25 de março de 2015

A IGREJA E A LEI DE DEUS



A IGREJA E A LEI DE DEUS

Texto Áureo

“Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei.” (Rm 3.31).

Verdade Prática

O Senhor Jesus definiu de maneira clara a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, entre a Lei e o evangelho.

Introdução

Nesta última lição, é apresentada a lei no Novo Testamento. O cumprimento da lei em Cristo Jesus, torna o nosso entendimento mais profundo para existência do amor maior que procede de Deus para com a humanidade. Vemos em Cristo Jesus o cumprimento de toda a lei, e através dele, a salvação para a humanidade. A lei representa o grande amor de Deus pelo homem, somente um Deus poderoso pode oferecer aos seus o seu grande amor.

A lei do homem e a lei de Deus.

Pesquisa arqueológica, deste século tem produzidos muitas descobertas sobre vários códigos orientais antigos. Fragmentos sumerianos, as leis acadianas de Eshununna, o código sumerianos de Lipit-lstar, o código de Hamurábi , o mais longo e mais conhecido das leis hititas. Todos esses contém regulamentos que procedem de um “casuistico”, que sempre começa com “se...”. Algumas destas características se aproximam da Lei divina entregue a Moisés. No entanto contexto pré-redigida da lei dada a Israel, a “torah”, é consideravelmente a mais notável de todos os códigos de regras constantes em um volume apenas.

 Nos códigos orientais a religião desempenha um papel meramente de subordinação ao rei, e a deidade, que empresta sua autoridade aos códigos orientais. Em geral os esses códigos tratam exclusivamente de questões legais, deixando as exortações morais e religiosas para outros ramos da literatura. Em contrapartida a torah, que pode ser definida como a palavra de Deus e que também se refere à lei ou ensino, em suas prescrições legais e religiosas formam uma unidade concisa e inseparável.

A preocupação do autor da lei não fora simplesmente o fato de ela agir no contexto moral e religioso, mas sim fazer com que a sociedade em que ela fossa implantada pudesse viver em uma realidade espiritual digna de alto padrão ético e religioso. Com ela, essa lei ou ensino, permitiria a aproximação do seu criador tornando possível uma verdadeira adoração.

            Para a sociedade moderna os valores éticos, de rituais religiosos de prescrições judaicas, deixa uma impressão de perplexidade em relação aos outros códigos criados em tempos próximos ao da torah. Uma das grandes contribuição deste conjunto de ensino é a possibilidade de enxergar nela o cuidado em relação aos menos favorecidos como por ex., dos cegos ( Lv 19.14; Dt 27.18) dos surdos (Lv 19.14) das viúvas e dos órfãos (Êx 22. 21,22) e por  outros que viviam nas classes sociais menos desprovidas em Israel. 

Enquanto o código de Hamurabi, por exemplo, se preocupava em proteger a classe dominante. Contudo podemos verificar que a lei de Deus é ainda mais profunda e preocupada com relação à sociedade para mantê-la coesa e regulamentada. Esta ferramenta social foi de grande valia ao povo de Israel naquele momento histórico, e tem profundo aspecto positivo para a igreja na atualidade. 

 Deus se mostrou preocupado com todos dentro de uma sociedade que sendo estruturada como nação. As implicações da lei revelam as demandas humanas de um Deus que é fiel para com os seus, diante de uma sociedade corrupta, Deus revela sua bondade para com aqueles que são fiéis. Todo o amparo da lei verifica a bondade de Deus pelos séculos, em favor da construção de uma sociedade pacifica e abençoada.

A lei e o Novo Testamento.

A lei em o Novo Testamento é citada como complemento da bondade e misericórdia de Deus para com a humanidade. Em uma das suas citações do SENHOR Jesus usa a expressão “não vim ab-rogar a lei, mas cumpri-la” (Mt 5-17),  Ele deixa claro que a lei deveria fazer parte da existência da igreja. Somente uma lei com sentido mais amplo, tem o papel de aproximar o seu humano da excelência de Deus e pode continuar perpetuamente (Mt 5.18).

A lei como a base do ministério terreno de Jesus torna-o semelhante ao seu Pai, pois somente o nosso SENHOR Jesus teve condição de cumprir toda a lei. A finalidade maior da lei nunca foi de afastar o homem do seu criador, pelo contrário, a maior contribuição desta foi mostrar o quanto o amor de Deus teve não somente pelos de Israel, mas também com todo o mundo (Jo 3.16). Toda a lei em seus pormenores revela o centro da vontade divina, que era revelar ao mundo a Jesus Cristo, que é o fim da lei. O ministério terreno de Cristo Jesus contribui para que todos os salvos possam identificar em Cristo o amor de Deus. 

É importante notar que deste a implantação da lei, as comunidades judaicas sempre procuram estar afinados com proposito divino. No entanto o que nos chama a atenção é que a lei com o passar do tempo se tornam um fardo insuportável para aqueles que a seguem (Lc 11.46). Os próprios judeus criaram códigos que tornaram a lei insuportável para eles mesmo. Os seus preceitos morais e religiosos, tornam-se desesperadamente desapropriados a ponto do próprio criador dizer, “obediência quero e não sacrifício” (Os 6.6).

