja da ampla popularidade de Paulo.9 Se isto for verdade, comprova que é característica da natureza humana sentir ciúme de colegas de profissão: médicos têm ciúmes de médicos, ministros de ministros, etc. Em todo caso, as ações dessas pessoas aqui se originam de algo pessoal contra Paulo. presumem que a pregação que fazem tornará a prisão de Paulo insuportável.

Mas há outros que pregam por espírito de amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho (16). Estes, a despeito de equívocos pessoais, pregam (15, kerussousin, “proclamam”, BJ, RA) pelos mais sublimes motivos do amor (agapes), e não por ambição partidária e facciosa (cf. 1 Co 13). O objetivo dessas pessoas é o mesmo de Paulo, que foi posto (16, keimai, “incumbido”, RA), como soldado colocado de sentinela pelo capitão, para defesa (apologian) do evangelho. Aqui, o termo evangelho significa todos os seus testemunhos e a propagação de Cristo. Pelo que deduzimos, não se refere primariamente à defesa de Paulo em seu julgamento pessoal; seja como for, estas — a defesa pessoal e a defesa do evangelho — estão igualadas na mente do apóstolo.

Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento, ou em verdade (18). Contanto que (plen hoti) também pode ser traduzido por “uma vez que” (RA). Esta é, na verdade, a única maneira que Paulo encara a questão (cf. 1 Co 1.17). Esses que pregam por fingimento (prophasei, lit., “pretexto”, AEC, BAB, RA) são os que falam não puramente (17). O propósito em que pregam, embora não o conteúdo da mensagem, é diferente do de Paulo. Não é a mensagem que anunciam, mas o espírito em que anunciam que é falho. Paulo, como no versículo 17, usa o verbo kataggelletai , ou seja, pelo menos Cristo é “anunciado”, se não genuinamente “proclamado”. Pelo visto, Paulo vence todo o aborrecimento pessoal acerca da situação, e expressa em linguagem um tanto quanto abrupta um ato decisivo da vontade: Nisto me regozijo e me regozijarei ainda (18).

Ele não vai permitir que querelas particulares esfriem o seu amor pelo evangelho e seu progresso. A paixão que monopoliza o todo de sua vida é o “progresso do evangelho” (ver comentários no v. 11).

Por conseguinte, ele enfatiza o bem que está sendo feito — Cristo está sendo anunciado — e não os motivos ruins dos partidários (4.8). A atenção aos princípios básicos o poupa da amargura de alma. A verdade do evangelho capturou o seu amor; por essa razão ele suportará qualquer golpe que vier sobre ele, em vez de permitir que sirva de impedimento ao evangelho.

Nos versículos 12 a 20, Alexander Maclaren descobriu o tema “O Triunfo do Prisioneiro”: 1) O propósito monopolizador que submete todas as circunstâncias a seu serviço, 12; 2) O contágio do entusiasmo, 13,14; 3) A ampla tolerância do entusiasmo, 15-19; 4) O confronto calmo da vida e da morte, pois ambos engrandecem a Cristo, 20,21.

O TRIUNFO SOBRE A ADVERSIDADE, 1.19-26

1. A Base do Triunfo (1.19).

Porque sei que disto me resultará salvação (19), ou melhor, “minha libertação” (CII, NVI; cf. NTLH, RA). Parece ser citação de Jó 13.16 na Septuaginta.

Paulo está, ao que parece, se comparando com Jó. O texto de Filipenses 2.12-15 é muito parecido com as determinações finais de Moisés aos israelitas (cf. Dt 3lss.), semelhança que também indica comparação com Moisés. Se tal especulação for justificável, então Paulo está se fortalecendo no Senhor (cf. 1 Sm 30.6), analisando a sorte semelhante dos santos de quem ele leu nas Escrituras veterotestamentárias. Com isso, ele identifica a utilidade da adversidade.

A palavra disto (touto) refere-se ao anúncio de Cristo, do qual Paulo acabara de falar no versículo 18, ou ao conjunto total de suas circunstâncias? Provavelmente ambas as opções estão corretas. Isto resultará (lit.; ou “redundará”, BJ, RA) em sua salvação, O termo grego soterian (salvação) significa mais que a “libertação” da prisão ou a morte, pois para ele pessoalmente pouco lhe importava viver ou morrer (20). Os profetas e salmistas do Antigo Testamento usavam soteria para referir-se à vitória do vencedor de uma competição.

Paulo evidentemente se imagina em batalha, lutando não “contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades” (Ef 6.12), contra os quais a peleja final será a vitória (cf. 1.27-30). Além disso, sua prisão lhe aperfeiçoará o caráter para a glória de Cristo. Ele tem certeza de “que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Rm 8.28), e que seus esforços nesta situação serão suas testemunhas no dia do julgamento.

Pela vossa oração quer dizer, literalmente, “pela vossa súplica” (AEC, BAB, RA; ver comentários no v. 4). A participação que Paulo e os crentes filipenses têm em comum o deixa inteiramente ciente da necessidade das orações dos seus companheiros cristãos.
E pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo significa, literalmente, “provisão abundante” (epichoregias; cf. RA; cf. tb. “que vos dá”, Gl 3.5). A palavra é derivada de chorus, que descreve as pessoas usadas como plano de fundo nas tragédias gregas. O estado escolhia uma pessoa que supria as despesas do chorus, custeando as despesas de treinamento e sustento. Apalavra também era usada para descrever a beneficência de cidadãos ricos que, dando um banquete, forneciam comida e entretenimento para a noite.

