A Beleza da União entre os Filhos de Deus
17 de junho de 2008Ronald J. Sider descreve, com vivas cores, a comunhão dos santos: “Para os primeiros cristãos, koinonia não era a ‘comunhão’ enfeitada de passeios quinzenais patrocinados pela igreja”. Não era chá, biscoitos e conversas sofisticadas no salão social depois do sermão. Era um compartilhar incondicional de suas vidas com os outros membros do corpo de Cristo
Não há como discordar do teólogo norte-americano. Infelizmente, conseguimos transformar a comunhão dos santos num clube seleto, cujo acesso só está disponível àqueles que se encontram em nosso substrato social. Quantos aos outros, alijamo-los de nosso meio. Na Igreja Primitiva, todavia, os meios da graça achavam-se disponíveis a todos os santos sem quaisquer distinções.
A Igreja Primitiva era constituída de ovelhas procedentes dos mais variados e longínquos apriscos. Lá estavam os judeus; ali, os altivos romanos e os orgulhosos gregos. Mais além, os desprezados samaritanos. Aqui, os bárbaros e africanos que, apesar de suas heranças multicoloridas e ricas, não falavam ainda o heleno. Sob o estandarte do Cristo, porém, constituíam-se todos num único povo. Assim, ia a Igreja de Deus universalizando-se até alcançar os confins da terra sem impedimento algum.
1 - 0 QUE É A COMUNHÃO DOS SANTOS
Antes de definirmos a comunhão dos santos, atentemos a esta declaração do pastor e teólogo inglês Mathew Henry:
“Não devemos impor nenhuma condição para a aceitação de nossos irmãos, a não ser as que Deus impôs para aceita-los”. Depreende-se, pois, que a comunhão dos santos implica, primacialmente, na plena acolhida daqueles por quem Cristo morreu.
1 - Definição. A comunhão dos santos é o “vínculo espiritual e social estabelecido pelo Espírito Santo entre os que recebem a Cristo como o seu Único e Suficiente Salvador, Tendo como base o amor, esse vínculo faz com que os crentes sintam-se ligados num só corpo, do qual Cristo é a cabeça” = (Ef 4.1-16). Dicionário Teológico da CPAD.
A comunhão dos santos é conhecida, ainda, por estas designações: comunhão dos fiéis e congregação dos santos.
Richard A. Muller assim a define: “Comunidade cristã, É a Igreja vista como o corpo dos crentes, Visto serem santos os membros da Igreja, pode esta ser cognominada de comunhão dos santos”
2 - A origem da nomenclatura teológica. “Embora tal expressão não se encontre nas páginas do Novo Testamento sua idéia acha-se permeada em toda a Bíblia Sagrada”.
“Ela foi usada, oficialmente, pela primeira vez, num sermão pregado por Nicéias de Remesiana por volta de 400”.
A definição de Nicéias foi prontamente aceita pela comunidade teológica. Passados mais de mil e duzentos anos, fazendo uso dela, Matthew Henry descreve a comunhão dos santos como a mais perfeita das sociedades, por ter como base o amor de Deus que o Espírito Santo nos derramou no coração: “O homem é feito para a sociedade, e os cristãos, para a comunhão dos santos”. Que sociólogo teria condições de chegar a uma conclusão tão cristalina como essa? A comunhão dos santos, por conseguinte, é a mais perfeita das sociedades conhecidas entre os filhos de Adão e Eva.
II - A COMUNHÃO DOS SANTOS NA BÍBLIA
A comunhão dos santos é uma expressão teológica e historicamente forte. Quer na comunidade de Israel, quer na Igreja Primitiva, seu conceito não é um mero casuísmo; é uma pratica que leva o povo de Deus a sentir-se como um só corpo.
1 - A comunhão dos santos em Israel. Nos momentos de emergência nacional, levantavam-se os hebreus como um só homem. Isto mostra que, se um israelita sofria os demais padeciam; se uma tribo via-se em perigo, as outras sentiam-se ameaçadas. A fim de manter o seu povo unido, suscitava-lhe o Senhor líderes carismáticos como Gideão e Davi.
O amor entre os israelitas era realçado na Lei e nos Profetas. Os hebreus, por exemplo, não podiam emprestar com usura para seus irmãos. Quando da colheita, eram obrigados a deixar, aos mais pobres, as respigas. Foi o que aconteceu à moabita Rute.
Quando a comunhão dos santos em Israel era quebrantada, instalava-se a injustiça social, a opressão e a violência. Para conter todas essas misérias, erguia Deus os seus profetas que, madrugando, repreendiam os injustos, buscando reconduzi-los aos princípios da Lei de Moisés. No tempo de Neemias, a tensão social a tal ponto chegou que os israelitas mais pobres vendiam-se aos seus credores, a fim de resgatar suas dívidas. Alguns viam suas filhas serem oferecidas como escravas a povos estrangeiros.