 Contudo as leis cerimonias apontam para a obra redentora de Cristo que  cumpriu todas exigências da lei (Mt 5.17).  Cristo Jesus mostra que através da sua morte a história da humanidade pode ser mudada. Enquanto a lei apontava para o pecado, pois a lei não tinha o poder de tirar o pecado (Rm 7.6), desta forma Paulo disse “todos pecaram e destituídos estão da gloria de Deus.” (Rm 3.23). Ele sabia que a propensão do homem ao pecado era muito maior do que a sua vontade de se libertar.  

A lei em sua estrutura era boa, mais insuficiente para purificar o pecador. Quando, porém este chega ao conhecimento da verdade, Deus age em sua vida de em transformação de dentro para fora (2Co 2.17). Uma nova realidade de vida é alcançada pela morte expiatória de Cristo Jesus. Somente o sangue de JESUS pode livrar o homem da sentença do pecado (Cl 2.14), somente o sangue de Jesus pode lavar esta cédula e purificar o homem em uma nova criatura.

 A realidade de uma vida plena em Cristo veio através da plenitude de Deus (Gl 4.4).  Toda a plenitude de Deus estava em Cristo criando a possibilidade de uma vida maior e melhor sem estarmos imbuídos debaixo de sacrifícios incessantes que nada podem fazer. A exclusividade do sangue do filho de Deus pode fazer com que o homem passa a ser adquirido (1Pe 1.19).  Enquanto a lei apenas apontava o pecado, o sangue de Cristo remove o pecado, enquanto a lei dizia o que deveria ser feito ao culpado, Jesus se torna culpado por nós. Por isso o próprio Cristo disse que ninguém tem maior amor que este de dar a sua vida pelos seus amigos (Jo 15.13). Um amor como este que levou um inocente a dar a sua vida na cruz pelo seu próximo, por alguém que ainda não existia, somente um amor maior, pode levar o homem a sentir em si a necessidade de estar voltando constantemente para o seu criador. 

            Ao observarmos o cumprimento da lei em Cristo; Ele disse que nada da lei pode ser revogado por isso observamos as seguintes indagações de Cristo sobre a nova construção da lei, agora “adoçada” com a graça vinda de nosso SENHOR;

Se ele agora ouve; “Não matarás”, Deus fala, num estrondo;  “Aquele que odeia seu irmão é um assassino”, “ele que diz ao seu irmão, Você é um tolo, torna-se réu do fogo do inferno”. 

Se a lei diz; “Não cometas adultério”, a voz do Senhor soa, nos seus ouvidos. “Ele que olha a mulher, para cobiçar, terá cometido adultério com ela, ainda que em seu coração” (Mt 5.28)
.
Os que estavam acostumados com a lei onde se mencionava apenas olho por olho e dente por dente (Mt 5.38), experimentam a resposta divina sobre a sentença de Deus. E assim, em todo ponto, ele sente a palavra de Deus “rápida e poderosa, cortante como duas lâminas de espada”.  Ela “perfura até mesmo o que tem dividido sua alma e espírito, suas articulações e medula, em pedaços”. 

Seu coração agora está nu, e eles vêem que é todo pecado, “enganoso - acima de todas as coisas – e, desesperadamente, mau"; que é completamente corrupto e abominável mais que isto, que é possível a língua expressar; que, nesse lugar, habitou, apenas, injustiça e impiedade cada movimento, dali em diante, todo temperamento e pensamento, sendo, continuamente, mau.

Jesus elenca os pormenores da lei, pois ninguém pode ser justificado pelas obras da lei (Gl 2.16). Enquanto alguns acreditam que o cuidado da lei pode ter poder para salva-lo, cremos no sacrifício maior de Cristo Jesus. Paulo observa que o homem só pode conhecer o pecado pela lei.  A lei então é boa;

“Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.  E o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte.  Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom’’.( Rm 7.7,12).

Portanto a lei aproxima o homem de Deus, mesmo que para alguns, sejam mandamentos impossíveis de serem cumpridos, vemos todo o amor de Deus sendo manifestado em seus ensinos. Concluímos então que o fim da lei é Cristo Jesus, e Cristo revela o amor de Deus pela humanidade, assim a lei é a representação do amor. 


Evang. Juarez Alves






A IGREJA E A LEI DE DEUS



A IGREJA E A LEI DE DEUS

TEXTO ÁUREO = “Anulamos, pois, o lei pelo fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a Lei.” (Rm 3.31.)

VERDADE PRÁTICA =  O Senhor Jesus definiu de maneira clara a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, entre a Lei e o Evangelho.