Assim, as experiências de Paulo resultarão em sua salvação pelos “recursos do Espírito” (CII), que “fornecerá tudo que for necessário”. O Espírito não só suprirá inicialmente a graça, mas continuará distribuindo graça suficiente à medida que surgirem as necessidades. A expressão Espírito de Jesus ocorre somente aqui no Novo Testamento. Expressões semelhantes deixam claro que a alusão é ao Espírito Santo (At 5.9; 16.7; Rm 8.9; 1 Co 12.4; 2 Co 3.17; Gl 4.6). Pouca diferença faz se o Espírito é a provisão ou se ele traz a provisão. Lightfoot está provavelmente certo quando diz: “O ‘Espírito de Jesus’ é o doador e o dom”.

O que está claro é que a base do triunfo é pela oração dos crentes filipenses e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo. Ambos são necessários. No original, só há uma preposição (dia, “por”) unindo a oração e o socorro. A medida que a oração sobe, o socorro (“provisão”, RA) do Espírito desce. As orações dos crentes filipenses e a graça de Deus são como “dois baldes em um poço; enquanto um sobe, o outro desce”.

2. A Esperança do Triunfo (1.20-24)

Segundo a minha intensa expectação e esperança 20. O termo grego apokaradokian (expectação) indica o afastamento total de tudo para fixar-se no objeto do seu desejo. E, literalmente, “estender a cabeça” para ver algo ao longe; obviamente, no caso de Paulo era o Dia de Cristo. De que em nada serei confundido (20) é mais bem traduzido por “de que em nada me envergonho” (ASV). Paulo não se envergonhava do evangelho antes de ir para Roma (Rm 1.14-16), e é sua firme esperança de que agora não lhe faltará confiança (“coragem”, AEC, CII, NTLH; “ousadia”, BJ, RA; “determinação”, NVI); literalmente, “franqueza no falar” (cf. At 14.13). Ele deseja que Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte (20). Cristo é o sujeito desta oração, que foi colocada na voz passiva. Meyer sugere que o passivo foi usado, porque o apóstolo percebe que ele é o órgão da operação de Deus. Portanto, Paulo não está dizendo: “Eu engrandecerei a Cristo”, mas: Cristo será... engrandecido. O seu corpo será o “teatro no qual a glória de Cristo é representada” (cf. Rm 12.1; 6.13).

O viver é Cristo (21) é tradução literal, pois viver é o sujeito da frase. Lightfoot traduz assim: “Para mim a vida é Cristo”. Outra opção tradutória é: “Vivendo, eu viverei Cristo”.” As palavras para mim não querem dizer “em minha opinião”.

O sentido é mais enfático, sendo equivalente a: “O compromisso de minha vida é com Cristo”. Cristo é o objetivo da vida natural de Paulo. Ele é o começo e o fim. Levando em conta a referência ao corpo (20), fica claro que Paulo está falando da totalidade de sua vida fisica e prática de serviço (cf. Rm 6.16). O que torna esta vida significativa e frutífera é Cristo.

Semelhante vida não é possibilidade humana. E obra divina. Por conseguinte, a referência pressupõe a vida profunda e interior de Deus na alma. Paulo declara: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20).
Paulo se rendeu completamente a Cristo, que vive nele e por ele (cf. 2 Co 4.10,16; 5.15,17; Cl 3.3). Ele é “constrangido” por uma nova força — o amor (2 Co 5.14). Para ele, a vida é vivida ao máximo só em Cristo, pois “a vida eterna é esta:” Conhecer “a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Ele está dizendo: “A presença de Cristo é a alegria de minha vida, o espírito de Cristo a vida de minha vida, o amor de Cristo o poder de minha vida, a vontade de Cristo a lei de minha vida; e a glória de Cristo o fim de minha vida”.

O morrer é ganho (21) Literalmente, “ter morrido”, quer dizer, morrer seria vantajoso. O tempo verbal em grego não indica que a morte em si é ganho, mas aponta o estado depois da morte. O termo grego kerdos (ganho) era usado para descrever juros em dinheiro. Portanto, morrer é trocar o capital e os juros e ter mais de Cristo do que viver.  

O conceito paulino de ganho está em nítido contraste com o motivo vulgar de vantagem material que caracterizava os comerciantes de Filipos; e não nos esqueçamos de que foi esse mesmo motivo que inicialmente suscitou hostilidade à pregação do evangelho naquela cidade (At 16.19). J. W. C. Wand traduz da seguinte forma: “Para mim a vida significa realmente Cristo, e a morte traria mais vantagem”. Hamlet, no famoso monólogo “Ser ou Não Ser”, discute se “é melhor viver e sofrer as setas da boa sorte ou morrer e arriscar a sorte de sonhos acusadores”.