2 - A comunhão dos santos em o Novo Testamento. Ao retratar a comunhão entre os santos, escreve o português Camilo Castelo Branco: “O amor de Deus é inseparável do amor do próximo. É impossível no coração humano o incêndio suavíssimo do amor de Deus, quando o grito da miséria não desperta no coração a mágoa das aflições do próximo”. Mais adiante, acrescenta Camilo: “Vede como eles se amam’ diziam os pagãos, quando a sociedade cristã repartia seus haveres em comunas, onde o grande despojado de suas galas, vinha sentar-se ao lado do pobre, vestido de uma mesma túnica, e nutrido por um semelhante quinhão nos ágapes da caridade”.
Sem a comunhão dos santos não pode haver cristianismo. Aliás, protestou alguém certa vez: “O amor é a única forma de nos sentirmos realmente cristãos”.
Todos os escritores do Novo Testamento, a exemplo do Salvador, realçaram a Comunhão dos santos.
No Sermão do Monte, ensinou Jesus os seus discípulos a se amarem uns aos outros; doutra forma: não seriam contados entre os seus seguidores. Lucas ilustra, com vivas cores, como era o cotidiano da comunidade cristã (At 2.42-26). Aliás, um casal morreu fulminado pelo Senhor por haver infligido o princípio básico da comunhão dos fiéis. Saulo descreve a unidade dos discípulos como o vínculo da paz. Já o apóstolo Tiago critica os crentes que, apesar de se apresentarem como tais, eram movidos pelo desamor e por um preconceito social em nada justificado diante de Deus.
III - A COMUNIDADE DOS BENS
O que acontecia na Igreja Primitiva? Não era uma experiência comunista como querem os sectários de Marx e Lênin. A única coisa que o comunismo logrou produzir foi uma legião de excluídos e miseráveis. A Igreja de Cristo, porém, já em seu nascedouro, mostrou o que pode fazer o amor de Deus com o qual o Espírito Santo nos unge o coração. Um amor que se traduz em prática e não em meros conceitos, O que dizer, por exemplo, da comunidade de bens?
1 - Comunidade de bens. Prática observada nos primeiros dias da Igreja, quando os crentes, premidos pelas circunstâncias e urgências da época, “vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade” (At 2.45).
A Igreja em Jerusalém experimentava uma verdadeira koinonia. Stott elucida-nos este interessante aspecto da união cristã: “Assim, koinonia é uma experiência trinitária; é a parte que temos em comum com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Mas koinonia também expressa o que partilhamos uns com os outros, tanto o que damos como o que recebemos. Koinonia é a palavra que Paulo usou para a oferta que recolheu entre as igrejas gregas, e koinonikos é a palavra grega para generoso”.
2 - A história da comunidade de bens. Segundo alguns historiadores, a comunidade de bens nasceu entre os essênios - seita judaica que floresceu durante o período interbíblico. Todavia, não levaram eles o projeto adiante, por causa de seu legalismo e desamor. Já entre os primeiros cristãos, a prática floresceu, traduzindo-se hoje em hospitais, asilos, creches, leprosários etc. Nenhuma outra religião, em toda a história, mantém laços tão firmes de amor como o Cristianismo.
O Cristianismo, portanto, nada tem a ver com a experiência comunista que, a partir de 1917, causou a morte de milhões de pessoas e levou a miséria a várias nações.
Os camaradas da Rússia e os companheiros de Cuba, em que pese sua propaganda, jamais lograram levar o bem-estar aos seus povos através da foice e do martelo. Uma foice, aliás, que não ceifou as colheitas prometidas. E o martelo que não trouxe os empregos anunciados?
Tão cruel é o comunismo que nenhuma importância dá à vida humana, conforme afirmou Lênin: “Que importa se noventa por cento da População da Rússia morrer, se os dez por cento sobreviventes se converterem à fé comunista?” Além de ser contrário à verdadeira koinonia cristã, ele é visceralmente adversário de Deus: “Todos precisam ser ateus. Nunca alcançaremos nosso alvo enquanto o mito de Deus não for removido dos pensamentos do homem”. Pobre e miserável Lênin; morreu e foi logo esquecido. Deus, todavia, continua a ser honrado inclusive nos países dantes comunistas.
IV - COMO VIVER A COMUNHÃO DOS SANTOS
Afirmou o reformador francês, João Calvino, que os salvos não devemos jamais descurar de nossa comunhão em Cristo Jesus:
“E indubitável que a nós compete cultivar a unidade da forma a mais séria, porque Satanás está bem alerta, seja para arrancar-nos da Igreja, ou para desacostumar-nos dela de maneira furtiva”.
Eis como poderemos viver em sua plenitude, a comunhão dos santos.
1 – Amando-nos uns aos outros. “Tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” = (1 Pe 1.22).