LEITURA BIBLICA =Mateus 5: 17-20; Romanos 7: 7-12

INTRODUÇÃO

A IGREJA E A LEI DE DEUS

O enfoque do presente capítulo é a compreensão da lei de Moisés e a sua relação com o Trata-se de um tema de grande complexidade. Disse Lutero: “Quem sabe distinguir corretamente o evangelho da lei deve agradecer a Deus e pode estar certo de que é um teólogo”. Os três principais reformadores do século 16 debateram o assunto. Depois dessa série de estudos sobre o Decálogo e cada um dos seus preceitos1 resta responder a duas questões: se a moral cristã está fundamentada nas dez palavras ou nos Dez Mandamentos (como aparece em nossas versões da Bíblia) e qual a sua relevância para a igreja de Cristo na atualidade.

Já havia animosidades sobre o papel da lei de Moisés nos dias apostólicos. Esses debates ajudam a elucidar a questão, mas nem por isso a solucionaram definitivamente. Isso vem desde os galacionistas que se opunham ao apóstolo Paulo e também, em parte, desde os ebionitas, que defendiam a guarda da lei de Moisés. Mas os discípulos desses legalistas ainda estão por aí.

A LEI DE DEUS

A lei de Deus e os Dez Mandamentos não são a mesma coisa. Os Dez Mandamentos encabeçam os demais preceitos entregues por Deus a Moisés no monte Sinai desde Êxodo 19.16-19 até Levítico 26.46; 27.34. Esses preceitos são identificados com frequência como estatutos, juízos, leis e mandamentos. Muitos deles são repetidos nos livros de Números e Deuteronômio. Todo esse sistema legal integra o Pentateuco, que aparece na Bíblia como lei, livro da lei, lei de Moisés, lei de Deus, lei do Senhor.
É oportuno aqui esclarecer o que a Bíblia quer dizer quando usa as palavras lei de Deus. O termo aparece sete vezes nas Escrituras, quatro no Antigo Testamento e três no Novo, e em nenhum lugar diz respeito ao Decálogo.

As quatro primeiras ocorrências se referem a toda a lei de Moisés, ao Pentateuco, como livro: “Josué escreveu estas palavras no livro da Lei de Deus (Os 24.26); “E leram o livro, na Lei de Deus.., ele lia o livro da Lei de Deus” (Ne 8.8, 18); “e convieram num anátema e num juramento, de que andariam na Lei de Deus, que foi dada pelo ministério de Moisés, servo de Deus; e de que guardariam e cumpririam todos os mandamentos do SENHOR, nosso Senhor, e os seus juízos e os seus estatutos” (Ne 10.29). Assim, as expressões “lei de Deus”, “lei do Senhor” e “lei de Moisés” dizem respeito à mesma coisa (Ne 8.1, 8, 18; Lc 2.22, 23). Trata-se do Pentateuco no seu todo, e não apenas do Decálogo, do livro, e não das tábuas de pedra.

As outras três aparecem somente em Romanos, e nenhuma delas diz respeito ao Decálogo: “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus... Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado” (Rm 7.22, 25). O termo “lei” aparece cerca de 70 vezes nesta epístola com amplo significado, cuja explanação não cabe aqui. A “lei de Deus” neste contexto contrasta a “lei do pecado”, mostrando tratar-se de um princípio. A outra ocorrência é no capítulo seguinte: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8.7). O homem carnal não tem lei nem se submete à vontade de Deus que o apóstolo chama de “lei de Deus”.

OS TRÊS TIPOS DE LEI

É comum ouvir falar de lei moral, lei cerimonial e lei civil. Os preceitos morais estão resumidos nos Dez Mandamentos. São os que tratam dos princípios básicos morais (alguns chegam a considerar erroneamente o sábado como preceito moral, ver Capítulo 5). É única porção do Pentateuco escrita pelo dedo de Deus em duas tábuas de pedra. A própria nação de Israel viu e ouviu Deus entregando essa parte da lei a Moisés. Essa é outra característica distintiva do Decálogo.

A lei cerimonial é a parte que trata das festividades religiosas, do sistema de sacrificio e da adoração no santuário, dos alimentos limpos e imundos e das instruções sobre a pureza ritual, entre outros. A lei civil diz respeito à responsabilidade do israelita como cidadão; são regulamentos jurídicos e instruções que regiam a nação de Israel. Convém salientar o que já foi dito no Capítulo 1: “Embora essa distinção tripartite seja antiga, seu uso como fundamento para explicar a relação entre os testamentos não é demonstravelmente derivada do Novo Testamento e provavelmente não é anterior a Tomás de Aquino” (CARSON, 2011, p. 179). Os preceitos cerimoniais e civis derivam dos preceitos morais. Esses três tipos de lei estão presentes no Pentateuco, entretanto, tudo é a lei de Moisés.

Há uma interpretação entre os cristãos de que a lei moral é eterna, portanto, para a atualidade. A lei cerimonial se cumpriu na vida e na obra de Jesus Cristo. A lei civil cumpriu sua função até que Israel deixou de ser um estado teocrático, e a Igreja não é um estado. Tudo isso são interpretações. É verdade que a lei cerimonial se cumpriu em Jesus, pois todo o sistema e ritos do tabernáculo apontavam para o Messias. Israel perdeu a condição de estado teocrático (Mt 21 .43), e os privilégios de Israel foram transferidos para a Igreja (Êx 19.6, 7; 1 Pe 2.9, 10). O Senhor Jesus cumpriu todos os preceitos morais durante sua vida terrena. Em nenhum lugar o Novo Testamento diz que a lei moral se resume a amar a Deus e ao próximo, mas abrange toda a lei: “Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.40).