Nenhuma perspectiva é agradável. Shakespeare “julga que a vida e a morte são males, e não sabe qual delas é a menos maléfica; Paulo julga que ambas são bênçãos, e não sabe qual delas preferir”. Por 30 anos o apóstolo tem vivido, não para si, para coisas materiais ou para promoção pessoal, mas para Cristo. Ele está preparado para morrer, porque está preparado para viver. O viver direito assegura o morrer direito. “Ser tudo para Cristo enquanto eu vivo [é] descobrir, por fim, que ele é tudo para mim quando eu morrer”.

Poderíamos traduzir o versículo assim: “Para mim, vivendo e morrendo, Cristo é o ganho”. Maclaren faz um comentário esplêndido sobre esta passagem: “Para o escravo, não faz diferença se ele está lá fora, no frio e na chuva, ‘arando a terra e cuidando do gado’, ou se ele está servindo seu senhor à mesa. E serviço do mesmo jeito. Apenas é mais quente e mais leve em casa do que no campo. Trata-se de promoção ser feito escravo portas a dentro”.

Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei, então, o que deva escolher (22). A gramática rudimentar indica o dilema do apóstolo. Mas o significado é claro: “Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher” (RA). Cristo é o fruto do trabalho de Paulo (Rm 1.13; 1 Co 3.6). Grotius entende que fruto da minha obra é expressão idiomática que significa “que vale a pena”. Então, teríamos: “Se o viver na carne me vale a pena..  A tradução de Wand ajuda a esclarecer o significado: “Visto que a existência física me dá a oportunidade de trabalho frutífero, já não sei qual preferir”.26 Viver, de acordo com a tradução de Barth, “significa estar fazendo colheita”.27 Certos expositores afirmam que o termo grego gnorizo (sei) significa “declarar”. Neste caso, a idéia é: “Se é melhor para a igreja que eu viva, então não declararei minha escolha pessoal”.

Mas de ambos os lados estou em aperto (23). Estou em aperto é, literalmente, “estou apertado” (cf. N’VI). O termo grego synechomai descreve o viajante numa passagem estreita, cercado pelos lados, podendo ir só para a frente. Moffatt traduz assim:
“Estou num dilema” (cf. BJ). Tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor (23). Literalmente, tendo o desejo (BAB), dando a idéia de que não é apenas mais um entre muitos desejos. O verbo grego analusai (partir) é metáfora extraída do ato de soltar estacas e cordas de tendas para levantar acampamento (cf. 2 Co 5.1; 2 Tm 4.6). Tendo em vista que sua profissão era fabricante de tendas, esta metáfora fornece modo apropriado de Paulo descrever sua partida desta vida. O verbo também descrevia a ação de erguer âncoras e fazer-se à vela.

Adam Clarke sugere que era metáfora tirada do comandante de um navio, em porto estrangeiro, que desejava fazer-se à vela rumo a seu país, mas que ainda pão tinha ordens do proprietário. Barclay destaca que a palavra também é usada para referir-se à solução de problemas. O estado depois da morte dará soluções aos enigmas profundos da vida (1 Co 13.12). Partir e estar com Cristo são ações simultâneas. Quer dizer, ao morrer, a pessoa entra imediatamente na presença do Senhor. Para o cristão, estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor (Jo 14.3; 2 Co 5.8).

Para descrever a experiência de estar com Cristo, Paulo usa termos superlativos, os quais são parcialmente obscurecidos pelas traduções: Ainda muito melhor (RC), “muito melhor” (AEC, BJ, NVI), “bem melhor” (NTLH), “incomparavelmente melhor” (RA) e “a melhor coisa para mim” (CH).

Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne (24). Este é o outro lado do dilema de Paulo. Por um lado, ele deseja estar com Cristo; por outro, ele reconhece seu dever com a igreja. Entre estas alternativas ele mantém um “equilíbrio santo”. A vontade de Deus deve ser feita, mesmo que signifique subordinar o seu desejo ao seu dever para com os outros. Epimenein te (ficar “em”) é, literalmente, “permanecer por” e não “em” a carne. Significa “resistir por”, “não ceder por”, como o soldado que se recusa a deixar o posto (cf. 17).

Ninguém vive para si. Paulo tem de pensar no bem-estar dos amigos de Filipos. Ele está pronto a renunciar as beatitudes eternas pelo serviço terreno. Não seria esta a “mente de Cristo” que ele tanto deseja para os crentes filipenses (2.5-8) e que caracteriza a vida do apóstolo (Rm 9.3; 1 Co 10.33)? Não há melhor quadro que este para descrever o modo em que o cristão entende a relação deste mundo com o outro mundo, acerca de recompensas e serviços. O desejo de Paulo não é a morte, mas Cristo. A morte é apenas a entrada numa relação mais plena com ele. Em nenhum sentido, Paulo a considera fuga das responsabilidades desta existência temporal.

A acusação de que o cristão é tão ligado ao outro mundo que se interessa apenas pelos assuntos da outra vida é uma caricatura fundamentada em engano da fé cristã. O bem dos outros sempre tem de vir primeiro, à frente de todo desejo pessoal. Por conseguinte, Paulo está pronto a continuar seu serviço para que os crentes filipenses fiquem “mais fortalecidos, como os filhotes de pássaros precisam da mãe até que as penas cresçam”.