O amor entre os cristãos não pode ser um mero aparato social; é algo que parte de nosso interior até que venha a tornar real a koinonia exercida pelos irmãos da era apostólica. É justamente este amor que adorna a união cristã que, intensamente praticada, faz-se na forte e substanciosa doutrina.
2 - Simpatizando-nos uns com os outros. Simpatizar- se significa participar, sincera e amorosamente, com os sentimentos de nossos irmãos, conforme enfatiza o apóstolo Paulo:
“Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram” = (Rm 12.15).
A verdadeira comunhão não se manifesta apenas nos festins; torna-se real nos momentos de luto e de dor. Por isto, choramos com os que choram; com os que se alegram também nos alegramos. Em todas as instâncias da koinonia, somos senhores de nossos sentimentos conforme realça John Stott:
“O amor cristão não é vítima de nossas emoções, mas servo de nossa vontade”.
3 - Socorrendo os domésticos na fé. Quem são os domésticos na fé? Se bem atentarmos à epístola que enviou Paulo aos gálatas, verificaremos que são aqueles que fazem parte da família de Deus. Por conseguinte, devem eles ter a primazia dos santos em suas necessidades: “Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” = (Gl 6.10).
Socorramos os santos em suas necessidades e carências. Se um irmão tem fome, tenho eu a obrigação moral e espiritual de repartir com ele o trigo que do Senhor recebi. E, assim, com alguns peixinhos e pães, vai o Senhor Jesus nos multiplicando o alimento e saciando a fome dos que, ainda, não receberam o pão de cada dia.
4 - Orando uns pelos outros. “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e oral uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” = (Tg 1.16).
A comunhão dos santos traduz—se, ainda, num ministério de oração e intercessão. Se oro somente por min e por minha família, que koinonia exerço eu? Mas se oro por todos e não mais me lembro de mim, que beneficio posso usufruir? Quando oro por todos e não faço mais menção de minhas carências, é sinal que estas não existem mais; há sempre alguém orando por mim.
CONCLUSÃO
Não pode haver cristianismo sem a comunhão dos santos; esta, além de ser o vínculo da perfeição, torna visível a unidade da fé. Levemos em conta, também, ser a comunhão dos santos a recomendação que nos faz o Senhor Jesus: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” = (Jo 13.34).
Tem você mantido comunhão com os santos? Cultive-a, a fim de tornar-se, verdadeiramente, cristão. “Irmão amados - Santificados - Vivei unidos — Pois sois remidos, - Não mais temendo — O bem fazendo,/ No nome santo de Jesus!” (Harpa Cristã, 175).
As Disciplinas da Vida Cristã
Claudionor de Andrade
Primeira Edição 2008






9 de Junho de 2009 15:10
Não quero entrar no mérito da questão completa agora, mas apenas fazer uma pequena série de objeções quanto a um dos líderes que mais admiro na história da humanidade, Vladimir Illitch Ulianov, mais conhecido como Lênin.
Primeiramente, desconheço qualquer trabalho de lênin em que ele diga que a "Igreja Primitiva" (seja lá o que você quis dizer com isso) foi uma experiência comunista.
Quanto ao comunismo que produz excluídos e miseráveis, creio que você não conhece nada sobre o governo de Lênin. Este tirou a Rússia dá completa miséria e de um sistema feudal e a transformou na segunda maior potência industrial do mundo, com grande igualdade entre a população. Depois da subida de Stálin ao poder é que o comunismo soviético se tornou o que você conhece.
Como réplica, posso dizer que, estatísticamente, os países mais religiosos do mundo (cristãos ou não) são os mais miseráveis, com a possível excessão dos Estados Unidos da América. Os países desenvolvidos europeus, que contam com altíssimos IDH's possuem altos índices de ateísmo, agnosticismo e ausência de religiosidade.
Quanto às duas citações que você atribuiu ao Lênin (“Que importa se noventa por cento da População da Rússia morrer, se os dez por cento sobreviventes se converterem à fé comunista?” / “Todos precisam ser ateus. Nunca alcançaremos nosso alvo enquanto o mito de Deus não for removido dos pensamentos do homem”), peço que você me dê fontes delas. Até que me confirme, estou certo de que ele jamais disse tais coisas.
E, por favor, não se recuse a me dar as fontes... e, se elas não existirem, isso poderá ser caracterizado como desonestidade intelectual.
Você ainda diz que Lênin "morreu e foi logo esquecido". Isso é incorreto, hitoricamente. Ele é considerado um herói por muitas pessoas a sua obra na Rússia ainda desperta admiração nos socialistas de todo o mundo. Como réplica à declaração de que "Deus continua a ser honrado inclusive nos países dantes comunistas", retomo as estatísticas - a crença em Deus está diminuindo no mundo todo, especialmente nos países desenvolvidos e entre a camada esclarecida da população.
Abraço.