O apóstolo Paulo afirma: “Porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Rm 13.8). Em seguida, ele cita cinco mandamentos do Decálogo, mas não na sequência canônica, e depois volta a enfatizar que “o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10).

OS REFORMADORES DO SÉCULO 16

Lutero entendia as ações de Deus em termos dialéticos e nisso via contraste entre a lei e o evangelho. A lei é a expressão máxima da vontade de Deus. Esse conceito é também defendido pelos judeus, e Calvino segue a mesma linha de pensamento. Segundo Lutero, a lei tem duas funções primárias. A primeira é coercitiva, restringe o perverso e mantém a ordem na sociedade, essa é a lei civil. A outra função da lei é teológica. A lei é santa e perfeita, foi dada para a vida, mas a distância entre sua santidade e a incapacidade humana de cumpri-la faz da lei uma palavra de julgamento. O que era para a vida transformou-se em morte. A função teológica exige do homem algo que lhe é impossível: cumprir a lei totalmente. Mas a lei permite ao homem conhecer o seu pecado, obter o conhecimento de si mesmo com a ajuda do Espírito Santo e em seguida obter o conhecimento de Deus. A lei não salva, mas é um meio de nos levar a Cristo; só é conhecida a partir do evangelho, e o evangelho se torna incompreensível sem ela.

Zuinglio classificava os preceitos da lei em morais, civis e cerimoniais. Os preceitos civis tratam de questões humanas particulares, os cerimoniais foram dados para o período antes de Cristo, e os preceitos morais foram resumidos no Novo Testamento na lei do amor. Para Zuínglio, a lei moral expressa a vontade eterna de Deus e por essa razão não pode ser abolida. Os cristãos estão sujeitos à lei do amor. Assim, a lei e o evangelho têm a mesma essência, são praticamente os mesmos. Zuínglio discordava de Lutero nesse ponto e também da ideia de que a função da lei era ser uma palavra de julgamento de Deus sobre o ser humano, mas dizia que ela estabelece a vontade e a natureza da Deidade.

Calvino trata o assunto no volume 2 de suas Institutas. A redenção prometida em Cristo está presente na lei cerimonial. O valor de todo o ritual do tabernáculo está na sua presença messiânica; o sacrifício e todo o serviço sagrado dos sacerdotes são aceitáveis diante de Deus porque tudo isso aponta para a pessoa e a obra de Cristo. Todos esses preceitos cerimoniais já se cumpriram. Calvino via um tríplice propósito na lei moral, a saber: mostrar o pecado, restringir o perverso e revelar a vontade de Deus. Na sua interpretação, Cristo aboliu a lei cerimonial. A lei moral é a expressão da vontade de Deus; essa vontade jamais pode ser mudada, de modo que a lei nunca pode ser abolida.

Cristo aboliu a maldição da lei, e não a sua validade. Assim, Calvino considera a ideia de os cristãos não estarem sujeitos à lei como doutrina antinomianista. O Senhor Jesus tornou explícito o que estava implícito no discurso do Sermão do Monte, e isso significa que a lei de Cristo não é outra senão a lei de Moisés. Assim como Cristo é o centro do Antigo Testamento e o Novo é a consumação desse fato, há entre ambos testamentos uma sólida continuidade. Trata-se de um relacionamento de promessa e cumprimento.

AVALIAÇÃO BÍBLICA

Parece que a ideia de lei moral, lei cerimonial e lei civil é usada como permissão para que cada um interprete o termo “lei” conforme seu entendimento e conveniência. Uns afirmam que a abolição foi da lei cerimonial e civil, mas que a lei moral é eterna e nunca pode ser abolida. Convém ressaltar que a visão tripartida da lei não deriva do Novo Testamento. É verdade que existem preceitos de caráter moral que são para todos os povos e em todas as épocas, e que outros são para um povo e uma época. Mas em nenhum lugar do Novo Testamento no qual aparece o termo “lei” afirma-se que essa lei é moral, cerimonial ou civil. O que significa quando o Senhor Jesus declara que não veio destruir a lei, mas a cumprir? Ou quando o apóstolo Paulo afirma que não estamos debaixo da lei, mas da graça? Ou ainda quando diz que a lei foi abolida por Cristo?

Jesus disse que veio cumprir a lei: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mt 5.17, 18). Ainda há muitos expositores do Novo Testamento que tropeçam nessa passagem. A ideia aqui não é confirmar ou estabelecer a lei ou os profetas por meio da vida e do ensino de Jesus. O verbo grego para “destruir” é katalyo,  “destruir, revogar, invalidar”. A antítese é “destruir” e “cumprir”. O Senhor Jesus não fala em “observar ou guardar”, mas em cumprir a lei ou os profetas.