3. O Resultado do Triunfo (1.25,26)

E, tendo esta confiança, sei que ficarei e permanecerei com todos vós (25). O começo deste versículo deve ser lido com o versículo 24. Quer dizer, Paulo está confiante de que viver é vantajoso para os crentes filipenses; ele expressa uma convicção pessoal (2.24) e não uma profecia. Ele declara sua opinião firme de que Deus permitirá o que for melhor. Literalmente, ele está dizendo: “Permanecerei” (meno) com todos vós e “permanecerei pronto para ajudar” (parameno) todos vós. Para proveito vosso e gozo da fé é mais bem traduzido por “para o vosso progresso { prokopen; ver comentários no v. 12] e gozo na fé” (AEC; cf. NVI).
Para que a vossa glória aumente por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós (26) é, literalmente, “para que o vosso motivo de orgulho abunde em Cristo Jesus em mim pela minha presença de novo convosco”.

O termo grego kauchaomai (glória) pode ser usado em sentido falso e em sentido legítimo (cf. Rm 15.17; Ef 2.9).  A glória (kauchema) dos crentes filipenses tem de estar em Cristo, embora o objeto dessa glória se baseie em Paulo. Parousia (ida) é a palavra usada no grego secular para descrever a entrada cerimoniosa de um rei ou governador em uma cidade, com todas as manifestações de alegria pertinentes ao evento. Paulo está convicto de que se lhe for permitido rever os crentes filipenses, a participação mútua entre eles os levará a lhe dar um acolhimento de rei.

Os versículos 12 a 26 narram “A Santa Confiança”, que se baseia em: 1) Na providência amorosa de Deus revelada nos acontecimentos passados, 12-18; 2) Na presença ininterrupta de Cristo em cada momento, 21; 3) Na habilidade de Deus configurar a morte ou a vida, no futuro, para o cumprimento dos seus propósitos, 19-26.


Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS

BIBLIOGRAFIA

Comentário Bíblico Beacon



A ALEGRIA QUE SUPERA A ADVERSIDADE

A ALEGRIA QUE SUPERA A ADVERSIDADE

Filipenses 1.12-26

Nada retém a força do evangelho, a não ser a falta de vontade humana. — O autor

E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho. De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana e por todos os demais lugares; e muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor. Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa mente; uns por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho; mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento, ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda.

Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo, segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei, então, o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé, para que a vossa glória aumente por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós. (Fp 1.12-26)

Neste capítulo, a Carta de Paulo segue o padrão comum adotado por ele para escrever suas cartas. Ele dá uma descrição detalhada das suas necessidades, mas destaca, acima de tudo, a paixão que o consumia: a pregação do evangelho acima de qualquer adversidade, O texto está adaptado ao assunto deste capítulo. Paulo estava preso em Roma, mas as suas cadeias não o impediam de proclamar o evangelho. Ele fala de seu sofrimento de forma exemplar, com o objetivo de levar os filipenses a uma reação à perseguição. Ele queria que os filipenses entendessem que r poderia diminuir a fé recebida. Pelo contrário, as coisas que 1h haviam acontecido em sua viagem missionária não eram um entrave para o progresso do evangelho. Os filipenses estavam profundamente preocupados com o estado físico de Paulo na - Nutriam por ele um grande afeto. Sabiam que ele estava preso aguardando o julgamento, e que não demoraria o seu julgamento perante o supremo tribunal do Império. Por causa dessa situação, a igreja se preocupava em saber como ele estava se sentindo. N verdade, a preocupação maior dos filipenses estava em saber o q’ aconteceria com a igreja plantada por todo o mundo romano s. Paulo fosse condenado à morte.

O Testemunho que Rompe Cadeias e Grilhões (1.12,13)

1. O evangelho é mais poderoso do que cadeias e grilhões

A prisão de Paulo, do ponto de vista humano, poderia ter sido um revés para o evangelho. Entretanto, Paulo garante que nada, absolutamente nada, poderia frear a força do evangelho de Cristo. Nenhuma circunstância, política, material ou espiritual impediria o testemunho do evangelho.

O fato de o apóstolo estar preso poderia afetar o avanço do evangelho no mundo. Sua prisão era considerada um golpe contra a igreja de Cristo. Porém, o apóstolo transmite na sua carta a ideia de que nenhum poder físico ou material poderá conter a força do evangelho. O que Paulo, de modo simples e objetivo, diz para os filipenses é que cadeias não limitam o movimento dinâmico do evangelho que pode ser disseminado de boca em boca. Mais importante que as suas cadeias era a proclamação do evangelho, não importava como. Para o apóstolo em prisão, as notícias dos sucessos de conquista do evangelho na vida das pessoas lhe serviam de consolo para suportar os sofrimentos que padecia nas suas prisões. Saber que o testemunho das suas prisões produzia fruto positivo na vida dos cristãos, especialmente os romanos, dava-lhe uma alegria e um sentimento (te vitória que superava todos os sofrimentos da prisão.

2. Paulo rejeita a autopiedade no seu sofrimento (1.12)

Paulo começa referindo-se às “coisas que me aconteceram” (v. 12), ou seja, como está no grego do Novo Testamento “ta kat’eme” que diz respeito a “minhas coisas, meus assuntos” ou “coisas que dizem respeito a mim”. Ora, Paulo estava falando dos seus sofrimentos, mas sua avaliação sobre esses sofrimentos era que eles não deviam ser a razão de compaixão dos filipenses. Ele queria que os filipenses entendessem que o foco, o vértice de tudo e a pessoa para quem deviam olhar era Jesus. Ele era o eixo central da sua vida, e seus sofrimentos físicos e materiais contribuíam para o avanço da igreja no mundo. Paulo não se fazia de vítima do evangelho nem da igreja, mas entendia que tudo quanto acontecia na sua vida era para a glória de Cristo na sua igreja no mundo.