O verbo grego usado aqui para “cumprir” éplëroõ,  que significa “encher, preencher, completar”, cuja ideia original é espacial (Mt 13.48; At 2.2). Esse verbo aparece 87 vezes no Novo Testamento como “finalizar, terminar, tornar algo completo, pleno” e nunca como “estabelecer” ou “confirmar”. O Léxico Grego-Português do Novo Testamento de Louw & Nida traduz esse verbo em Mateus 5.17 como “dar o sentido completo”: “Não vim para destruir, mas para dar o seu sentido completo” (2013, p. 362 [33.144]). Se o sentido de plëroõ aqui for de “completar”, então Jesus está afirmando ser a plenitude da revelação. De fato, a revelação divina se consumou nele (Hb 1.1, 2).

Mas a interpretação mais aceita é de que se trata do cumprimento das profecias do Antigo Testamento na vida e no ministério do Senhor Jesus (Mt 1.22; 2.17, 19; 4.14; Lc 4,21 ;Jo 19.36).

A ideia cristológica não se restringe a esses vaticínios e ocupa todo o pensamento das Escrituras hebraicas. A provisão do Antigo Testamento sobre a obra redentora de Deus em Cristo é muito rica de detalhes. Os escritores do Novo Testamento reconhecem a presença e a obra de Cristo na história da redenção (Os 11.1; Mt 2.15) e nas suas instituições e festas (Êx 25.8; Jo 1.14; Hb 5.4, 5; Êx 12.3-13; Lc 22.15; 1 Co 5.7). A lei e os profetas convergem para Jesus; ele é o cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento (Lc 24.26,27,44).

A expressão “a lei e os profetas” aparece com frequência no Novo Testamento para designar as Escrituras do Antigo Testamento (Mt 7.12; 22.40; At 13.15; Rm 13.21) ou fraseologia similar (Mt 11.13; Jo 1.45; At 28.23). Mas a presença do “ou” disjuntivo aqui mostra duas partes distintivas, em que nem uma e nem outra é para ser abolida (Jo 10.35) Aqui não se trata apenas dos preceitos morais, e o Decálogo nem sequer é mencionado no Novo Testamento como tal. Jesus fala ainda a respeito da existência de mandamentos menores: “Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos» (Mt 5.19). Isso por si só invalida a interpretação de que a lei é uma referência aos preceitos morais. Existem mandamentos menores entre os preceitos morais? A resposta é não. Jesus, portanto, está se referindo a todo o sistema mosaico e às demais Escrituras do Antigo Testamento.

O jota se refere ao yõd, a menor letra do alfabeto hebraico; ocupa a metade da linha na escrita, O til, keraia,139 em grego, “tracinho, parte de uma letra, acento” (Lc 16.17), é um sinal diacrítjco para distinguir uma letra da outra, por exemplo. A autoridade da lei permanece mantida até no “menor traço.” E o termo “lei” no Novo Testamento, às vezes, se estende a todo o Antigo Testamento ( Jo 10.34; Rm 3.19; 1 Co 14.21).

Parece que o Senhor Jesus se refere aqui às Escrituras, de qualquer forma, seja a lei ou todo o Antigo Testamento, o certo é que não se trata apenas da lei moral. Sua validade se estenderá até o fim das eras. Isso significa até “que tudo seja cumprido”. O verbo grego usado aqui para “cumprir” não é o mesmo do versículo 17, mas gínomai, “ser, tornar, vir a ser, acontecer”, eõs panta genëtai, “até que todas essas coisas aconteçam” (Mt 5.18b). Logo, não se trata aqui de obediência aos mandamentos; essas palavras não significam obedecer à lei. A ideia é até que todas essas coisas aconteçam. A lei aqui, portanto, não se refere à Torá nem aos mandamentos, mas a todo o Antigo Testamento, que é a base do Novo, e seus ensinos perduram enquanto existirem os céus e a terra.

Voltando ao “menor dos mandamentos», ele é muito importante porque é parte da lei de Deus, O discípulo que declarar insignificante ou não observar o menor desses mandamentos será chamado de menor no reino dos céus, mas o que o cumprir e o ensinar aos outros será considerado grande no reino dos céus (Mt 5.19). Aquele que violar ou abolir esses pequenos mandamentos ocupará uma posição inferior (1 Co 3.12-15). Não significa ficar excluído da felicidade eterna. Agostinho de Hipona, Lutero e Calvino concordam com essa linha de pensamento.

A justiça dos escribas e fariseus era da letra da lei, artificial, externa e formalista. Mas os discípulos de Jesus receberam o Espírito Santo; assim, a justiça deles é interna e profunda, impressa no coração e na alma de cada um com a regeneração (2 Co 5.10). É cumprimento da promessa de Deus desde os profetas (Jr 31.33; Ez 36.27). Por essa razão, o procedimento do cristão precisa superar a conduta dos escribas e fariseus (Mt 5.20).