Paulo avalia seus sofrimentos com uma visão positiva. Ele era um missionário que tinha consciência da importância da sua missão. Na sua mente, todo e qualquer sofrimento infringido contra a sua pessoa no exercício do ministério cristão era circunstancial e estava sob os cuidados de Deus. A soberania de Deus equivale à consciência de que o sofrimento é temporal e que a superação sobre ele produz um sentimento de vitória e aponta para um futuro eterno de gozo na presença de Deus. Por isso, Paulo não agia com autopiedade para conquistar a compaixão das pessoas. Ao falar e escrever de seus sofrimentos, não esperava que os filipenses e todas as demais igrejas entendessem que ele não estava esperando dos cristãos atitudes de compaixão, de pena pelos maus tratos recebidos.

Paulo queria que a igreja de Filipos e as demais igrejas do seu campo missionário percebessem que sua prisão contribuiria ainda mais para que o evangelho alcançasse muitas pessoas. Paulo não estava interessado em chamar a atenção para si, mas queria que a igreja não desanimasse em momento algum, mas desse prosseguimento ao objetivo da proclamação do evangelho em todo o mundo.

Que coisas eram essas vividas e experimentadas por Paulo? Ele podia lembrar-se de duras experiências que o acometeram e o deixaram, às vezes, com fome, com privação de roupas, com enfermidades regionais. Seu corpo tinha as marcas dos açoites que deixaram vergas em seus lombos; as marcas das correntes nos tornozelos e braços; os naufrágios; os apedrejamentos; os perigos em travessias de rios; os pés calejados em viagens a pés, e perigos de assaltos e ladrões. Todas essas experiências contribuíram para que o evangelho que não ficasse engessado em poucos lugares. Tudo isso contribuiu para que Paulo e seus companheiros de missões amadurecessem na fé e na convicção do galardão de Cristo ao final da jornada cristã (2 Co 5.10).

Paulo entendia que fora chamado para compartilhar de um projeto divino e que os sofrimentos infligidos durante a execução desse projeto divino em favor do evangelho culminariam com a vitória de Cristo sobre as forças do mal. Por isso, Paulo se regozijava em Cristo. Ele se regozijava então nos seus sofrimentos. Aos colossenses, ele repetiu a mesma mensagem quando disse: “Regozijo-me, agora, no que padeço por vós e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24).

Ele reagia aos sofrimentos com atitude de aceitação positiva e não permitia que a amargura dos sofrimentos ou qualquer resquício de autopiedade o impedisse de fazer a obra de Deus. Esse sentimento de sacrifício e paixão pela obra de Cristo está em crise nos tempos atuais. Os adeptos da pseudoteologia da prosperidade, que não admitem o sofrimento, desconhecem o privilégio de sofrer por Cristo.

No versículo 12, quando Paulo fala de “proveito” (ARC) ou “progresso” (ARA), está falando, de fato, de um termo militar que se referia aos trabalhadores que abriam caminho através de uma floresta utilizando ferramentas como machetes, machados e foices a fim de facilitar a caminhada de soldados para o alvo de sua batalha. O termo grego para “progresso” é prokopê que significa, essencial- mente, “avanço a despeito de obstruções e perigos que bloqueiam o caminho do viandante”.

Na verdade, Paulo estava declarando que a obra do evangelho estava rompendo com obstruções e progredindo, a despeito da terrível oposição externa. Paulo estava dizendo, na realidade, que na batalha espiritual é preciso abrir caminho para chegar a um fim proveitoso. Nesse sentido, os sofrimentos do apóstolo contribuíam para maior proveito do evangelho.

Paulo Focaliza sua Atenção na Proclamação do Evangelho (1.12,13)

1. Paulo conquista a simpatia da guarda pretoriana (v.13)

Paulo estava convicto de que não havia qualquer acusação que o incriminasse, a
té porque suas doutrinas eram conhecidas até mesmo pelas autoridades da Defesa Pública, isto é, o Pretório. A corte pretoriana era constituída por uma classe especial militar que vivia na mesma região (ou lugar) onde Paulo estava preso. A palavra “pretório” vem do latim praetorion e no grego é praetorium, que era o Tribunal em que se ouviam e julgavam as causas pelo pretor ou magistrado civil. O apóstolo Paulo aguardava o dia em que seria apresentado ao pretor para ser ouvido e julgado por ele. O que se subentende é que o caso de Paulo havia sido levado ao imperador como um caso muito especial e que havia simpatia das autoridades pelo seu caso, uma vez que havia cristãos que viviam e trabalhavam dentro do Palácio de César como está dito no texto de 4.22: “Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César”.

A despeito da terrível oposição externa que a obra missionária estava enfrentando e sofrendo, a obra do evangelho progrediu e a Palavra de Deus não ficou retida por força nenhuma. Paulo estava em Roma aguardando julgamento da parte do imperador. A guarda pretoriana era constituída de, pelo menos, 10 mil soldados espalhados em todos os lugares onde houvesse uma representação do Império. Em Roma havia o maior número de homens para proteger o Imperador. Essa guarda romana gozava de certos privilégios superiores a qualquer outra instituição imperial que exercia influência sobre coisas ligadas ao imperador. Paulo era um preso especial que conseguiu conquistar a simpatia de muitos pretorianos, e por esse modo a comunicação da mensagem do evangelho era facilitada em todo o Império Romano. Sua situação judicial chamou a atenção de muita gente de Roma que não via qualquer crime de Paulo contra o império.

2. O seu sofrimento propiciou um canal de abertura para se pregar o Evangelho

Warren Wiersbe, em seu comentário sobre a Carta aos Filipenses, diz “que o mesmo Deus que usou o bordão de Moisés, os jarros de Gideão e a funda de Davi usou as cadeias de Paulo” para a proclamação do evangelho. Os cristãos romanos espalhados por toda a Roma, inclusive nas cidades adjacentes, começaram a falar mais livremente sobre o evangelho na capital do Império.
A prisão de Paulo, em vez de reter a força do evangelho, promoveu ainda mais a sua disseminação. O Espírito Santo usou a prisão de Paulo para tornar o evangelho ainda mais dinâmico e poderoso no seu avanço no mundo.


Motivações da Pregação do Evangelho (1.14-18)

Duas motivações que estavam na mente e no coração dos cristãos espalhados em toda a Asia Menor, que era o campo missionário do apóstolo, além da Europa. Podemos perceber nessas duas motivações que moviam as igrejas como sendo uma positiva e a outra negativa. A positiva dizia respeito ao estímulo dos filipenses quanto às notícias da simpatia da guarda pretoriana à situação prisional de Paulo (1.13). Essa motivação produziu no coração e na mente dos cristãos filipenses a renovação de entusiasmo e disposição para continuar fiel ao propósito da propagação do evangelho.

1. Uma nova fonte de energia (v.14)

O texto diz que “muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões” descobriram uma nova fonte de energia para continuar a fazer a obra de Deus. O texto diz que “muitos dos irmãos” (1.14) foram estimulados pela repercussão positiva entre os cristãos de Roma de que o processo contra Paulo era injusto e não havia nenhuma ação criminosa, senão peio fato de pregar a Cristo Jesus. Ora, visto que Paulo estava preso por causa de Cristo, a guarda pretoriana bem como as autoridades romanas passaram a entender que se tratava de um equívoco e que Paulo não era nenhum criminoso. Paulo, pelo Espírito, entendeu que essa situação de dúvida das autoridades romanas contribuiria para a disseminação do evangelho. Por isso, Paulo regozijava-se pela oportunidade de participar dos padecimentos de Cristo Jesus (Gl 2.20). Aqueles irmãos poderiam agora anunciar a palavra de Deus com maior determinação e destemor.

2. O sentimento de pessimismo de alguns cristãos (1.15-17)

Paulo estava imobilizado para fazer a obra livremente, pois sua prisão o impedia de movimentar-se para fora da prisão. Alguns cristãos, principalmente, que eram mestres judaizantes, insistiam que era necessário unir os ritos mosaicos com as instituições cristãs. Paulo os combatia porque entendia que eram duas coisas completamente distintas. Entretanto, esses judeus cristãos tomavam essas posturas de Paulo e o acusavam de ser inimigo da Lei e dos Profetas, principalmente porque ensinava contra a necessidade da circuncisão para o cristão. Por esse modo, esses inimigos gratuitos de Paulo incitavam os romanos contra o apóstolo para o indispor contra os romanos. Essa situação despertou motivação errada em alguns dos cristãos de Filipos. Era um sentimento de pessimismo no sentido de que Paulo estaria prejudicando o crescimento do cristianismo.

Esse sentimento desenvolveu-se motivado por falsos obreiros existentes no seio da igreja de Filipos. Alguns cristãos mais afoitos aproveitaram-se da ausência do apóstolo para agir de modo discordante de tudo quanto haviam aprendido anteriormente, conforme está descrito nos versículos 15 ao 17.

Sem dúvida alguma, o Diabo se aproveitou da fragilidade daqueles irmãos para plantar em seus corações sentimentos de mesquinhez, de inveja, porfias, discórdia e atitudes rebeldes (1.15,17). Ao ter notícias dessa situação e sabendo que a liderança local não estava conseguindo impedir essa situação, Paulo entendeu pelo Espírito Santo que o que importava, de fato, era que Cristo fosse pregado “de toda a maneira”, “quer por pretexto, quer por verdade”(1.18, ARA). O segmento hostil que se levantou na igreja criou uma situação que tinha por objetivo, acima de tudo, atingi-lo e tratá-lo como um desconhecido e sem reputação, ou mesmo como se fosse um falso apóstolo. Ele sabia que essa situação seria dissipada e o que importava mesmo era que o evangelho fosse pregado a todas as gentes até a vinda do Senhor.
 “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia” (1.15). A despeito de Paulo estar preso naquela ocasião, ele faz entender que a obra da igreja de Cristo não perderia espaço no mundo por sua incapacidade de se movimentar. A obra não sofreria por sua ausência física. Porém, aqueles opositores tinham propósitos diferentes dos propósitos de Paulo. 