Outra interpretação inaceitável é a que afirma que a lei cerimonial e a lei civil foram abolidas, mas não a lei moral. O apóstolo Paulo afirma que a lei era transitória (2 Co 3.7-14) e, ao dizer isso, ele inclui as duas tábuas de pedras: “E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória” (2 Co 3.7).

O primeiro concerto foi feito com Israel no monte Sinai com a manifestação do próprio Deus diante de todo o povo, e Moisés foi o mediador desse pacto, conforme registra o capítulo 24 de Êxodo. As tábuas da lei com as dez palavras foram entregues num cenário de glória (Êx 19.1-20.22). Já escrevemos sobre isso no primeiro capítulo. A face de Moisés brilhava quando ele descia do monte (Êx 34.30-35).


Javé deu as dez palavras a Israel para que povo aprendesse a andar com Deus, mas as sanções aplicadas aos transgressores no sistema mosaico eram severas. A lei foi dada para a vida (Lv 18.5; Mt 19.17), mas a incapacidade do ser humano em obedecer transformou-a em morte (Rm 7.10). Paulo chama a lei de “ministério da morte” ou “que traz a morte” (NTLH), apesar de ser ela santa “e o mandamento santo, justo e bom” (Rm 7.12). Contudo, a lei não podia ajudar o israelita a praticar a justiça. Stanley M. Horton a compara a um termômetro que pode medir a temperatura mas não gera nem calor nem frio. A lei mensura a justiça e a injustiça, mas não ajuda a tomar alguém justo ou injusto. O problema está no pecado humano.

O código escrito é externo, a obediência a ele pode ser artificial, mas a obra do Espírito é interna, transforma o coração humano e provoca no cristão o desejo de fazer a vontade de Deus. Assim, explica o apóstolo, esse ministério era transitório. Por isso o apóstolo fala dessa antítese: “a letra mata, e o Espírito vivifica” (2 Co 3.6).

A lei veio em glória; mas, sendo ela transitória, “como não será de maior glória o ministério do Espírito?” (2 Co 3.8). Isso mostra que os mandamentos ensinados por Jesus no Novo Testamento superam com larga vantagem os preceitos do Decálogo e de todo o Antigo Testamento (2 Co 3.8, 9).

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum!” (Rm 6.14, 15). Todos nós sabemos que a lei e a graça são princípios opostos (Jo 1.17). Estar debaixo da lei significa aceitar a obrigação de guardá-la e isso implica maldição ou condenação, o apóstolo Paulo declara: “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gl 3.10).

A lei de Moisés é um livro e não duas tábuas de pedra, então o apóstolo está se referindo a todo o Pentateuco. Dizer que se trata aqui da lei cerimonial ou civil nos parece uma camisa de força. Estar debaixo da graça significa reconhecer a dependência exclusiva de Cristo para a salvação.

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS
Livro Os Dez Mandamentos = CPAD = Esequias Soares


18 de março de 2015

NÃO COBIÇARÁS



NÃO COBIÇARÁS

Testo Áureo = “De ninguém cobicei a prata. nem o ouro, nem a veste” (At 20.33)

Verdade Prática = A cobiça é a raiz da qual surge todo pecado contra o próximo, tanto em pensamento como na prática.

LEITURA BIBLICA = Exodo 20:17 =I Reis 21: 1-5,9,10,15-,16

INTRODUÇÃO

NÃO COBIÇARÁS

O Decálogo conclui com um mandamento que proibe o desejo ilícito, a cobiça sem sugestão alguma de ato, pois diz respeito primariamente à motivação, e não à ação concreta. A cobiça é um mal devastador muito comum ainda hoje em nossa cultura ocidental materialista. Trata-se de uma atitude de natureza interna que pode expressar-Se em ato real. Toda ação boa ou ruim começa no pensamento. Os outros mandamentos proibem atos; aqui, a proibição diz respeito ao desejo, não ao desejo em si, mas ao desejo daquilo que pertence a outro. Não é pecado desejar bens e conforto, as coisas boas de que necessitamos na vida.

O décimo mandamento aborda a responsabilidade do israelita sobre o pecado do pensamento. É um recurso divino que Deus proveu para habilitar o israelita a obedecer os mandamentos anteriores. A cobiça é um dos piores pecados, o pecado que não se vê. Essa é a sua característica distintiva em relação aos outros, pois não é possível ser conhecido. Isso mostra que o Legislador divino é onisciente, pois ele conhece o mais íntimo do coração humano, nossos desejos e intenções (1 Rs8.39; 1 Cr28.9;Jr 17.10;At 1.24). Deus se interessa não só pelos corretos atos concretos, não apenas pelo cerimonialismo na adoração, mas principalmente pela pureza de um coração sincero. Isso mostra o lado espiritual do Decálogo; nem tudo é apenas jurídico. A ideia central é não desejar aquilo que pertence ao outro.

Já vimos que o Decálogo está estruturado em duas seções identificadas com a primeira e a segunda tábuas, as tábuas de pedra em que foram escritos os Dez Mandamentos, literalmente as dez palavras. A primeira contém os compromissos do israelita diante de Deus, e a segunda de sua responsabilidade para com o próximo. Os dois grandes mandamentos citados por Jesus podem ser um resumo dessas duas tábuas. Esses mandamentos estão dispostos numa sequência lógica. O quinto mandamento é uma ponte que une o conteúdo das duas tábuas.


Em seguida vem a proteção da vida: “Não matarás”; depois a proteção da família: “Não adulterarás”; a proteção da propriedade: “Não furtarás”; a proteção da honra: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”; e o último protege o israelita de ambições erradas.

EXEGESE DO DÉCIMO MANDAMENTO

O verbo hebraico hãmad,“desejar, ter prazer em, cobiçar, ter concupiscência de”, aparece 14 vezes no Antigo Testamento. O termo em si é neutro e se aplica também a coisas boas (Sl 19.10 [lii; 68.16. Essa palavra é repetida no décimo mandamento no texto de Êxodo 20.17 e uma só vez no registro do Decálogo, em Deuteronômio 5.21: “E não cobiçarás a mulher do teu próximo”. Na segunda cláusula, “e não desejarás a casa do teu próximo”, aparece outro verbo ‘ãwãh,’ “desejar ardentemente, ansiar, cobiçar, anelar”.

Ambos os verbos aparecem como sinônimos no relato da tentação do Éden: “agradável aos olhos... e desejável para dar entendimento” (Gn 3.6). A Septuaginta traduz pelo verbo epithyméõ, literalmente “fixar desejo sobre”, da preposição epí, “sobre”, e do substantivo thymós, “paixão, ira, furor”.

Esse verbo grego aparece no NOVO Testamento para se referir ao décimo mandamento (Rm 7.7; 13.9) e também para expressar desejo por tudo o que é proibido (Mt 5.28; 1 Co 10.6). O substantivo derivado dele, epithymia, é usado para “concupiscência” em 1 João 2.16: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo”. Concupiscência é desejo desordenado; trata-se do “forte e continuado desejo de fazer ou de ter o que Deus não quer que façamos ou tenhamos” (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 45). Mas todos esses termos, hebraicos e gregos, são neutros, podendo se referir a coisas boas ou a coisas más, dependendo do contexto (Mt 5.28; 13.17).

O formato textual do décimo mandamento de Êxodo 20.17 é diferente do registro de Deuteronômio 5.21, mas não divergente:



Os católicos romanos e os luteranos mantiveram a tradição catequética medieval do Decálogo esboçada por Agostinho de Hipona e que predominou durante a Idade Média. Os dois primeiros mandamentos são considerados um só, e o décimo é dividido em dois. “Não cobiçarás a casa do teu próximo” é o nono, e “Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Êx 20.17), o décimo.

Qualquer pessoa pode observar sem muito esforço que tal arranjo é uma camisa de força, pois não corresponde à divisão natural (Êx 20.1-17; Dt 5.7-21). Além disso, o Decálogo do catolicismo romano não é bíblico, trata-se de uma interpretação com lentes papistas. Nós seguimos o arranjo das igrejas ortodoxas e protestantes reformadas, que vem desde os antigos judeus (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 3, 4.113, edição CPAD).

O décimo mandamento aparece expandido em Deuteronômio em relação ao texto de Êxodo e inclui o campo do próximo na lista das coisas que não devem ser cobiçadas. Alguns críticos estranham a inversão das cláusulas, pois a fraseologia de Êxodo começa por não cobiçar a casa do próximo e em seguida vem a proibição de não cobiçar a mulher do próximo, mas em Deuteronômio essa ordem é invertida: primeiro vem a mulher e depois a casa.

Ambos textos, contudo, proíbem a cobiça de bens e pessoas: além da mulher ou do esposo, pois a mulher pode também cobiçar o marido alheio, o servo e a serva do próximo;propriedades: casa e campo; o termo “casa” aparece muitas vezes na Bíblia com o sentido de “família” (is 24.15; At 16.31), mas parece não ser essa a ideia aqui; e semoventes: boi, jumento ou qualquer outra coisa. A frase final “nem coisa alguma do teu próximo” inclui posição social ou ascensão no trabalho.

Há discussão sobre a substituição de Izãmad por ‘ãwãh na segunda cláusula do décimo mandamento (Dt 5.2 1). O verbo hãmad aqui aparece com a esposa do próximo e ‘ãwãh com as demais coisas. Isso pode levar alguém a pensar em ãmad como um tipo sensual de desejo, mas isso não procede por duas razões principais:

a) é usado para bens móveis e imóveis (is 7.21; Mq 2.2);
b) ambos os termos aparecem como sinônimos (Gn 3.6; Pv 6.25; Sl 68.17).

Parece que ‘ãwãh diz respeito a um tipo de desejo casual. O formato textual de Êxodo está adaptado ao estilo nômade de vida de Israel no deserto, ao passo que Deuteronômio, quase 40 anos depois, é o modelo para o povo prestes a ser estabelecido na terra de Canaã como país.