O apóstolo os denomina de eritheia porque pregavam por outros interesses e com atitudes de inveja e porfia. O interesse maior era trabalhar mercenariamente. A atitude dos caluniadores de Paulo era mercenária, pois trabalhavam com segundas intenções. Invejavam a autoridade e o poder apostólico que Paulo tinha. A palavra “porfia” indica contenda, rivalidade e conflito que os opositores de Paulo faziam para denegrir a imagem do apóstolo perante os irmãos.

‘....mas outros de boa mente” (1.15), isto é, de boa vontade, que denota satisfação e contentamento daqueles que trabalham por amor ao Senhor. Os opositores de Paulo tinham motivação errada porque eram impulsionados por um espírito faccioso, partidário, de intriga, e valiam-se de meios inescrupulosos para alcançar seus objetivos perniciosos. No versículo 16 está escrito que alguns trabalham por amor porque foram alcançados pelo amor imenso do Senhor.

“mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção” (1.17). A palavra que melhor explica “contenção” é “discórdia”, que descreve aqueles estavam interessados apenas nos seus próprios interesses. Eles não tinham motivos puros, e por isso caluniavam a Paulo, querendo diminuir sua autoridade para com os filipenses.

“Mas que importa?” (1.18). Paulo estava afirmando que se aqueles falsos irmãos pregavam por porfia, fingimento ou por pretexto, o que importava, de fato, era que o evangelho estava sendo pregado. Não significa pregar erroneamente alguma doutrina, mas significa que se a mensagem for preservada, independentemente do comportamento daquelas pessoas, o que importa é que o evangelho seja pregado. Ele ainda diz: “nisto me regozijo e me regozijarei ainda”.

Ora, sua alegria não se prendia às circunstâncias ruins ou daqueles que o criticavam, porque a essência de tudo era a certeza da proclamação do senhorio de Cristo. Paulo preferia saber que os seus opositores pregavam o evangelho com fingida piedade, mas pregavam. Para ele, isso era razão de regozijo em sua alma.

Intensa Expectação de Paulo (1.19-26)

Os versículos 19 a 26 apresentam o exemplo de uma vida consagrada ao Senhor, revelando ser a mais profunda e sincera consagração que um homem seja capaz de fazer a Deus. Jesus Cristo é engrandecido como objeto maior da vida do crente, porque a graça demonstrada de Cristo é o seu princípio de vida e a palavra dEle é a sua regra cotidiana. A frase «nisto me regozijo e me regozijarei ainda”, dita por Paulo do versículo 18, demonstra o sentimento que dominava a sua alma de que nada afetaria sua alegria em Cristo. Não se tratava de uma alegria efêmera ou passageira, mas de uma alegrit produzida pelo Espírito Santo na sua vida interior. Em seguida, ele diz que tinha em seu coração uma “intensa expectação”. Que expectação era essa? Não se referia à sua própria segurança, mas ao fato de que sua prisão e privação promoviam ainda mais o progresso do evangelho.

1. Cristo é engrandecido na vida pessoal do apóstolo (1.19-20)

O que é que Paulo esperava? Qual era a sua expectativa acerca dos seus sofrimentos e da continuidade da expansão da igreja? No versículo 18, Paulo diz: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira”. Essa atitude revelava o anseio do apóstolo pelo crescimento da igreja, sem se importar por quais meios, visto que o poder do evangelho superaria os problemas humanos.

Porém, no versículo 19, Paulo estava certo de que Deus era poderoso para tirar bem do mal, fazendo que o mal, ou seja, a oposição feita contra ele, redundaria na salvação de muitas pessoas. Nesse mesmo versículo, o apóstolo estava confiante na provisão (“socorro”) do Espírito de Jesus Cristo. Ora, o Espírito de Jesus não era outro senão a terceira pessoa da Trindade, enviado por Cristo para suprir todas as necessidades da sua igreja na terra (Gl 3.5). A presença do Espírito Santo na vida pessoal do crente e na igreja de Cristo é uma garantia de resultados positivos.

“... intensa expectação” (1.20,). Qual era a expectativa de Paulo quanto à sua vida? Na mente do apóstolo, estar motivado por uma “intensa expectação” ou “ardente expectativa” significa alguém que estica o pescoço para ver o que há adiante. Paulo tinha esperança e estava seguro da promessa de Cristo de que em breve ele estaria em sua presença. Ora, o que esperava Paulo? Ele esperava não ser envergonhado ou “confundido” (v. 20). Sua vida dedicada ao Senhor lhe dava a garantia de que seus inimigos é que seriam envergonhados, pois ele estava dando a sua vida em libação ao Senhor. Ele esperava engrandecer a Cristo no “seu corpo físico” (v. 20), isto é, os sofrimentos físicos que padecia lhe davam a sensação de participar dos sofrimentos do Senhor Jesus.