OS FATOS

Os relatos bíblicos estão repletos de cobiças destruidoras, a começar pelo primeiro casal. “E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn 3.6). Aqui se expressa exatamente o que afirma o Novo Testamento: “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16).

Os irmãos de José desejavam a posição dele no coração de seu pai, Jacó (Gn 37.4). A cobiça causou a ruína de Acã: “Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata e, uma cunha de ouro do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, debaixo dela” (Js 7.21). O verbo “cobiçar” aqui é hãmad, o mesmo usado no Decálogo (Êx 20.17; Dt 5.2 1). Acã cobiçou e se apropriou dos despojos de Jericó, objetos que não lhes pertencia (Js 6.19).

O rei Acabe cobiçou vinha de Nabote e isso resultou num escândalo nacional que levou à ruína a casa real (1 Rs 21.1-16). Ele e sua esposa, Jezabel, violaram o sexto mandamento: “Não matarás”; o oitavo: “Não furtarás”; O nono: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”; e o décimo: “Não cobiçarás”. Dois Outros casos de cobiça aconteceram na casa de Davi: seu filho Amnom violentou a própria irmã, Tamar, movido pela lascívia (2 Sm 13.15), e Absalão desejou ocupar o trono de seu pai enquanto Davi ainda era vivo e reinava em Israel (2 Sm 15.16).

No Novo Testamento, encontramos Ananias e Safira, que desejavam prestígio na Igreja, mas tentaram consegui-lo de maneira pecaminosa (At 5.1-1 1). Simão Mago, de Samaria, tentou comprar os dons de Deus com dinheiro, pois almejava poderes sobrenaturais para ostentação pessoal (At 8.18). Diótrefes, personagem desconhecida, cuja única menção no Novo Testamento é desabonadora, já que ele procurava ter o primado na Igreja (3Jo 9).

O DÉCIMO MANDAMENTO NO NOVO TESTAMENTO

O mandamento “Não cobiçarás se distingue dos outros nove por se tratar da motivação, e não do ato. Assim, é possível violar esse preceito sem que haja comprovação concreta. É o décimo mandamento que golpeia a própria raiz do pecado, o coração pecaminoso e o desejo perverso. O Senhor Jesus disse que é do mais íntimo do ser humano que procede todo o tipo de pecado: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.
Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7.21-23). A lista de Mateus é mais curta (Mt 15.19). Essas palavras mostram a dura realidade: o que o ser humano realmente é, isso afeta o que ele diz (Mt 12.34, 35). Toda ação humana começa no seu coração (Tg 1.14, 15).

O décimo mandamento era o recurso divino para o israelita se proteger de não violar nenhum dos mandamentos do Decálogo. Mas, na graça, somos guiados pelo Espírito Santo, o qual controla os nossos desejos. Assim, o preceito aqui em foco foi adaptado pela graça. Cabe a cada um vigiar e orar para não entrar pelo caminho da cobiça. Jesus disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lc 12.15).

A avareza é o apego demasiado e sórdido ao dinheiro, é o desejo de adquirir e acumular riquezas. Desse modo, os bens materiais se transformam em deus para os tais avarentos. A Bíblia afirma que a avareza é idolatria: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5).

A avareza e a cobiça caminham juntas. Ambas são impróprias para quem busca o reino de Deus (1 Tm 6.9, 10). Essas coisas são próprias para quem teme o futuro, desconfia de Deus e da sua providência. Não somente a avareza, mas também a inveja, pertence a esse grupo de pecados. A inveja é o “sentimento de pesar pelo bem e pela felicidade de outra pessoa, junto com o desejo de ter isso para si” (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 90). Todas essas coisas envolvem a cobiça, e a Palavra de Deus afirma com todas as letras que a cobiça é pecado (Rm 7.7).

A vontade de Deus expressa nesse último mandamento do Decálogo é que haja pleno contentamento com aquilo que temos e com a nossa condição: “Contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.14), ensino de João Batista para os militares. “Mas é grande ganho a piedade com contentamento” (1 Tm 6.6).

Quem tem Jesus não está obcecado pelas riquezas materiais, pois tem em seu interior algo muito mais valioso que os tesouros do mundo. A NTLH traduz esse versículo da seguinte forma: “É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem”.

A Bíblia nos exorta ainda: “contentando-vos com o que tendes” (Hb 13.5). Há aqui certo paralelo com Filipenses 4.11. Mas convém ressaltar que todas essas exortações não são uma apologia à pobreza nem uma defesa do status quo econômico; é uma recomendação para que nossos desejos não venham desagradar a Deus nem causar danos ao nosso próximo (Rm 12.15).

A conduta do cristão deve ser a de se alegrar com que os se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15). Ninguém deve ser dominado pela inveja (Gl 5.26; Tg 4.14-16) nem alimentar o sentimento de tristeza pelo sucesso alheio (Ne 2.10; SI 112.9, 10). Glorifique a Deus pelas bênçãos e pelo sucesso do seu irmão, e você será abençoado também, a seu tempo (Ec 3.1-8).

Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS
Livro Os Dez Mandamentos = CPAD = Esequias Soares