2. Como Paulo vê a morte e a vida em sua experiência pessoal (1.21,22)

A expressão “porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (v. 21) revela o sentimento que dominava coração e mente do apóstolo. Viver, para ele, era a vida que agora tinha. O seu passado não era vida, mas era morte. Porém, ao encontrar a Cristo, recebeu vida e vida abundante. Essa declaração não significa apenas viver para servir a Cristo, para fazer o melhor que possa no Reino de Cristo na terra, ou para agradá-lo, fazer sua vontade, ou para ganhar almas para Cristo. E muito mais que isso. Significa uma total identificação com Cristo, no sentido de que “o viver é ter Cristo em sua própria vida”. Em Gálatas 2.20, ele disse: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. Paulo se via identificado com Cristo com tal comunhão, como a união do tronco com os ramos, o corpo com a cabeça. Nesse sentido, as coisas do mundo não podiam afetá-lo, porque ele podia dizer: “Estou crucificado com Cristo”.

Na sua mente, continuar vivo fisicamente significaria continuar fazendo o seu trabalho missionário. Porém, ele via o seu sofrimento físico como um modo de glorificar a Cristo no seu corpo. Paulo colocava o seu ideal acima de qualquer adversidade. A morte traria lucro pessoal porque poderia estar para sempre com o Senhor. Porém, o que importava era a pregação do evangelho. Por vida ou por morte tudo o que Paulo queria era que Cristo fosse engrandecido no mundo (1.21). Ele queria viver para servir a Cristo, para agradar-lhe e fazer sua vontade, mas entendia, também, que o que importava era Cristo, não ele propriamente. Por isso, declarou aos gálatas: “E vivo, não mais eu; mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).

Sua consagração a Cristo era total e completa. Cristo era o principio, a essência e o fim na sua vida pessoal. NEle vivia e se movia para a sua gloria, por isso, podia dizer: Para mim o viver e Cristo, e o morrer é ganho” (1.2 1).

3. A intensa expectação de Paulo (1.22-26)

Nos versículos 19 a 21, Paulo expõe suas emoções revelando; um dilema interior que era o desejo de estar com Cristo e o estar vivo na carne para continuar fazendo a obra de Deus. Pela morte ou pela vida, Paulo queria e desejava que Cristo fosse engrandecido na sua vida. Ele apela para as orações da igreja para que o socorro. divino fosse concedido a ele naquela hora dificil.

1.22 — O “viver na carne” era uma declaração de que continuar a viver fisicamente poderia representar sua total devoção a Cristo. O que importava para ele era que seu trabalho em favor de Cristo produziria resultados eternos, e não meramente temporais. Essa expressão não tinha um caráter moral, mas referia- se a viver na carne para continuar a dar fruto no seu trabalho de disseminação do evangelho.

Quando fala do “fruto da minha obra”, referia-se ao fato de que se sua existência física podia lhe dar a oportunidade de continuar dando fruto, então valia a pena estar vivo. Mais do que sua escolha pessoal entre viver e morrer, valia o fato de que estar vivo, contribuiria para a proclamação do evangelho e o fortalecimento da igreja. Na verdade, o seu futuro não dependia da sua escolha pessoal, porque estava sob o poder do Império Romano. Independentemente de qualquer ação drástica do império contra a sua vida, ele não tinha nada a temer pela certeza de que seu destino estava na mão de Deus.

“Mas de ambos os lados estou em aperto” (1.23). Na ARA, a palavra traduzida para “aperto” é “constrangido”. A palavra “aperto” dá a ideia de estreitamento de duas ideias: viver ou morrer. Entre viver ou morrer, o apóstolo diz mais: “tendo desejo de partir e estar com Cristo”. A esperança do crente em Cristo é que, quando morrer fisicamente, possa estar com Cristo. Não há purgatório para o crente fiel, nem mesmo para o infiel. Os que morrem vão para o lugar provisório (Sheol-Hades), que é a morada das almas e espíritos dos mortos. Os justos vão para o descanso do Paraíso, e os ímpios vão para “o Lugar de tormento”, e todos ficarão nesses lugares até a ressurreição de seus corpos. Os justos em Cristo ressuscitarão primeiro por ocasião do Arrebatamento da Igreja de Cristo e os ímpios só ressuscitarão no Juízo Final.

O apóstolo Paulo declara que estava em aperto, ou seja, pressionado por dois pensamentos em sua mente: morrer para estar com Cristo, ou continuar vivo, para completar a obra ainda por fazer em favor da igreja.

1.24 — Neste versículo, Paulo entende a ideia de que “ficar na carne” seria mais necessário, por amor da igreja, isto é, continuar vivo.

1.25,26 — Paulo entende que se fosse libertado da prisão teria a oportunidade de rever todos os irmãos filipenses e gozar da sua hospitalidade e amor. Tudo o que Paulo mais desejava naquele momento era estar livre para retornar a Filipos e ver a igreja de perto, bem como regozijar-se na fé daqueles irmãos.

Nesses versículos, o apóstolo Paulo resolveu seu dilema em relação à igreja e declara que o seu desejo de estar com Cristo foi superado pela obrigação e o amor de servir aos irmãos. Paulo estava pronto para continuar trabalhando, mesmo tendo que enfrentar oposições dos romanos, de falsos cristãos, além das privações materiais e físicas, desde que tudo isso contribuísse para o progresso do evangelho e do crescimento espiritual da igreja (vv. 25,26).

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus

BIBLIOGRAFIA

Filipenses – A humildade de  Cristo como exemplo para a Igreja = Elienai Cabral